Helena acordou com a certeza incômoda de que algo havia mudado, não na rotina, não nos horários, mas no clima invisível que se instaurava quando duas pessoas sabiam que estavam fingindo. A casa ainda despertava do mesmo jeito — o silêncio inicial, a luz suave entrando pelas janelas amplas, o cheiro distante de café. Ainda assim, tudo parecia mais frágil. Ela se levantou com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse romper algo que ainda não tinha nome.
Na cozinha, encontrou Arthur já desperto. Ele estava sentado à mesa, o tablet desligado à frente, os dedos entrelaçados, o olhar fixo em um ponto indefinido da parede.
— Bom dia! — Helena disse, a voz baixa.
— Bom dia. — ela ergueu os olhos lentamente.
Houve uma pausa. Um intervalo pequeno demais para ser natural, longo demais para ser ignorado.
— Sofia ainda está dormindo. — ele informou, como se precisasse preencher o silêncio.
— Ela teve aula de artes ontem. — respondeu, cautelosa — Normalmente dorme mais nesses dias. — ele