A casa parecia ouvir. Arthur nunca acreditara nessas ideias — casas com memória, paredes que absorvem sentimentos, espaços que guardam ecos. Mas naquela manhã, ao atravessar a sala silenciosa demais, teve a impressão incômoda de que cada canto observava seus passos com expectativa contida.
Helena já estava acordada. Ele sabia antes mesmo de vê-la. A rotina dela deixara marcas invisíveis: o cheiro de café recém-passado, a mesa organizada, a mochila de Sofia posicionada exatamente no mesmo lugar de sempre. Tudo funcionava e, ainda assim, algo faltava.
— Bom dia. — Arthur disse, encontrando Helena perto da pia.
— Bom dia. — ela respondeu, educada, distante.
A distância não era física, era cuidadosa, calculada. Do tipo que protege, mas também afasta. Sofia surgiu logo depois, animada demais para notar a tensão.
— Hoje é dia de apresentação! — anunciou, rodopiando pela sala — A professora disse que os pais podem ir.
Arthur congelou por um segundo.
— Apresentação? — perguntou.
— Sim, papai.