CAPÍTULO 8 - O LIMITE DO TOQUE

Helena passou a noite acordada mais tempo do que gostaria de admitir, não por insônia comum, mas por excesso de consciência. Do espaço mínimo entre ela e Arthur na sala, do som da voz dele pronunciando seu nome como se fosse algo delicado demais para ser dito em voz alta. Do quase — que às vezes pesa mais do que o ato em si.

Na manhã seguinte, decidiu ser mais cautelosa. Profissional. Objetiva. Distante o suficiente para não alimentar o que ainda não tinha forma, mas já tinha peso. Arthur percebeu. Percebia tudo, mesmo fingindo o contrário.

— Bom dia! — disse ele, ao entrar na cozinha.

— Bom dia! — Helena respondeu, sem prolongar o olhar.

Sofia estava sentada à mesa, concentrada em colorir um desenho novo. Havia música baixa tocando ao fundo, algo instrumental, quase imperceptível.

— Hoje tem aula de artes! — Sofia anunciou — Posso levar o pincel novo?

— Pode! — Arthur respondeu automaticamente, mas seus olhos estavam em Helena.

Ela organizava a lancheira com eficiência impecável, nenhum gesto em excesso, nenhuma pausa desnecessária. Arthur sentiu um incômodo crescer no peito. O afastamento dela não era frio, era controle e aquilo o desestabilizava mais do que a proximidade.

-

Durante o dia, Helena se manteve ocupada. Escola, mercado, tarefas domésticas, uma breve conversa com Cecília sobre a rotina da semana. Tudo fluía, tudo parecia normal. Normal demais.

Quando Sofia voltou da escola, trouxe um papel dobrado com cuidado exagerado.

— É segredo! — disse, entregando a Helena.

Helena abriu com delicadeza. Era um desenho simples: três figuras de mãos dadas. Uma alta, uma média, uma pequena e acima delas, um coração torto.

Helena sentiu o impacto imediato.

— Quer que eu guarde? — perguntou, com cuidado.

— Quero mostrar pro papai! — a menina respondeu, travessa — Mas só quando ele estiver feliz.

Helena engoliu em seco.

— Ele vai gostar! — disse, mesmo sem ter certeza de quando seria esse momento.

-

Arthur chegou mais tarde naquela noite. O cansaço estava visível nos ombros tensos, no olhar pesado. Ele largou a pasta perto da porta e soltou o ar devagar.

— Dia difícil? — Helena perguntou, mantendo a voz neutra.

— Um pouco. — respondeu, neutro — Sofia já dormiu?

— Já.

Arthur assentiu e caminhou até a sala, sentando-se no sofá. Passou as mãos pelo rosto, um gesto raro de desgaste explícito. Helena hesitou… mas foi até a cozinha preparar um chá, não perguntou, não ofereceu conselhos; apenas colocou a xícara sobre a mesa baixa, à frente dele.

Arthur levantou o olhar.

— Obrigado.

Os dedos deles se tocaram por um segundo quando ele pegou a xícara. Foi quase nada, mas foi suficiente.

O toque foi breve, acidental, porém carregado de algo que nenhum dos dois conseguiu ignorar. Arthur retirou a mão primeiro, Helena respirou fundo.

— Helena… — ele começou.

— Se for para dizer algo, diga agora. — o encarou, séria. 

Arthur se levantou devagar, diminuindo a distância entre eles.

— Eu não sei onde isso vai dar, mas sei que fingir que não existe está ficando… impossível. — disse, com honestidade crua.

— Então estabeleça limites reais, não silenciosos, não implícitos. — disse, firme.

Arthur parou a poucos passos dela.

— Meu maior medo não é ultrapassar uma linha, é perder o controle depois. — confessou.

— Controle não sustenta vínculo, Arthur. Presença sustenta. — disse, aproximando-se.

Eles estavam perto demais agora. Arthur ergueu a mão, como se fosse tocar o rosto dela — e parou no meio do caminho, o gesto suspenso no ar era mais intenso do que qualquer toque.

Helena fechou os olhos por um segundo.

— Se não for agora, vai ser mais difícil depois. — disse, quase num sussurro.

Arthur baixou a mão, dando um passo atrás.

— Boa noite, Helena.

As palavras soaram como uma decisão… e uma renúncia. Helena assentiu, sentindo a mistura de alívio e frustração apertar o peito.

— Boa noite, Arthur.

Quando a porta do quarto dela se fechou, Helena encostou a testa na madeira fria, respirando fundo.

Do outro lado da casa, Arthur permaneceu parado na sala, encarando o próprio reflexo no vidro escuro da janela. Ele não a tocara, mas o limite tinha sido testado e ambos sabiam: na próxima vez, talvez não houvesse espaço para recuar.

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