Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena percebeu primeiro, não foi um gesto, nem uma palavra específica. Foi o clima. A forma como o ar parecia mais denso quando Arthur entrava em um cômodo, como os silêncios duravam um pouco mais, como os olhares se desviavam tarde demais. Ela já tinha vivido o suficiente para saber: quando algo não é dito, cresce.
Naquela tarde, Sofia estava na aula de balé — uma novidade recente que a deixava orgulhosa e inquieta ao mesmo tempo. Arthur havia insistido em levá-la, mesmo com a agenda apertada. Helena ficou em casa, sozinha.
A casa de Arthur Monteiro não era um lugar feito para solidão confortável. Os espaços amplos amplificavam pensamentos e, sem Sofia ali para ocupar cada canto com sua presença leve, Helena se viu pensando mais do que deveria. Pensando em Arthur, no homem por trás do CEO. No pai que tentava acertar, no olhar que ficava menos duro quando estava cansado demais para fingir.
Quando a porta se abriu, ela soube que era ele antes mesmo de ouvir os passos.
— A aula foi bem. — Arthur disse, tirando o paletó — Sofia se esforçou bastante.
— Imagino! — Helena respondeu, fechando o livro que fingia ler — Ela gosta de se sentir desafiada.
Arthur assentiu e caminhou até a cozinha. Serviu-se de água e bebeu em silêncio.
— Você está bem? — perguntou, por fim.
Helena se surpreendeu com a pergunta. Não pela preocupação em si, mas pela forma direta.
— Estou sim. — respondeu, calma — Por quê?
— Você parece… quieta demais hoje. — ela sorriu de canto.
— Diz o homem que construiu uma carreira inteira em cima do silêncio.
Arthur soltou uma risada breve. Quase imperceptível.
— Justo.
Eles ficaram alguns segundos em silêncio, lado a lado, mas não juntos. Uma distância mínima separava os dois — o suficiente para manter tudo sob controle ou assim Arthur acreditava.
— Helena, eu preciso estabelecer algo. — ele começou, a voz mais baixa.
— Estou ouvindo. — ela o encarou com atenção.
— Não quero ultrapassar limites, nem dar espaço para interpretações erradas. — disse, firme e Helena respirou fundo.
— Então seja claro.
Arthur hesitou. Pela primeira vez, ela o viu hesitar.
— Eu confio em você. — disse, finalmente — Com Sofia, com a casa, com… tudo isso. Mas confiança cria proximidade... — continuou, sincero — E proximidade pode confundir.
Helena sustentou o olhar dele, sem recuar.
— Confusão não nasce da proximidade, nasce da negação. — ela respondeu, simples.
Arthur desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos.
— Você sempre responde como se tivesse tudo muito bem resolvido.
— Não tenho.— ela disse, honestamente — Só aprendi a não fugir do que sinto.
Arthur fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia algo novo ali. Vulnerável. Perigoso.
— E o que você sente? — perguntou, antes que pudesse se impedir.
O coração de Helena acelerou.
— Sinto que estamos andando em círculos, fingindo que isso aqui é só convivência. — disse, sincera.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros, mais carregado, mais íntimo. Arthur deu um passo à frente. Helena não recuou. Eles estavam próximos demais agora para fingir neutralidade, o espaço entre eles parecia pulsar.
— Helena… — Arthur murmurou.
Antes que pudesse terminar, a porta se abriu com força.
— Papai!
Sofia correu pela sala, girando a pequena bolsa de balé no ar, o momento se quebrou como vidro fino. Arthur se afastou imediatamente, como se tivesse tocado em algo proibido.
— Você estava incrível! — ele disse à filha, agachando-se.
Helena respirou fundo, recompondo-se com cuidado.
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Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Arthur ficou sozinho na sala por muito tempo. Pensando no que quase aconteceu e no fato de que o maior perigo não era cruzar uma linha. Era continuar fingindo que ela não existia, porque o que não é dito encontra sempre uma forma de se tornar impossível de ignorar.







