Mundo de ficçãoIniciar sessãoA rotina, Arthur descobriu, era uma entidade frágil. Ela parecia sólida enquanto tudo permanecia sob controle, mas bastava um pequeno deslocamento para que começasse a revelar rachaduras e naquela semana, as rachaduras surgiram silenciosas — não em forma de crise, mas de escolha.
Arthur passou a chegar mais cedo em casa, não avisava, não explicava, apenas… chegava.
Na terça-feira, encontrou Helena sentada no chão da sala com Sofia, ambas cercadas por folhas coloridas, lápis espalhados e uma tesoura infantil que claramente já tinha visto dias melhores.
— Isso é um castelo? — ele perguntou, parando à porta.
Sofia ergueu os olhos, surpresa e animada.
— É uma casa mágica! — corrigiu — A Helena disse que casas podem mudar quando as pessoas mudam.
Arthur olhou para Helena, ela sorriu, quase culpada.
— Metáfora exagerada, eu sei. — disse, se rendendo.
Ele não respondeu, apenas se sentou no sofá e observou.
Durante vinte minutos, Arthur não pensou em relatórios, metas ou telefonemas. Observou Sofia explicar cada detalhe do desenho. Observou Helena ouvir com atenção absoluta, como se aquele fosse o assunto mais importante do mundo. Quando se deu conta, estava sorrindo.
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Na quarta-feira, foi Sofia quem mudou a rotina.
— Papai, você pode me levar na escola amanhã? — perguntou, casualmente, enquanto jantavam. Arthur hesitou.
— Amanhã tenho uma reunião cedo. — Sofia assentiu, compreensiva demais para os seus cinco anos.
— Tudo bem.
Mas Helena percebeu o que Arthur tentou ignorar: o pedido tinha sido feito com esperança.
Mais tarde, quando Sofia já dormia, Helena organizava a cozinha quando Arthur se aproximou.
— Posso levá-la. — ele disse, como se estivesse negociando consigo mesmo.
— Ela vai adorar. — Helena sorriu.
— Eu também. — confessou, respirando fundo.
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Na manhã seguinte, Arthur acordou antes do despertador novamente. Vestiu-se de forma menos formal, deixou a gravata de lado e foi até o quarto de Sofia.
— Pronta para ir comigo? — perguntou, encostado no batente.
Sofia abriu um sorriso enorme.
No caminho até a escola, ela falou sem parar. Sobre colegas, histórias, professores. Arthur ouviu tudo com atenção verdadeira — algo que não fazia há tempo.
Quando a deixou no portão, Sofia o abraçou forte.
— Obrigada por vir.
Arthur fechou os olhos por um instante.
— Sempre que puder. — prometeu, sabendo que aquela promessa era mais complexa do que parecia.
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Helena percebeu a mudança. Não precisava de confirmação verbal, estava nos pequenos gestos: Arthur perguntando como tinha sido o dia de Sofia, sentando-se à mesa durante o jantar, desligando o telefone com mais frequência e estava também no modo como ele olhava para ela. Não como chefe, não apenas como alguém funcional mas como alguém que fazia parte da engrenagem silenciosa que sustentava aquela casa.
Na sexta-feira à noite, Sofia dormiu cedo, exausta da semana cheia. A casa ficou quieta demais.
Helena se levantou para recolher as canecas de chá quando Arthur falou:
— Você mudou a dinâmica daqui. — ela parou.
— Não foi minha intenção mudar nada, só preencher o que já estava vazio. — respondeu, sincera.
Ele se aproximou.
— Nem sempre é confortável, mas é necessário.
Eles ficaram a poucos passos de distância, perto demais para ignorar, longe demais para tocar.
— Eu preciso ser claro, não quero confundir as coisas.
Helena sustentou o olhar dele.
— Então não confunda. — respondeu — Mas não finja que nada está acontecendo.
O silêncio que se seguiu foi intenso, denso, vivo. Arthur deu um passo atrás.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite, Arthur.
Ela foi para o quarto sentindo o coração acelerar — não por medo, mas por consciência — porque a rotina havia mudado e quando a rotina muda, o coração começa a pedir espaço. E nenhum dos dois estava realmente pronto para negar isso por muito mais tempo.







