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Capítulo 3: O Banquete de Sangue e Ouro

O grande salão do palácio de Blackthorn transbordava opulência e tensão. Longas mesas de carvalho estavam cobertas por banquetes fartos, taças de prata cheias de vinho e candelabros de ouro que projetavam sombras dançantes pelas paredes de pedra gótica. Nobres de várias alcateias aliadas vestiam suas melhores sedas e peles, rindo e conversando alto.

No entanto, por trás da música e da celebração, o ar estava impregnado pelo cheiro forte de testosterona e ambição. Todos os Alfas presentes queriam a atenção do Rei.No topo do estrado, Kael Blackthorn estava sentado em seu trono de pedra escura. Ele vestia uma túnica preta com detalhes dourados que acentuavam seus ombros largos e sua postura imponente. Seus cabelos escuros caíam desalinhados sobre a testa, contrastando com o maxilar rígido e os olhos sombrios que inspecionavam o salão com frieza calculista.

Ao seu lado esquerdo, a Rainha-Mãe, Evelyn, sorria falsamente para os convidados, enquanto o Sumo Sacerdote Malakor observava tudo de longe, como um corvo esperando o momento de agir.Kael mal tocara em sua taça. Desde que entrara no salão, seu lobo interior andava de um lado para o outro em sua mente, arranhando suas barreiras mentais. O aroma de lavanda e camomila que ele sentira mais cedo na janela havia sumido temporariamente, abafado pelos perfumes caros e pelo cheiro de suor dos guerreiros, mas a inquietação em seu peito apenas crescia.

Na base do salão, misturando-se entre os servos, Lyra Ashbourne tentava passar despercebida. Seguindo o conselho desesperado de seu pai, ela vestia um vestido simples de tecido escuro e havia jogado seus volumosos cabelos cacheados para a frente, cobrindo completamente os ombros e a nuca. Ela segurava uma pesada bandeja de prata com jarras de vinho, movendo-se com cuidado entre as mesas dos guerreiros.

Lyra tentava não olhar para o trono, mas seus olhos dourados, brilhando como âmbar sob a luz das velas, pareciam magneticamente atraídos para o homem sentado no topo do estrado. Kael era ainda mais intimidante de perto. Havia uma aura de poder puro e perigo ao redor dele que fazia o estômago de Lyra revirar. O mais estranho, porém, era a queimação em sua nuca. A marca da lua crescente ardia tanto que parecia uma lâmina em brasa cortando sua pele.

— Mais vinho aqui, ômega! — um beta robusto ordenou, batendo a taça vazia na mesa perto de Lyra.Ela engoliu em seco, aproximando-se para servir o guerreiro. Suas mãos tremeram levemente, mas ela manteve a cabeça baixa, focada em não derramar uma única gota.Neste exato momento, um Alfa de uma alcateia vizinha levantou-se abruptamente para saudar o Rei, esbarrando violentamente no ombro de Lyra.

A bandeja de prata escorregou de suas mãos. O som do metal batendo contra o chão de pedra ecoou pelo salão, interrompendo momentaneamente a música dos menestréis.

O vinho tinto espalhou-se como sangue pelo chão. Em um reflexo puramente defensivo para limpar a própria saia, Lyra jogou a cabeça para o lado, e o movimento repentino fez com que seus cachos escuros escorregassem para a frente, expondo completamente as costas de seu pescoço.No topo do estrado, Kael congelou.O aroma de lavanda e camomila explodiu no ar com uma força avassaladora, atingindo os sentidos do Rei Alfa como um soco. Nas profundezas de sua alma, o lobo de Kael soltou um uivo ensurdecedor que fez o próprio Rei arfar, segurando as laterais do trono de pedra com tanta força que suas garras rasgaram o material.

As pupilas de Kael dilataram-se instantaneamente, assumindo um brilho azul-escuro mortal. Ele se levantou do trono em um único movimento tenso, atraindo os olhares surpresos de sua mãe e de todo o salão. Seus olhos varreram a multidão como um predador em busca de sua presa, até que pararam na jovem ômega ajoelhada no chão, tentando recolher os pedaços da bandeja.

O tempo pareceu parar. Uma onda de choque elétrico invisível cruzou a distância entre eles, fazendo a pele de ambos formigar. O vínculo de companheiros destinados havia despertado. Não era um sussurro; era um clamor divino. A Deusa da Lua havia falado, unindo o Rei Alfa mais poderoso dos Sete Reinos à ômega mais humilde de Blackthorn.

"Minha." — o lobo de Kael rugiu em sua mente com uma possessividade violenta, tentando assumir o controle. Ele queria descer do estrado, afastar todos os guerreiros com os dentes e reivindicar aquela mulher de cabelos cacheados e olhos de âmbar diante de toda a corte.No entanto, quando Kael deu o primeiro passo à frente, sua mãe, Evelyn, segurou firmemente o seu pulso. Ela olhava para Lyra lá embaixo com uma expressão de puro horror e nojo. O salão inteiro começou a sussurrar, percebendo a reação mística do Rei e a comoção ao redor da serva.

— Kael, controle-se — Evelyn sibilou, a voz baixa e urgente. — Uma ômega comum? A Deusa só pode estar testando sua liderança. Os outros seis reinos estão nos portões esperando um sinal de fraqueza. Você não pode aceitar uma serva sem linhagem, sem poder político e sem uma loba dominante como sua Luna. Isso seria a ruína do nosso nome!

Ao lado dela, o Sumo Sacerdote Malakor aproximou-se, estreitando os olhos astutos para a jovem no chão. Seu olhar fixou-se na nuca exposta de Lyra, onde uma marca escura em forma de lua crescente cortava a pele. Para Malakor, aquilo não passava de uma deformidade.

— Uma criatura defeituosa, Majestade — Malakor murmurou, destilando seu preconceito aristocrático. — Veja aquela cicatriz de nascença horrorosa em seu pescoço. Ela é fraca, comum e indigna de gerar os herdeiros de Blackthorn. Diante da ameaça de guerra que descobrimos na fronteira, o Conselho da Lua jamais reconhecerá uma união que enfraqueça o trono. O dever exige um sacrifício.

Kael parou no meio do degrau, a respiração arfante. Um conflito brutal desfigurou suas feições perfeitas. De um lado, o chamado selvagem de seu lobo implorando para que ele protegesse sua companheira. Do outro, o orgulho de um monarca, as manipulações de sua mãe e a doutrina cega do Conselho da Lua que ele defendera por toda a vida.

Ele acreditava piamente que, se demonstrasse fraqueza escolhendo o amor em vez do poder político, colocaria a segurança de todo o seu povo em risco. Lá embaixo, Lyra estava caída de joelhos, o coração batendo descompassado contra as costelas. Ela sentia o choque místico do vínculo queimar em suas veias, mas, ao erguer os olhos dourados, não viu o acolhimento nos olhos azuis-escuros de Kael. Viu apenas a frieza calculista de um governante que colocava a coroa acima da alma.

O medo deu lugar a uma terrível premonição: a humilhação estava apenas começando.

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