Capítulo 4: A Sentença do Rei Alfa

O silêncio que caiu sobre o grande salão de Blackthorn era pior do que o rugido de uma horda de rebeldes. Centenas de pares de olhos alternavam-se entre o topo do estrado real e a jovem ômega ajoelhada no chão, cercada pelas poças de vinho tinto que imitavam sangue sobre a pedra fria. Ninguém ousava respirar.

O choque místico que fizera o ar vibrar segundos antes ainda ecoava nas paredes góticas, mas a atmosfera espiritual foi rapidamente sufocada pelo peso esmagador do preconceito.Kael Blackthorn permanecia estático no meio do degrau do estrado. Seus dedos, outrora prontos para rasgar o ar em defesa de sua companheira, agora estavam cerrados ao lado do corpo. Por dentro, seu lobo arranhava as paredes de sua mente, uivando em agonia, implorando para que o Rei descesse aqueles degraus e reivindicasse a mulher de cabelos cacheados e olhos de âmbar. Mas as regras implacáveis de seu mundo falavam mais alto.

Um Rei não escolhe o amor. Um Rei escolhe a força.Kael olhou para os Alfas aliados sentados às mesas e leu o julgamento estampado em seus rostos. Se ele aceitasse uma ômega sem linhagem, desprovida de qualquer poder de combate e cujo lobo era considerado o elo mais fraco da alcateia, Blackthorn seria vista como um alvo fácil. Para os líderes presentes, Lyra não passava de uma serva irrelevante, uma garota fraca e comum cujo útero jamais geraria os guerreiros dominantes de que o reino precisava. Diante das ameaças misteriosas que surgiam nas fronteiras, o orgulho de Kael não permitiria que ele fosse ridicularizado por escolher uma ômega comum. Forçando os olhos azuis-escuros a perderem qualquer traço de brilho ou calor, Kael desceu o restante dos degraus com passos medidos e aristocráticos. Cada batida de suas botas pesadas contra o chão parecia o bater de um martelo em um julgamento.Lyra continuava de joelhos.

O choque inicial do vínculo místico começara a se transformar em uma queimação dolorosa no peito. Ela viu Kael se aproximar, e por um milésimo de segundo, uma centelha de esperança tola brilhou em seus olhos dourados. Ela esperou ver o companheiro que a Deusa da Lua havia escolhido, o homem cujos tronos habitavam seus sonhos. Em vez disso, encontrou a máscara de gelo do monarca implacável.

Kael parou a menos de dois metros dela. Ele não se inclinou. Não estendeu a mão para ajudá-la a levantar do chão sujo de vinho. Ele apenas olhou para ela de cima, como se estivesse inspecionando uma súdita insignificante.

— Qual é o seu nome, ômega? — a voz de Kael ecoou pelo salão, fria, distante e desprovida de qualquer emoção.Lyra engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. O orgulho que ela nem sabia que possuía a fez erguer o queixo, encarando-o de volta, apesar do tremor em suas mãos.

— Lyra Ashbourne, Majestade — respondeu ela, a voz firme o suficiente para ser ouvida pelas primeiras fileiras de mesas. — Filha do curandeiro.

Sussurros maldosos e risadinhas irromperam entre os nobres. A filha do curandeiro. Uma ômega fraca. Uma zé-ninguém. A Rainha-Mãe, Evelyn, observava do alto com um sorriso gélido de satisfação, enquanto Malakor mantinha os dedos entrelaçados, saboreando a vitória da doutrina do Conselho sobre os laços de companheiros. Para todos ali, a ideia de Lyra ser a Rainha era uma piada de mau gosto.Kael fechou os olhos por uma fração de segundo, engolindo o gosto amargo da própria escolha. Quando os abriu, suas pupilas estavam completamente escuras. O lobo dele havia recuado para as profundezas, amordaçado pela força de vontade do Alfa.

— A Deusa da Lua move os fios do destino de formas que nem sempre compreendemos, Lyra Ashbourne — Kael declarou, projetando sua voz para que todo o salão ouvisse claramente sua posição. — Mas o destino de um Rei pertence ao seu povo. Blackthorn enfrenta tempos de guerra e incerteza. Minha Luna deve ser uma fortaleza, um escudo político e militar para os Sete Reinos. O trono não pode ser entregue a alguém comum, sem força e sem uma linhagem de guerreiros para defender nossa bandeira.

Lyra sentiu o ar sumir de seus pulmões. Ela percebeu o que estava prestes a acontecer. O vínculo em seu peito começou a se contorcer, como se uma corda estivesse sendo esticada até o limite da ruptura. Ela não era uma ameaça; era apenas uma garota comum sendo esmagada pelo peso de coroas que nunca pediu para carregar.

— Kael... — o nome escapou de seus lábios em um sussurro desesperado, quebrando o protocolo real. Não era um apelo à realeza, mas uma súplica de alma para alma.

O Rei Alfa não hesitou. Ele precisava terminar aquilo antes que seu próprio controle se despedaçasse diante dos convidados. Ele estufou o peito e pronunciou as palavras antigas, o decreto que nenhum lobo jamais desejava ouvir de seu parceiro.

— Eu, Kael Blackthorn, Rei Alfa da Alcateia Blackthorn e protetor dos Sete Reinos, rejeito você, Lyra Ashbourne, como minha companheira destinada e Luna do meu trono. Que a Deusa aceite minha escolha e livre meu reino de uma união fraca.

No exato momento em que a última palavra saiu da boca de Kael, algo dentro de Lyra se rasgou. Não foi uma metáfora; foi uma dor física, violenta e dilacerante. Uma agonia que começou no centro do seu peito e se espalhou por cada veia de seu corpo, como se sua própria alma estivesse sendo arrancada à força com ganchos de ferro.

Lyra soltou um grito dilacerante, um som de sofrimento que chocou até mesmo os guerreiros mais experientes do salão.Ela desabou completamente sobre o chão de pedra, arqueando as costas, com as mãos cravadas no peito enquanto lágrimas de dor escorriam por suas bochechas. O vínculo místico que a unia a Kael havia sido quebrado pelo decreto do Alfa, deixando em seu lugar um vazio negro e sangrento.

Kael deu um passo involuntário para trás. A dor da rejeição também o atingiu, uma pontada aguda em seu coração que o fez perder o fôlego por um instante, mas seu status e orgulho permitiram que ele se mantesse de pé, engolindo a agonia enquanto observava a destruição que acabara de causar.

— Levem-na daqui — Kael ordenou aos guardas, a voz ligeiramente trêmula, embora ele tentasse disfarçar. — E limpem o salão. A celebração deve continuar.

Dois guardas betas aproximaram-se de Lyra, segurando-a pelos braços de forma rude e arrastando seu corpo trêmulo e semi-consciente para fora do grande salão, sob os olhares de desdém e as risadas abafadas da corte. Ninguém teve piedade da ômega comum e fraca que acabara de ser descartada. Para eles, o Rei havia apenas corrigido um erro do destino.

Enquanto era arrastada pelas portas pesadas em direção à escuridão da noite fria, Lyra sentiu a consciência começar a falhar devido à dor excruciante. No entanto, nas profundezas daquele vazio doloroso que Kael deixara em seu peito, algo novo e assustador começou a se agitar. Não era a submissão de uma ômega comum. Era uma fúria silenciosa e implacável que começou a se alimentar de sua humilhação.

Kael Blackthorn achava que havia protegido seu orgulho e seu reino ao rejeitá-la por sua fraqueza. Mas, sem saber, ele acabara de acender o estopim da força que um dia o faria cair de joelhos.

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