Capítulo 5: O Sangue nas Sombras

O escuridão que tragou a consciência de Lyra não trouxe paz, apenas um deserto de frio e cinzas. Quando suas pálpebras finalmente tremularam e se abriram, o teto de vigas de madeira da cabana de seu pai levou longos segundos para se estabilizar. Seu peito ardia com uma intensidade assustadora. A dor física da rejeição de um Alfa dominante era descrita nos livros antigos como a sensação de ter a carne rasgada por brasas, mas a realidade era infinitamente pior. Lyra sentia como se um pedaço vital de sua própria alma tivesse sido extirpado à força, deixando um buraco negro e sangrento sob suas costelas.

— Lyra... Graças à Deusa. — A voz trêmula de Thomas ecoou ao lado da cama.

O velho curandeiro segurava uma xícara de barro com uma infusão fumegante de raiz de lótus e papoula, mas suas próprias mãos vacilavam tanto que o líquido quase transbordava. O rosto de seu pai parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite. Os olhos dele estavam vermelhos, carregados de uma mistura de impotência e puro terror.

Lyra tentou se sentar, mas um gemido de pura agonia escapou por entre seus lábios secos. Suas pernas pareciam feitas de chumbo, e sua loba interna — outrora uma presença silenciosa e mansa — agora jazia encolhida e ferida nos recessos de sua mente, soltando ganidos fracos de dor.

— Ele me rejeitou, pai... — Lyra sussurrou, e a primeira lágrima quente riscou sua bochecha pálida, trazendo consigo o sabor amargo da humilhação pública que sofrera diante de toda a corte de Blackthorn. — Na frente de todos. Ele me chamou de fraca. De comum.

— Eu sei, minha menina, eu sei... — Thomas pousou a xícara na mesa de cabeceira e segurou as mãos frias da filha. — Aquele monstro cego... Ele não sabe o que fez. Mas nós não temos tempo para chorar. O salão real não foi o fim. O perigo real acabou de cruzar a nossa porta.

Antes que Lyra pudesse perguntar o que o pai queria dizer, o vento uivou do lado fora, batendo contra as janelas da cabana de forma violenta. Mas não era um vento comum. O cheiro que invadiu as frestas da madeira fez os poucos instintos de ômega que restavam em Lyra entrarem em pânico. Não era o aroma dos guerreiros da alcateia. Era o cheiro gélido de acônito, prata e intenção assassina.

Eles estão aqui. — Um aviso silencioso pareceu estalar na mente de Lyra, uma intuição mística que ela nunca experimentara antes.

— Pai... — ela começou, mas Thomas já estava se levantando, puxando uma adaga de ferro debaixo do colchão e empurrando Lyra de volta para os lençóis.

— Eles vieram terminar o serviço, Lyra. O Conselho da Lua... Malakor viu algo em você. Eles não querem apenas uma ômega rejeitada. Eles querem você morta antes que o sol nasça. Você precisa fugir pelos fundos, agora!

A porta da frente da cabana implodiu.

Estilhaços de madeira voaram pelo ambiente quando três figuras cobertas por capas cinzentas e máscaras de ferro invadiram a casa do curandeiro. Eles não portavam os machados brutos dos guerreiros de Blackthorn, mas sim adagas longas e finas, banhadas em veneno de prata, armas típicas dos carrascos do Conselho da Lua.

Thomas avançou com uma coragem que não combinava com seu corpo cansado, brandindo sua adaga contra o primeiro invasor.

— Corra, Lyra! — o velho gritou.

Mas a disparidade de força era brutal. O carrasco de capa cinzenta desviou com facilidade e desferiu um soco violento no estômago de Thomas, arremessando o curandeiro contra a estante de poções. Dezenas de frascos de vidro se espatifaram, e Thomas desabou no chão, inconsciente e sangrando.

— Pai! — Lyra gritou, tentando se arrastar para fora da cama, mas seu corpo fraco pela rejeição falhou. Ela caiu de joelhos no chão de terra batida.

O segundo assassino se aproximou dela com passos lentos e deliberados. Ele ergueu a lâmina de prata reluzente sob a luz da lua que entrava pela porta destruída. Seus olhos, por trás da máscara de metal, eram desprovidos de qualquer piedade. Para ele, ela era apenas uma ômega fraca e comum cujo ciclo de vida terminaria ali.

Lyra fechou os olhos, encolhendo-se e levando as mãos à nuca de forma instintiva. No momento em que seus dedos tocaram a marca em forma de lua crescente, a pele queimou com um calor sobrenatural. Não era a dor da rejeição. Era um calor de poder, um pulso de energia antiga que fez seu coração bater como um tambor de guerra.

A lâmina do assassino desceu em direção ao seu peito.

Antes que o metal tocasse sua pele, uma flecha com ponta de obsidiana cortou o ar da cabana, cravando-se com precisão cirúrgica na garganta do carrasco. O homem soltou um som sufocado e caiu para o lado, morto antes mesmo de atingir o chão.

O terceiro assassino recuou, assustado, mas não teve tempo de reagir. A janela lateral da cabana foi estilhaçada quando duas figuras vestidas com armaduras de couro negro e mantos escuros invadiram o local. O movimento deles era uma dança mortal de velocidade e precisão que Lyra nunca vira em nenhum guerreiro de Blackthorn. Em menos de três segundos, o último carrasco do Conselho teve o pescoço quebrado por uma das figuras ocultas.

O silêncio voltou a reinar na cabana, quebrado apenas pela respiração arfante de Lyra.

Uma das figuras — uma mulher de postura ereta, cabelos curtos e olhos cinzentos e afiados como lâminas — embainhou sua espada curta e caminhou até Lyra. Ela não exibia a arrogância dos Alfas dominantes, mas carregava uma reverência solene em cada movimento. Ela se ajoelhou diante da ômega caída, mas não por piedade. Era respeito.

— Nós a encontramos, minha senhora — a guerreira misteriosa disse, sua voz ecoando com uma firmeza absoluta. — O sangue da Primeira Rainha ainda corre.

Lyra, trêmula e confusa, olhou para os corpos dos assassinos e depois para a mulher à sua frente.

— Quem são vocês? — a voz de Lyra falhou. — Eu sou apenas... uma ômega comum. O Rei me rejeitou. Eu não sou ninguém.

A guerreira estendeu a mão enluvada para ajudar Lyra a se levantar, exibindo no bracelete de metal o mesmo símbolo que Lyra carregava na pele: uma lua crescente perfeita, cercada por sete estrelas.

— O Rei Alfa é um tolo cego pelas mentiras do Conselho, Lyra Ashbourne. Ele rejeitou a mulher que deveria governar, para manter um trono feito de farsa — a mulher respondeu, ajudando Lyra a ficar de pé enquanto o outro guardião recolhia o corpo inconsciente de Thomas para protegê-lo. — Nós somos os Guardiões da Linhagem Original. Juramos nossas vidas à verdadeira profecia. O Conselho da Lua sabe que o seu despertar começou, e eles vão caçar você até os confins da terra. Blackthorn não é mais segura. Você precisa vir conosco se quiser sobreviver e cobrar o preço por essa humilhação.

Lyra olhou para trás, para o Palácio de Blackthorn que se erguia imponente no topo da colina ao longe. Kael Blackthorn achava que a havia descartado para proteger seu orgulho e sua coroa. Ele a deixara para morrer no chão do vilarejo.

Limpando o sangue e as lágrimas do rosto, Lyra sentiu o vazio em seu peito ser preenchido por uma determinação gélida e inabalável. Ela segurou a mão da guerreira desconhecida.

— Tirem-me daqui — ordenou Lyra, sua voz mudando, perdendo o tom submisso de ômega e assumindo o primeiro vislumbre de autoridade real. — Ensine-me a lutar. Ensine-me a fazê-los pagar.

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