Mundo de ficçãoIniciar sessãoCinco anos atrás, Celine Sinclair desapareceu sem deixar rastros. Determinada a fugir do destino que seu pai havia traçado para ela, a mesma abandonou tudo para estudar Arquitetura no exterior, acreditando que, ao voltar, finalmente poderia construir a sua própria vida. Mas alguém fez isso antes. Ao retornar, Celine descobriu que seu nome tinha sido destruído. Amigos a odeiam, antigos colegas a desprezam, a sociedade a enxerga como uma mulher arrogante, manipuladora e cruel. Até mesmo sua própria família parece estar convencida de que ela é exatamente esse tipo de pessoa. O motivo? Durante sua ausência, uma impostora viveu como se fosse ela. Enquanto a falsa Celine acumulava escândalos, humilhava pessoas influentes e enterrava sua reputação, os verdadeiros responsáveis observavam tudo das sombras, esperando o momento perfeito para eliminar a legítima herdeira da fortuna dos Sinclair. Sem provas, sem aliados e sem entender quem armou aquela conspiração, Celine precisará recuperar sua identidade antes que perca muito mais do que apenas a sua herança. Em busca pela verdade, apenas um homem parece acreditar nela desde o início. Liam Kingsley. Herdeiro do maior império tecnológico do país e rival da família Sinclair, Liam foi uma das poucas pessoas que percebeu que havia algo de errado com a “Celine” dos últimos anos. Enquanto os dois unem forças para desvendar um plano cuidadosamente arquitetado, descobrem que a mulher roubou sua identidade, guarda um segredo ainda mais impossível do que qualquer mentira.
Ler maisO céu sobre a pista de pouso parecia feito de uma fuligem densa.
Pelo vidro embaçado da janela do avião, Celine Sinclair observava as luzes da pista piscarem ritmicamente, ela respirou fundo, sentindo o ar condicionado gelado da nave enquanto escutava a voz robótica da aeromoça que apresentava as instruções de pouso em seu idioma natal. Cinco anos. Faziam cinco anos desde a última vez que Celine pisara os pés no país que chamava de lar desde nascença. A ruiva ainda se lembrava do dia em que a mesma havia decidido fugir de casa para seguir seus sonhos. Tinha recém-completados dezoito anos e estava cansada das brigas intermináveis com seu pai, que não aceitava ter uma filha que preferia seguir uma carreira ao invés de se casar em prol da empresa familiar. Agora, aos vinte dois anos de idade, Celine retornava com seu tão sonhado diploma de Arquitetura, uma breve experiência de estágio e um sonho de mostrar para o seu pai que ele estava errado. Um contraste gigante de cinco anos atrás, quando a mesma fugiu apenas com uma mochila, sua carta de aceitação e um bilhete só de ida para Veridia. Naquela época, o medo era seu único combustível, hoje, a determinação ditava o ritmo de seus passos, misturada a uma ansiedade que apertava seu peito à medida que a aeronave reduzia a velocidade na pista. Assim que o avião pousou, Celine seguiu pelo terminal de desembarque. Seus cabelos ruivos presos num rabo de cavalo desarrumado, balançavam de um lado para o outro enquanto a mulher observava o ambiente tão novo e, ao mesmo tempo, familiar que a mesma se encontrava. O eco dos passos dos passageiros, o anúncio dos voos no alto-falante e o vai e vem de malas criavam uma sinfonia caótica que a trazia de volta à realidade de onde viera. Cruzou as portas automáticas e sentiu o ar bater no rosto, parou por um instante. A cidade se erguia diante dela com sua arrogância de vidro e aço, arranha-céus competindo com o céu cinzento de uma tarde de outono. Sorriu. Aquela era a cidade onde nascera. Que amava apesar de tudo.× ▪︎ × ▪︎ × A primeira coisa que Celine fez ao chegar, foi comprar um chip novo. Com medo que sua família fizesse de tudo para encontrá-la, a ruiva abriu mão de tudo que pudesse a rastrear, incluindo seus eletrônicos e suas preciosas amizades. Fora um isolamento autoposto, uma armadura necessária para que ninguém a puxasse de volta para a gaiola de ouro dos Sinclair. Ela sabia o quão longe o poder de seu pai alcançava e não podia correr riscos. O aeroporto era extremamente próximo a um dos principais shoppings da cidade, permitindo com que Celine pegasse o metrô sem muitas preocupações. Há cinco anos atrás, usar o transporte público era uma opção inconcebível a filha mais velha dos Sinclair, mas a experiência da mesma como uma jovem universitária qualquer em Veridia a ensinou coisas além do conhecimento técnico que ela esperava adquirir. Aprendeu a se misturar na multidão, a valorizar o suor do próprio trabalho e a navegar pelo mundo sem o sobrenome influente para lhe abrir portas. O metrô, antes visto com preconceito em seu círculo social, agora era apenas mais um símbolo de sua independência conquistada. Encontrando um canto reservado naquele ambiente, o que era uma verdadeira raridade entre o fluxo constante de consumidores e sacolas. Celine ajeitou a alça da bagagem de mão e puxou o celular recém-configurado. Com o coração martelando contra as costelas e os dedos ligeiramente frios, ela começou a digitar um número que estava gravado no fundo de sua memória, o número de Sarah Sterling. Sarah. Melhor amiga de Celine desde os cinco anos de idade, quando as duas foram apresentadas por suas famílias, Sarah era a única que conhecia não apenas todos os seus segredos, mas também entendia os sonhos e aspirações de Celine. Enquanto o resto do mundo a via apenas como a herdeira rebelde e mimada, Sarah enxergava a arquiteta talentosa que clamava para sair daquela redoma. Fugir sem avisar e não manter o contato nos últimos cinco anos com a mesma era o maior arrependimento da Sinclair. Ela sabia que tinha sido egoísta, mas a paranoia de colocar Sarah na mira da fúria de seu pai a fizera tomar a dolorosa decisão de cortar os laços de forma abrupta. Ela esperava que, ao ver seu diploma e entender seus motivos, a amiga encontrasse espaço para perdoá-la. O telefone tocou uma vez, depois duas, na terceira vez, a linha fez um ruído físico e foi atendida. — Alô? — a voz de Sarah soou distante, hesitante, cortada pelo barulho abafado do que parecia ser o saguão de algum lugar movimentado. — Sarah! — O sorriso de Celine explodiu no rosto, um gesto quase infantil que há anos ela não esboçava. — Sou eu. Celine. Acabei de desembarcar. Estou de volta! O silêncio do outro lado da linha foi tão denso, tão repentino e absoluto, que Celine pensou por um segundo que a ligação havia caído. Afastou o aparelho do ouvido com a testa franzida e olhou para a tela iluminada. Ainda em chamada. Os segundos começaram a passar no cronômetro do visor de forma torturante, pesando como chumbo. Vinte segundos. Trinta. — Sarah? Você está aí? — Celine insistiu, o tom de voz vacilando, a euforia inicial sendo firmemente substituída por um nó na garganta. Ela conseguia ouvir a respiração pesada do outro lado. — Você tem coragem — a voz saiu cortante, como vidro quebrado sobre concreto. — Depois de tudo o que fez, depois de como me tratou no meu aniversário, depois de... — Sarah engasgou-se, e por um momento Celine pensou que choraria. Mas quando a voz voltou, estava temperada por algo pior que tristeza. Ódio. — Você é nojenta, Celine. Uma pessoa podre, egoísta e cruel. Não me ligue nunca mais. A ligação cortou com um bipe seco. Celine ficou parada onde estava. Abaixou lentamente o celular, o braço caindo ao lado do corpo como se pesasse uma tonelada. Sua expressão mostrava o quão perdida se sentia e sua palidez repentina entregava o balde de água fria que aquela ligação havia sido para ela. É claro que a mulher sabia que o mundo não era um conto de fadas. Ela passara os últimos meses se preparando psicologicamente para o fato de que demoraria um certo tempo para reconstruir a amizade com Sarah. Afinal, cinco anos sem contato era muito tempo para se ignorar. Ela esperava mágoa, esperava cobranças chorosas, ressentimento pelo sumiço ou até mesmo um distanciamento inicial por conta da quebra de confiança. Ela só não esperava que Sarah falasse com ela assim, com tanto ódio e… desprezo? O que acabou de acontecer? As palavras da amiga ecoavam na mente de Celine, deixando um rastro de confusão. Aniversário? Ela não falava com Sarah desde os dezoito anos. De onde vinham acusações tão pesadas como ser uma pessoa "podre e cruel"? A recepção da antiga amiga encheu seu coração de dúvidas, agora, Celine se perguntava se retornar havia sido a melhor decisão. Seus dedos tremiam quando tentou ligar de novo, recusando-se a aceitar que aquela agressividade gratuita fosse o fim da história das duas. A chamada foi direto para a caixa postal. Terceira tentativa. Bloqueado. Um sentimento de nervosismo tomou conta de seu estômago, uma náusea fria e incômoda que a fez dar um passo para trás. Estava convencida de que seja lá quais fossem as motivações da Sterling, algo estava muito errado. Aquela reação não condizia com a Sarah que conhecia, e as acusações pareciam saídas de um contexto que Celine desconhecia por completo. Havia uma lacuna colossal entre o que ela vivera em Veridia e o que Sarah acreditava que tinha acontecido. Ainda faltavam 3 horas para que ela pudesse fazer o check-in no Airbnb que havia alugado, horas essas, que a ruiva esperava ocupar com uma longa conversa com Sarah, buscando se atualizar com tudo que havia ocorrido nos últimos cinco anos. Ela imaginava o reencontro em uma mesa de café, trocando confidências sobre suas vidas adultas e curando as feridas do passado. Mas agora, esses planos obviamente estavam fora de cogitação. Sozinha no meio da multidão anônima, Celine sentiu o peso do isolamento que ela mesma escolhera no passado se voltar contra ela. Ela precisava de respostas reais, precisava entender o cenário em que estava pisando antes de se arriscar a procurar o resto de sua família. Não podia simplesmente aparecer na porta de seu pai sem compreender o terreno. Celine resolveu ir até o lugar onde provavelmente descobriria as maiores atualizações da alta sociedade. O lugar onde as aparências reinavam, os boatos ganhavam força de lei e as reputações eram dissecadas entre uma xícara de porcelana e outra. O Café Élysée.As portas de cristal se abriram para Celine como a boca de uma baleia luminosa, engolindo-a em um vórtice de luz dourada, champanhe e perfume caro. O salão principal do Palácio de Cristal era uma caixa de vidro e aço suspensa no céu de Ameria, com tetos de quinze metros de altura e paredes inteiriças de vidro que revelavam a cidade como um pano de fundo de joalheria.Milhares de cristais pendurados em fios invisíveis capturavam a luz de refletores estrategicamente posicionados, transformando o ar em uma chuva congelada de arco-íris.O salão já fervilhava. Mesas redondas cobertas por toalhas de linho branco-imaculado pontilhavam o espaço como ilhas de civilização em um mar de seda e smoking. Ao centro, uma escultura de gelo na forma de fênix derretia lentamente sobre uma base de prata, gotas sendo capturadas por bandejas de cristal em um ritmo hipnótico.Ela apertou a clutch preta contra o quadril, sentindo o suor da palma escorregar pelo couro. Não era medo, ela se dizia. Era ten
O crepúsculo ainda não havia se rendido completamente à noite quando o som da campainha cortou o silêncio do apartamento.Celine estava sentada na beira da cama de casal, vestindo apenas uma camisola de seda cinza, os olhos fixos no vestido que pendia do batente da porta do guarda-roupa. A peça preta com bordados de prata, selecionada por Valentina dias antes, absorvia a luz fraca do quarto como um buraco negro repleto de promessas. Ela se levantou, sentindo o frio do piso de cerâmica contra os pés descalços, e abriu a porta.Duas mulheres ocupavam o patamar do corredor. A primeira, alta e esguia, carregava uma maleta de alumínio que parecia conter instrumentos cirúrgicos. A segunda, menor e redonda, segurava uma bolsa de lona cheia de pincéis e paletas. Ambas vestiam preto, como se o luto fosse uniforme obrigatório daquela profissão.— Senhorita Moore? — A alta falou primeiro, a voz seca e eficiente. — Valentina Kingsley nos contratou. Sou Clara, estilista. Essa é Diana, maquiador
O quarto ainda cheirava a sua mãe. Lavanda. Pó de arroz. A essência de uma mulher que havia partido sem saber que estava sendo substituída antes mesmo de seu corpo esfriar.Celine não chorou.Chorar parecia uma fraqueza que ela não podia se permitir, não naquele dia, não naquela casa. Em vez disso, ela sentiu algo dentro de si endurecer, uma camada de gelo se formando sobre um lago que jamais descongelaria completamente.Ela não desceu para o jantar.Não desceu no dia seguinte.Nem no outro.A greve de fome não foi planejada. Não havia manifesto infantil, não havia chantagem consciente. Era apenas a recusa absoluta de um corpo pequeno em participar de um mundo que havia se tornado intolerável. A governanta trouxe bandejas que ficaram intactas na escrivaninha. O pai bateu na porta, primeiro com autoridade, depois com algo que poderia ser confundido com preocupação, se Celine ainda acreditasse que ele era capaz de tal emoção.Ela não abriu.No terceiro dia, o mundo já girava em tons de
Ela piscou. Uma. Duas vezes. Esperando que a imagem se dissipasse como um erro de percepção, um fantasma provocado pelo estresse dos últimos meses.Mas Ethan não sumiu.— Você está bem? — ele repetiu, e a voz saiu mais profunda do que ela lembrava, carregada da mesma educação rígida que todos os Sinclair recebiam desde o berço. A mão dele ainda segurava seu cotovelo, firme, quase protetora, e Celine sentiu o toque queimar através da manga do blazer como uma marca de ferro.Ela abriu a boca para responder, mas o que saiu foi um som rouco, estrangulado, uma nota dissonante que não parecia humana. Porque naquele segundo, não era Lisa Moore que estava de pé no mármore polido do Shopping Diamond. Era Celine Sinclair aos dez anos de idade, parada na escadaria da mansão familiar, vendo seu mundo ruir pela primeira vez.× ▪︎ × ▪︎ ×Ela lembrava do cheiro. Lírios brancos, encomendados pela governanta para perfumar o hall de entrada, misturados ao aroma de cera de mármore e à frialdade do





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