Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol nasceu sobre a Alcateia Blackthorn tingindo o céu de um tom pálido e frio. Kael Blackthorn não havia dormido bem. Sentado em seu escritório particular, ele encarava o mapa de patrulhas estendido sobre a mesa de madeira, tentando focar nas linhas de defesa da fronteira norte.Em seu peito, um incômodo surdo e constante latejava de forma intermitente. Era uma sensação estranha de vazio, como se faltasse ar em seus pulmões.
Kael apertou o próprio esterno com o punho, irritado. Sabia que aquilo era apenas o reflexo físico da rejeição da noite anterior; o corpo de um Alfa levava dias para se reajustar após cortar o vínculo com uma parceira. Ele limpou a mente. Fora uma decisão puramente necessária. Uma ômega fraca e sem linhagem jamais sobreviveria às pressões políticas que um Rei enfrentava todos os dias. O dever vinha primeiro.A porta do escritório foi aberta após duas batidas firmes. O Comandante da Guarda, um beta robusto chamado Brandon, entrou com a postura tensa. — Majestade — Brandon saldou, batendo o punho no peito. — Temos uma ocorrência no vilarejo inferior. A cabana do curandeiro Thomas foi invadida durante a madrugada. Há sinais de combate. Kael ergueu os olhos azuis-escuros, a testa se franzindo em uma linha rígida. — Rebeldes? — A voz do ReiAlfa saiu seca. — Alguém furou o nosso bloqueio da fronteira? — Não sabemos, senhor. Mas a cabana está revirada e há corpos no local. Kael levantou-se, vestindo seu manto de couro pesado sobre a túnica militar. A menção de uma invasão dentro de seu próprio território era uma afronta direta ao seu comando. Ele cruzou as escadarias do palácio com passos largos e firmes, descendo a colina em direção à área residencial dos plebeus. Ao chegar à cabana de Thomas, um cordão de isolamento de guerreiros continha os curiosos da alcateia. A porta de madeira estava danificada, com marcas claras de arrombamento. O cheiro adocicado de ervas medicinais pisoteadas misturava-se ao odor metálico de sangue fresco.Kael entrou na cabana, inspecionando o cenário com o olhar analítico de um general. Pratos quebrados, estantes derrubadas e frascos de vidro moídos cobriam o chão de terra batida. No canto da sala, cobertos por panos rústicos, jaziam dois corpos. O Rei aproximou-se e puxou o tecido de um deles. O invasor vestia roupas escuras de viagem e trazia o rosto parcialmente coberto. Não carregava brasões ou insígnias familiares. Kael tocou o cabo da adaga que o homem trazia na cintura; era aço comum, áspero e sem marcação de ferreiro real. — Lobos renegados — Kael declarou, levantando-se e limpando os dedos na capa. Sua voz não demonstrava preocupação, apenas uma irritação fria. — Vagabundos da floresta tentando saquear o curandeiro ou vingar-se de algum soldado ferido que tratamos ontem. Eles usaram a movimentação do banquete para agir. — Faz sentido, Majestade — Brandon concordou, olhando ao redor. — Mas quem quer que tenha atacado, não contava com uma resistência. Esses dois foram eliminados com precisão. Há marcas de flechas de caça e cortes limpos. O curandeiro Thomas não teria força para isso sozinho. Kael caminhou até o canto oposto, parando diante da cama estreita que pertencia a Lyra. Os lençóis estavam revirados. O cheiro sutil de lavanda e camomila ainda pairava no ar, mas estava desaparecendo rapidamente. — Onde estão o velho e a garota? — perguntou Kael, a voz soando mais distante. — Desaparecidos, senhor. Rastreando as pegadas do lado de fora, parece que eles foram levados, ou fugiram floresta adentro com a ajuda de terceiros. Há rastros de cavalos que não pertencem às nossas cocheiras. Kael apertou os maxilares. Uma coisa era rejeitar uma ômega fraca para preservar o status do trono; outra bem diferente era permitir que membros de sua alcateia sumissem debaixo de seu nariz. Aquilo era uma falha de segurança inaceitável. Ele imaginou Lyra, uma garota comum e sem defesas, correndo apavorada pela floresta fria ou sendo mantida refém por saqueadores. O pensamento fez o vazio em seu peito arder com uma pontada incômoda. — Brandon, coloque uma patrulha secundária no rastro deles — Kael ordenou, voltando-se para a saída. — Não mobilize os guerreiros de elite; temos assuntos mais importantes com os Alfas aliados no palácio hoje à tarde. Mas quero saber quem violou minhas leis territoriais. Se os renegados pegaram o curandeiro e a ômega, tragam-nos de volta para que a justiça de Blackthorn seja feita na praça pública. — Sim, Majestade. Kael saiu da cabana e começou a subir a colina de volta ao palácio gótico. O assunto parecia encerrado em sua mente: um ataque comum de bandidos aproveitando o caos de uma noite de festa. Ele não fazia ideia de que os corpos no chão eram carrascos profissionais e que as roupas comuns eram apenas disfarces. Para o Rei Alfa de Blackthorn, a rejeição de Lyra fora apenas um evento político superado, e a busca por ela era apenas uma patrulha de rotina. Ele estava completamente cego para a imensa teia de aranha que o Conselho da Lua começava a tecer ao seu redor.






