Mundo ficciónIniciar sesiónEla era a filha intocável do inimigo. Ele era o criminoso que deveria destruí-la. Nenhum dos dois esperava se apaixonar. Isadora Monteverde nasceu entre luxo, obediência e mentiras. Filha de um dos homens mais poderosos do país, ela sempre foi tratada como uma joia rara: protegida, vigiada e prometida a um casamento perfeito. Até ser sequestrada por Gael Donovan. Foragido, perigoso e movido por vingança, Gael quer atingir o pai de Isadora no lugar onde mais dói: sua filha intocável. Mas a herdeira mimada que ele esperava encontrar se revela uma mulher feroz, teimosa e impossível de ignorar. Enquanto fogem pelo interior, entre ameaças, segredos de família e noites tensas demais para serem inocentes, o ódio entre os dois começa a se transformar em desejo. E Isadora descobre que talvez seu sequestrador não seja o verdadeiro vilão da história. Ela deveria odiá-lo. Ele deveria usá-la. Mas algumas prisões começam a parecer liberdade.
Leer másEu nunca fui de reclamar de festa, mas aquela estava me matando de um jeito muito específico.
Duzentas pessoas, três horas em pé num salto de doze centímetros, o sorriso travado na bochecha direita como uma máscara que alguém havia pregado com cola, e o corpete do vestido apertando na costela esquerda em cada respiração.
O vestido era lindo, era Valentino, era branco com bordado de renda que tinha levado duas costureiras três semanas para terminar, e eu o odiava com toda a minha alma naquele momento. Tinha também a bolha no calcanhar direito que havia estourado uma hora antes e que doía de um jeito surdo e constante, como se meu próprio pé estivesse me julgando por ter escolhido aquele salto.
Meu nome é Isadora Monteverde. Vinte e quatro anos, filha única de Augusto Monteverde, o homem cujo sobrenome abria portas em três estados, fazia delegados atenderem o telefone no domingo e garantia que eu nunca esperasse fila em lugar nenhum na vida. Cresci sabendo exatamente como me comportar em qualquer situação: salto alto e coluna reta, aperto de mão firme, sorriso que não mostrava dentes demais. Era uma habilidade como outra qualquer. Como tocar piano: você aprende, você pratica, você executa.
Do outro lado do salão, Renato Lacerda conversava com um deputado que eu não me lembrava o nome. Renato era bonito, de terno azul, filho de juiz, formado em direito, com o tipo de sorriso que aparecia exatamente no momento certo. Era o tipo de homem que meu pai aprovava, o que diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo.
Nas últimas semanas, ele me havia ligado quatro vezes para falar sobre o casamento, sobre o apartamento, sobre a lista de convidados, e em nenhum momento havia perguntado como eu estava me sentindo sobre qualquer uma dessas coisas. Eu não tinha certeza se ele havia percebido que eu era uma pessoa com sentimentos, ou se isso simplesmente não era relevante para o projeto que nós dois representávamos.
Mas meu pai havia decidido, e quando Augusto Monteverde decidia, o mundo se reorganizava em torno disso.
Às dez da noite eu escorreguei para os jardins dos fundos pela porta lateral que ficava perto da adega, que ninguém usava depois das oito, e que eu havia descoberto aos quinze anos precisamente para momentos como aquele. Cinco minutos. Era tudo que eu precisava, cinco minutos sem fotógrafo, sem político me chamando de joia da família como se eu fosse um item num inventário, sem Renato me tocando o braço com aquela possessividade ensaiada que parecia retirada de um manual de como parecer apaixonado em eventos sociais.
Tirei os sapatos na grama e fechei os olhos. O jardim cheirava a jasmim e a terra úmida, e do salão chegava a música abafada, e por um momento foi suficiente.
Então, a mão cobriu minha boca antes que eu ouvisse qualquer coisa. Grande, áspera, quente, a mão de um homem que havia trabalhado com as mãos a vida inteira, não a mão de ninguém do meu mundo. Tentei gritar. O som morreu na garganta.
"Não grita." A voz era baixa e rouca, com sotaque do interior que eu não soube colocar em nenhuma cidade específica. "Não vai adiantar nada."
Girei os olhos o máximo que consegui. Vi o chapéu preto primeiro, aba larga, velho, o tipo de chapéu que nenhum homem do meu mundo usaria em nenhuma circunstância. Depois a arma na cintura, presa num coldre de couro escuro que parecia tão natural nele quanto um relógio seria em qualquer outro homem.
"Vou tirar a mão," ele disse, com aquela mesma calma irritante, como se estivéssemos tendo uma conversa normal sobre o clima. "Se gritar, não te machuco, mas complica muito as coisas pra você."
Concordei com a cabeça. Ele tirou a mão e eu me virei.
Era alto, moreno de sol, com uma cicatriz pequena na sobrancelha direita e um olhar que não me deu nem um milímetro de abertura. Bonito do jeito perigoso, não do jeito de Renato, que era bonito de forma calculada e inofensiva. Bonito do jeito de uma tempestade que você vê chegando no horizonte e sabe que vai te pegar de qualquer forma.
"Quem é você?" minha voz saiu menor do que eu queria.
"Seu pai me conhece por Donovan."
O nome não me disse absolutamente nada.
Ele fez um gesto para o portão dos fundos, um lugar onde eu nunca havia ido porque ficava além dos jardins formais, além dos limites do que me ensinaram a percorrer desde criança.
"Anda."
"Com licença?" Até naquela situação completamente absurda, a resposta saiu automática do lugar onde minha mãe havia instalado as boas maneiras quando eu tinha quatro anos. "Você está seriamente esperando que eu vá a algum lugar com você agora?"
"Eu estou mandando você vir." Ele já estava se virado para o portão, como se a questão fosse meramente logística.
Eu abri a boca e fechei. Porque havia algo na forma como ele disse isso, não como uma ameaça vaga, mas como um fato que ele conhecia com a precisão de quem já viu os detalhes operacionais.
Olhei para trás. As luzes do salão, os convidados em silhueta, meu pai gesticulando para alguém com aquela tranquilidade absoluta de quem controla tudo dentro daquelas paredes.
"Por que está fazendo isso?" perguntei.
Ele já caminhava, de costas para mim, em direção ao portão escuro.
"Seu pai vai pagar por tudo."
Eu estava na terceira gaveta quando ouvi a porta.Tinha começado pela prateleira, depois fui para o baú no quarto menor, depois para a cozinha, vasculhando tudo com a sistemática de quem precisa muito de uma coisa específica e está disposta a aceitar qualquer aproximação razoável dela. Não havia papel em lugar nenhum daquela cabana, nem caneta, nem lápis, nem nada que se parecesse remotamente com instrumento de escrita, e a frustração disso havia crescido ao longo da manhã até virar uma obsessão pequena e teimosa."O que você está fazendo?"Gael estava no vão da porta com o cabelo ainda úmido do rio, a camisa colada nos ombros, olhando para a gaveta aberta na minha frente com uma expressão que misturava cautela e algo próximo de diversão contida."Procurando uma coisa," eu disse, sem parar de remexer."Isso eu vi. Procurando o quê?""Preciso de algo pra escrever.""Escrever o quê?""Isso não importa agora." Fechei a gaveta com mais força do que pretendia. "Você tem papel em algum luga
Acordei sozinha.Levei um segundo para registrar isso, deitada na cama de palha que Gael havia arrumado para mim num canto da cabana na noite anterior, longe o suficiente do dele para ser apropriado e perto o suficiente para ser, eu suspeitava, proposital. A luz que entrava pela fresta da porta era de manhã cedo, ainda baixa, com aquela cor amarelada que o sol tem antes de decidir que vai ficar quente.Não ouvi nada. Nenhum som de respiração do outro lado da cabana, nenhuma bota arrastando na madeira, nenhum daqueles ruídos pequenos que eu já havia aprendido a catalogar sem perceber que estava catalogando.Me sentei.O canto onde ele dormia estava vazio. O cobertor dobrado num jeito quadrado e militar que combinava perfeitamente com a personalidade dele, a mochila ainda encostada na parede, mas nenhum sinal do próprio Gael em lugar nenhum visível da cabana.Levantei e fui até a porta.O pátio estava vazio também. Não havia cavalo amarrado onde ele costumava deixar o baio. Não havia o
A água esfriou antes de eu terminar.Não me importei. Fiquei parada embaixo do fio que escorria do balde furado que Gael havia pendurado num gancho do galpão, com a água passando pelos ombros e descendo pelas costas, e deixei o frio chegar porque era limpo e porque havia dias de poeira e medo e cerrado acumulados na pele que eu precisava tirar com mais força do que qualquer desconforto de temperatura.Usei o sabão de barra no cabelo pela segunda vez na vida adulta. Não havia ninguém para me contar que seria um desastre, então simplesmente fiz e decidi lidar depois. Havia algo levemente libertador nisso. Havia algo libertador em muita coisa que eu havia feito na última semana que eu preferia não examinar com cuidado ainda.Estava me enxugando quando ouvi o passo.Não foi aviso. Foi a tábua gemendo sob o peso de alguém que não havia calculado que eu ainda estaria ali, e então Gael estava no vão da entrada com um punhado de panos dobrados no braço e nenhum de nós dois teve tempo de fazer
O pássaro estava preso há tempo suficiente para ter desistido de se debater.Eu o encontrei de manhã cedo, quando fui até o lado do galpão buscar lenha para o fogareiro, e ele estava ali, um sabiá pequeno com a asa direita enredada num arame que havia sobrado de uma cerca velha, a ponta do arame presa num galho baixo de um jeito que a tentativa de voar só havia piorado. Ele ficou completamente imóvel quando me aproximei, aquela imobilidade específica de animal que já aprendeu que se mover dói e está esperando para ver o que vem a seguir."Fica quieto," eu disse, com uma voz que eu tentei fazer soar tranquilizadora e que provavelmente não soou nada disso.Me agachei. O arame estava enrolado em duas voltas ao redor da pata e uma ao redor da ponta da asa, e a lógica de como desfazer aquilo não era imediatamente óbvia porque cada movimento puxava alguma outra coisa. O pássaro me olhava com um olho redondo e âmbar e não se mexia, e havia algo naquele olho que era tão completamente sem opçã
Último capítulo