Mundo de ficçãoIniciar sessãoO solavanco rústico das rodas de madeira contra as pedras da estrada fazia cada osso do corpo de Lyra Ashbourne clamar por misericórdia. Ela estava deitada de lado sobre uma pilha de sacos de estopa cheios de grãos, no fundo de uma carroça de carga coberta por uma lona gasta.
O cheiro de mofo e poeira sufocava seus sentidos, mas era o vazio avassalador em seu peito que drenava sua vontade de se mover. A dor da rejeição pública de Kael Blackthorn não havia diminuído com o amanhecer; ela havia se transformado em uma queimação fria, uma âncora pesada que puxava sua loba para uma letargia profunda. Lyra tentou fechar os punhos, mas seus dedos estavam fracos. Ela, que passara a vida cuidando da dor alheia na cabana do curandeiro, agora se via incapaz de curar a própria alma.Ao seu lado, sob a penumbra da lona, Thomas repousava com a cabeça enfaixada. A respiração do velho curandeiro era pesada, mas estável. Os Guardiões haviam cuidado de seus ferimentos com ervas que Lyra mal conseguira reconhecer pelo aroma antes de desabar de exaustão durante a madrugada.A lona da carroça foi levemente afastada, deixando uma réstia de luz solar pálida entrar no espaço apertado. A guerreira de olhos cinzentos e cabelos curtos, que se identificara na noite anterior como Gwyn, olhou para dentro. Ela guiava os cavalos com uma mão enquanto mantinha o olhar atento na floresta que cercava a estrada de terra. — Você está acordada — Gwyn observou, sua voz mantendo um tom neutro, desprovido da falsa piedade que Lyra tanto temia. — Beba isto. Vai ajudar a assentar o sangue. Gwyn estendeu um pequeno frasco de metal. Com um esforço monumental, Lyra apoiou-se no cotovelo e pegou o objeto, levando-o aos lábios. O líquido tinha um gosto amargo de casca de carvalho e ferro, mas quase imediatamente uma sensação de calor espalhou-se por suas veias, aplacando o tremor em suas mãos. — Para onde estão nos levando? — a voz de Lyra saiu rouca, quase um sussurro. — A patrulha de Blackthorn vai caçar vocês se descobrirem que invadiram o vilarejo inferior. Gwyn soltou uma risada curta, sem humor, sem desviar os olhos da estrada. — O Rei Alfa de vocês está ocupado demais bajulando os emissários do Conselho da Lua no palácio para se importar com o desaparecimento de uma ômega e de um velho curandeiro. Para Kael Blackthorn, a cabana de vocês foi apenas um alvo fácil para saqueadores da floresta. Ele não faz ideia de quem nós somos, ou do que realmente aconteceu sob o teto daquela cabana. Lyra baixou os olhos dourados, engolindo em seco. A menção ao nome de Kael fez seu coração falhar uma batida. A humilhação de ser descartada por ser considerada "comum e fraca" ainda ardia como ferro em brasa em sua mente. — Vocês me chamaram de algo ontem à noite... — Lyra continuou, tocando a própria nuca por cima do cabelo cacheado, onde a marca da lua crescente agora repousava fria. — Disseram que o sangue da Primeira Rainha corre em mim. Meu pai nunca me falou sobre isso. Eu passei vinte e dois anos limpando feridas de betas e costurando calças de guerreiros. Eu não sou uma rainha. Sou apenas uma ômega sem alcateia. Gwyn puxou as rédeas dos cavalos com firmeza, fazendo a carroça desacelerar enquanto entravam em uma trilha mais densa e sombria, onde as árvores antigas pareciam fechar as copas sobre eles, bloqueando a luz do sol. — Thomas escondeu a verdade para manter seu pescoço colado ao corpo, Lyra. Se o Conselho da Lua suspeitasse que a linhagem original não foi totalmente extinta há milhares de anos, Blackthorn teria sido reduzida a cinzas antes mesmo de você aprender a andar — Gwyn explicou, virando o rosto levemente para encarar a jovem. — Você não precisa acreditar em coroas ou tronos agora. Seu corpo está quebrado pelo vínculo que Kael rasgou, e sua mente está cheia de medo. Isso é normal. Não esperamos que você governe amanhã. A carroça parou completamente diante de uma parede de rocha maciça cobertas por trepadeiras secas, no coração do norte profundo. O outro guarda oculto desceu do banco da frente, sacando uma adaga comum para cortar a folhagem, revelando uma antiga estrutura de pedra cinzenta encrustada na montanha. — Mas o mundo está mudando, Lyra — Gwyn concluiu, descendo da carroça e estendendo a mão para ajudar a jovem a sair de cima dos sacos de estopa. — O Conselho da Lua está caçando sussurros de uma profecia, e eles não vão parar até encontrar um bode expiatório. Você pode escolher deitar-se aqui e morrer pela rejeição de um Alfa arrogante... ou pode entrar nessa passagem, aprender quem você realmente é e descobrir que o mundo é muito maior do que os muros de Blackthorn. A escolha é sua. Lyra olhou para a mão de Gwyn e depois para a escuridão da abertura na rocha. Ela sentia o corpo fraco, a alma ferida e o futuro completamente incerto. Mas quando pensou no salão real, nas risadas dos nobres e no olhar gélido de Kael Blackthorn enquanto a condenava à insignificância, algo mudou dentro dela. O medo não desapareceu, mas a submissão de ômega que a dominara por toda a vida começou a dar lugar a uma teimosia silenciosa.Ela não aceitou a mão de Gwyn. Em vez disso, usando o restante de suas forças, Lyra arrastou-se para fora da carroça e colocou os pés no chão de terra por conta própria, mantendo a cabeça erguida apesar da tontura. — Eu não vou morrer em uma carroça — Lyra declarou, a voz ganhando uma firmeza gélida que fez Gwyn erguer as sobrancelhas em sutil aprovação. — Mostre-me o caminho.






