Capítulo 6 - A Escolhida da Deusa

Samantha

Era uma voz feminina, antiga, sem idade, que falava sem pressa e ocupava o espaço certo, como água achando caminho entre pedras.

— Filha.

Minha espinha inteira se alinhou. O pescoço, os ombros, tudo se fez atento por dentro de uma reverência que não se inclina, se ergue.

— Deusa… — o nome se fez sopro na boca — eu… eu não sei o que dizer.

— Não diga. Sinta.

A claridade se concentrou nas minhas mãos. Uma sensação morna percorreu minhas palmas, subiu pelos braços, abriu um corredor entre o estômago e o peito.

Eu fechei os olhos. Não era medo. Era reconhecimento. Como quando a gente volta para um cômodo da infância e encontra a cadeira de sempre no lugar de sempre, mas, agora, grande.

— Você se sente rejeitada pelos homens… — a voz prosseguiu, sem julgamento — mas não foi rejeitada pela Lua. O que ele negou diante dos seus, eu escrevi em você antes do primeiro uivo. Não confunda o gesto de um com o destino de todos.

— Dói. — confessei, nua de fingimento — Dói de um jeito que eu nem sei explicar.

— A dor queima o que é excesso. — respondeu — O que sobra, é seu. O resto não te pertence.

A claridade se abriu mais uma vez, e eu vi coisas que não eram exatamente imagens… um lobo enorme, escuro, ajoelhando sem querer. Uma matilha em torno de um fogo que não mata, aquece. Crianças correndo sobre grama molhada.

O rio onde eu estava agora, cheio de luz, e, de repente, o que parecia minha própria mão erguendo-se para barrar algo que vinha contra mim, e parando. Não com força muscular, mas com uma ordem que saía de algum lugar dentro do meu osso.

— Você foi apontada para liderar o que ainda não sabe nomear. — a voz disse, firme — E liderança não é trono, é coluna. Você pode treinar o corpo para a guerra. Eu vou treinar o que a carne não alcança.

Arwen fez um som de aprovação, uma alegria contida.

— “Eu disse…”

— E eu achei que estava louca. — um sorriso cansado me pegou de surpresa — Deusa… se você me quer inteira, me ensina a levantar sem virar pedra. Eu não quero endurecer do jeito que eles endurecem.

— Pedra não dança com a maré. — Havia doçura na resposta — Você terá de ser firme sem perder a quentura. Doce sem perder o fio. Branda sem ceder à covardia. Para isso, vou acender em você o que foi depositado por quem veio antes.

— Quem… veio antes?

O brilho ficou mais delicado. Eu “vi” uma mulher que não conhecia e, ainda assim, parecia minha… cabelos escuros, olhos luminosos, mãos desenhando símbolos no ar. Ao redor dela, lobos mais fortes que o ferro baixando as cabeças não por medo, mas por reconhecimento. Não era adoração. Era acordo.

— Sua ancestral. Sacerdotisa da minha casa. O sangue dela corre em você. O que repousou por gerações, eu desperto agora.

Arrepios atravessaram minha pele. O vento mudou de direção e trouxe um perfume desconhecido, algo entre alecrim e noite limpa. Minhas mãos, ainda banhadas de claridade, formigaram.

Eu senti, como quem nota uma janela que dá para um jardim, que havia um espaço novo dentro de mim. Um lugar silencioso, daquele silêncio bom que não pesa, onde cabia comando sem grito, cura sem milagre, visão sem delírio.

— E o que eu faço com isso? — perguntei, tão prática quanto sempre fui — Com esse… lugar?

— Você não fará nada hoje. — A resposta veio sem pressa — Hoje você recebe. Amanhã, obedece ao que o corpo pedir. Depois, aprende a dizer sem levantar a voz.

— Dizer o quê?

— Que ninguém rasga o que Eu fio.

A frase ficou na clareira como um selo. O brilho, então, começou a recolher-se devagar, como água voltando ao leito. Eu continuei de joelhos, as mãos ainda quentes, o rosto úmido não sei mais se de lágrimas ou do orvalho que caía mais grosso. Arwen encostou a cabeça no meu peito, eu a abracei por dentro, e nós duas respiramos juntas.

— Eu não sou atalho. — repeti para mim, pensando em Ayres, no olhar duro que escondia menino ferido — E não vou mendigar o que é meu por direito.

— Não mendiga. — a Deusa repetiu, com uma nota que soou quase maternal — Recebe. E cuida.

— De quê?

— De quem vier. Dos seus. De si.

A mata voltou a produzir seus sons. Um bicho correu entre as folhas, a água brincou com pedras, a Lua manteve-se no alto, agora mais prateada do que antes. Eu me levantei devagar, como quem experimenta um corpo renovado. As pernas ainda tremiam, mas não por vergonha. Por potência.

— Arwen? — chamei, sentindo minha loba alongar o dorso, satisfeita.

— “Eu estou aqui. Eu sempre estive.”

— Eu acho que… — procurei a palavra certa e encontrei o que cabia — eu acho que acordei.

— “Você começou.” — Arwen sorriu de um jeito que só lobo sabe sorrir — “E começo não é pouco.”

Dei um passo, depois outro. O mundo parecia o mesmo e, ao mesmo tempo, outro. Na borda da clareira, algo cintilou. Aproximei-me por instinto.

Entre duas raízes retorcidas, havia uma pequena pedra oval, leitosa, como um pedaço de Lua caído, fria por fora, quente por dentro. Peguei. Ao tocar, um arrepio subiu pela espinha, e a mesma voz de antes sussurrou, muito perto:

— Lembra do que te dei.

— O que exatamente você me deu? — perguntei, mas não houve resposta. Só o bater compassado do meu próprio peito, diferente, mais inteiro.

Um som distante cortou o bosque. Não era lamento. Não era chamado. Era um uivo que eu conhecia, grave, imponente, de quem nasceu para liderar.

Fenrir. E, logo depois, outro, mais afinado, firme e sereno. Arwen respondeu de dentro e de fora de mim, como se existisse em dois lugares ao mesmo tempo.

Meu corpo congelou por um instante, não de medo, mas de pressentimento. O ar pareceu mudar de rumo. Ramas estalaram no limite da clareira. Eu ergui o rosto, a pedra oval fechada na palma, o coração batendo em compasso com a mata.

— Arwen…

— “Eu sei, Sam.”

Os passos pararam a poucos metros. Eu não via ninguém, mas sentia uma presença atravessando a escuridão, conhecida, perigosa, inevitável.

A Lua intensificou o brilho por um segundo, como se quisesse iluminar o que vinha. Eu prendi a respiração.

E, antes que qualquer nome fosse dito, uma sombra rompeu a beira das árvores. Mas ele não fala nada, apenas me olha e depois se afasta... Ayres.

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