Samantha
A madrugada cedeu lugar a um início de manhã que não tinha força para ser bonito. O campo estava gasto, brasas morrendo, cascas de munição enterradas no barro, passos arrastados de quem voltou. A vitória é um bicho silencioso depois do estalo e, ainda assim, viva.
Os nossos se juntaram em torno de mim e de Ayres como quem busca calor. Vi rostos manchados de terra e sangue, vi olhos fundos e, mesmo assim, inteiros. Crianças foram trazidas para fora, agarradas às saias das mães, provando com o toque que a casa continuava de pé.
Ayres permanecia ajoelhado, uma mão no chão para apoiar o corpo ferido, a outra segurando a minha, como quem se ancora no que é certo. Eu sentia sob os dedos o pulsar dele irregular, mas firme o suficiente para me manter ali.
A cada respiração, ele lutava um pouco, e vencia um pouco. O corte estava selado, obra da Lua e das minhas mãos, mas o veneno rondava por dentro, como um inverno tardio tentando demorar-se. Eu fiquei. Não por pena. Por escolha. Eu