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Capítulo 5 – A Humilhação da Luna

Samantha

As vozes ficaram atrás de mim como farpas presas na pele. Não eram gritos, eram sussurros que cortam mais fundo.

— “Coitada.”

— “Devia saber o seu lugar.”

— “O Alfa teve coragem.”

Coragem? Se aquilo era coragem, eu não queria aprender essa lição. Respirei, ergui o queixo, caminhei devagar para fora do salão, sentindo a atenção de todos pousada nos meus ombros como pedra. Cada passo tinha o peso de um veredito.

O vento lá fora trouxe cheiro de resina e de noite fria. Foi o suficiente para as pernas desobedecerem. Apertei o tecido do vestido na altura do peito para manter o coração dentro, como se ele quisesse saltar, fugir de mim, esconder-se debaixo de folhas secas. Eu não ia chorar na frente deles. Não daria esse presente. Não hoje.

— “Sam…”

A voz veio doce e firme, do jeito que só Arwen sabe fazer. Minha loba não é tempestade, é o rio constante que cava pedra.

— Não, Arwen. — minha resposta saiu áspera, sem querer — Não tenta me consolar agora.

— “Eu não vou passar a mão na sua cabeça.” — Ela se aproximou por dentro como quem senta ao nosso lado sem pedir licença — “Eu vou lembrar quem você é.”

— Quem eu sou? — ri sozinha, um riso sem graça que doeu — A garota rejeitada. A que o Alfa apontou na frente de todos e disse que não quer.

Senti Arwen inflar o peito dentro de mim.

— “Você é a filha da Lua. E você não pediu para ser escolhida por ele. Você foi apontada pela própria Deusa.”

— Então por que dói tanto? — apertei as pálpebras, como quem prende um grito que não quer nascer — Eu conheci a palavra “não” desde pequena. Ouvi “não” no prato, no cobertor, no abraço. Mas o “não” dele… é como se arrancasse um pedaço.

— “Não porque é o “não” dele, Sam.” — Arwen sussurrou, paciente — “Porque é o “não” diante de todos. E você sabe que essa matilha gosta de assistir quedas.”

Fugi para a trilha. Não olhei para trás. As árvores ficaram altas e silenciosas, guardiãs de uma menina que, de repente, se sentia velha. Meus pés conheciam o caminho mesmo no escuro, pedras de sempre, raízes de sempre, sombras familiares. O bosque me recebeu com um abraço que não julga.

— Eu não vou quebrar. — disse alto, para o tronco de um carvalho — Não agora.

— “Você não precisa provar nada para eles Sam.”

— Não estou provando. — encostei a testa na casca rugosa — Só estou tentando não me perder.

O rosto dele voltou na minha mente sem que eu chamasse. Aqueles olhos que misturam verão e inverno, a tatuagem que parece guardar um passado que não me pertence, a respiração contida no momento em que ouviu meu nome. Eu vi medo naquele homem. E o medo dele me feriu de um jeito que nem sei dizer.

— Ele falou de fraqueza. — sussurrei, e a palavra queimou a língua — Mas a fragilidade que vi estava no olho dele.

— “Medo de perder.” — Arwen assentiu por dentro — “Quem ama e não se conhece vira refém do passado.”

— Eu não quero ser o remédio de ninguém. — minha voz finalmente quebrou — Não nasci para consertar o que ele e o pai dele fizeram com o coração deles.

As lágrimas vieram quentes, teimosas, e eu as deixei vir. Deixei que corressem sem cena, sem barulho, só o bastante para lavar um pouco da vergonha grudada no rosto.

Lembrei do chalé dos órfãos, das noites de frio, do cobertor curto dividido em três, do pão de ontem, da mão de uma cuidadora tentando dar conta de sete.

A vida inteira eu juntei migalhas, mas jurei que meu amor não seria migalha. E ainda assim eu estava ali, tentando remendar um vazio que nunca foi meu.

Arwen roçou o focinho no meu peito de dentro para fora, como se tentasse me endireitar a coluna.

— “Você está viva. Você está inteira. Eu estou com você.”

Respirei fundo, inalei a noite. A Lua, tímida atrás de nuvens leves, espiava. Sentei sobre uma pedra lisa ao lado do riacho. A água corria do mesmo jeito de sempre, alheia à tragédia dos humanos. Por um segundo, invejei a indiferença. Por outro, agradeci por ela me ensinar que tudo se move, até a dor.

— Eu queria entender por quê. — falei com a correnteza — Por que me chamar assim, na frente de todos, só para me dizer não?

— “Porque o destino nem sempre escolhe a hora da coragem.” — Arwen pousou a cabeça no meu ombro de um jeito que só eu sentia — “Às vezes, ele j**a a luz e deixa os homens lidarem com o clarão.”

— E eu que fico cega. — esfreguei o rosto — E com vontade de sumir.

— “Se quiser sumir, eu sumo com você.”

Sorri por dentro, arranhado.

— Não, loba. Eu não fujo da minha história.

Fiquei ali tempo suficiente para meus dedos perderem a cor. O frio entrou nas pernas, os pés doíam dentro do sapato.

Quando levantei, minhas costas estalaram e, por um instante, achei que o mundo tinha mudado de eixo, não mudou. Mudei eu. Um pouco. O suficiente para dar dois passos sem tombar.

Segui mais para dentro da mata, até a clareira onde as ervas crescem sem pedir permissão. Ali, sempre que eu precisava de coragem, eu ajoelhava. Fiz isso agora. O chão úmido aceitou meu peso como quem diz “fica”.

A Lua resolveu sair do esconderijo e derramou um brilho pálido sobre a grama. As lágrimas voltaram, não as de vexame, mas as de quem sabe que o corpo precisa esvaziar para caber de novo.

— Eu ouvi você em todos os meus sonhos. — falei para o céu — Se me escolheu, então me mostra o que fazer com esse resto de mim.

O ar ficou parado. O bosque prendeu a atenção. Eu também.

— “Sam…” — Arwen chamou, meia cautela, meia carinho.

— Tô aqui. — sussurrei, sem abrir os olhos — Tô aqui.

E esperei.

No começo, achei que era só tontura. A luz ficou mais branca e meu corpo, mais leve, como se a gravidade tivesse desaprendido meu nome. Depois, o brilho cresceu, tomou meus braços, minhas mãos, meu rosto.

A roupa ficou prateada, minha pele, também. A clareira inteira respirou comigo. Meu coração, que minutos antes parecia um bicho ferido, se aquietou. Não de paz fácil, mas de foco.

— O que está acontecendo? — minha voz saiu baixa, como se eu temesse acordar alguém.

— “Não tenha medo.” — Arwen avançou um passo dentro de mim, os olhos âmbar alargando-se, curiosidade e respeito — “Ela está aí.”

— Ela… quem?

A resposta veio como uma canção que eu já tinha ouvido dormindo e agora reconhecia desperta.

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