Capítulo 7 – Sombras do Passado

Ayres

O dia amanheceu como todos os outros, mas dentro de mim nada tinha a ver com rotina. Caminhei pela aldeia com o queixo erguido, como Alfa que não se permite hesitar.

Os guerreiros me saudaram, o Beta me trouxe relatórios, e eu assenti como sempre. Para eles, eu era inabalável. Para mim mesmo, eu era um barril de pólvora tentando não explodir.

— A ronda ao sul encontrou rastros de humanos. — disse Joran, meu Beta, estendendo o mapa sobre a mesa — Talvez caçadores.

— Dobrem a patrulha. — Minha voz soou firme, grave, como deveria — Ninguém cruza nossas terras impunemente.

Ele me estudou por um instante. Joran me conhecia melhor do que qualquer outro, e mesmo assim não ousou perguntar por que meus olhos estavam fundos, porque minha respiração parecia sempre um segundo atrasada.

— Está feito, Alfa. — Ele inclinou a cabeça, recolheu o mapa e se retirou.

Fiquei sozinho na sala de conselhos, com os olhos fixos em nada. Fingir era fácil quando havia ordens a dar. Difícil era quando o silêncio vinha cobrar.

— “Você fugiu dela… covarde.”

— Cala a boca, Fenrir.

— “Você a viu na clareira e não disse nada. O que ela fez? Só ergueu o rosto para a Lua. E você… correu.”

— Eu fiz o que devia. — Passei as mãos pelo rosto, tentando arrancar a lembrança — Se eu tivesse ficado, teria dito o que não posso.

— “O que não pode ou o que não quer admitir?”

O rosnado baixo dele ecoou dentro de mim, misturado a um gemido quase doloroso. Fenrir não se irritava fácil. Mas quando se tratava de Arwen, ele não conhecia paciência.

— Você acha que eu não sinto? — perguntei, sozinho na sala — Você acha que não arde em mim cada vez que o cheiro dela invade meu peito?

— “Então por que nega?”

— Porque amor é buraco, Fenrir. É abrir espaço para a morte entrar. Eu já vi esse filme.

O lobo calou, mas não se retirou. Ficou ali, choramingando no fundo da mente, como fera presa atrás das grades que eu mesmo criei.

Quando a noite caiu, recolhi-me ao meu quarto. Não havia ninguém para ver, então dispensei a armadura da postura. Sentei na beira da cama e encarei a parede nua. A escuridão trouxe com ela o cheiro de ferro queimado e sangue. As memórias nunca pediam licença.

Voltei a ter doze anos.

Minha mãe estava na cozinha quando ouvi os cães. Corri para a porta e vi as tochas, os gritos, os caçadores descendo como enxames. Meu pai ainda não havia voltado da ronda. Foi ela quem me empurrou para trás da escada.

— “Corre, Ayres. Corre e sobrevive.”

Eu não corri. Fiquei olhando por uma fresta, petrificado. Vi a flecha acertar seu ombro, vi a lâmina atravessar sua pele, vi o sangue descer como rio impaciente. O que mais me marcou não foi a violência, mas o olhar dela, não havia medo, havia pedido. Que eu vivesse.

Corri só depois que o corpo caiu. Corri sem parar até minhas pernas falharem. Desde aquele dia, prometi a mim mesmo: nunca mais daria a alguém o poder de me destruir pelo coração.

Suspirei pesado. A memória parecia tatuada na carne. Toda vez que Samantha surgia na minha mente, a lembrança da minha mãe aparecia junto, como sombra que não se desgruda.

— Eu não posso. — sussurrava sempre que Fenrir se agitava — Eu não vou arriscar a alcateia por uma fraqueza.

Mas naquela noite, algo diferente aconteceu.

Meu faro falhou. O cheiro de lenha vindo da aldeia parecia distante, borrado. Minha visão embotou, como se uma névoa tivesse pousado nos olhos. O peito doeu de forma estranha, não como ferimento, mas como vazio.

— “Está sentindo?” — Fenrir falou, grave — “É só o começo.”

— O que está acontecendo comigo?

— “Ausência.” — Ele não rosnou. Ele lamentou — “Você negou o vínculo, e agora paga o preço. O corpo sente o que a boca nega.”

Deitei, mas o sono não veio fácil. Quando finalmente fechei os olhos, os sonhos vieram em enxurrada.

Vi Samantha sob a luz da Lua, brilhando como nunca, os cabelos se tornando prata, os olhos fixos em mim.

— “Volta.” — ela dizia, mas não com voz de súplica, era ordem doce, impossível de ignorar.

Acordei arfando, com suor frio colando minha camisa. O peito queimava, a cabeça latejava.

Fenrir soltou um uivo dentro de mim, um som que misturava saudade e exigência.

— “Arwen me chama. Eu ouço. Você não pode fugir para sempre.”

— Posso, sim. — menti para mim mesmo, levantando e bebendo água — Sou Alfa. Não escravo do destino.

Mas no fundo, eu sabia. O destino já havia colocado grilhões em mim. Eu é que fingia não sentir o peso.

Passei o dia seguinte envolto em tarefas. O corpo de guerreiros precisava de liderança, e eu era bom em dar ordens. Treinei, lutei, corri. Quanto mais o suor escorria, mais acreditava que abafava o vazio.

No entanto, os sintomas só aumentaram. Meu faro falhava em detectar detalhes simples. A visão oscilava, como se o mundo se tornasse sombra por segundos. E a cada vez, o cheiro dela surgia como resgate… rosas com chuva, lembrança que não largava minha pele.

Joran percebeu.

— Está pálido. — disse, com os braços cruzados — Quer que chame o curandeiro?

— Não. — respondi seco — Isso não é doença.

Ele arqueou a sobrancelha, mas não discutiu. Sabia que, quando eu não queria falar, era como muralha fechada. Ainda assim, senti seus olhos me seguindo quando saí da arena.

— “Você não engana ninguém, Ayres.” — Fenrir se mexeu — “Está definhando. Não é fraqueza. É a consequência de negar a alma.”

— Se for consequência, eu aguento. Já aguentei pior.

— “Mas não sozinho, seu teimoso arrogante.”

As palavras dele ecoaram de um jeito que me desconfortou. Nunca gostei de admitir que precisava de alguém, nem mesmo do meu lobo. Mas era verdade, sem ele, eu não passaria da adolescência. E agora, ele me lembrava que eu também não passaria sem ela.

Naquela noite, deitei de novo, exausto. O corpo não obedecia, a mente estava em guerra. O sono veio como queda.

Dessa vez, o sonho não foi lembrança da infância. Foi visão.

Eu estava na floresta, e Samantha surgia diante de mim. O vestido dela era o mesmo da cerimônia, mas agora brilhava, tecido feito de luz. A Lua a cobria com véu prateado. Ela não falava, mas seus olhos diziam tudo, eu era chamado de volta. Não para ela. Para mim mesmo.

— Não. — sussurrei no sonho, dando um passo atrás — Eu não vou.

Mas meus pés não obedeciam. Cada vez que ela estendia a mão, Fenrir uivava mais forte dentro de mim, empurrando-me para a frente.

Acordei com o coração disparado, as mãos cerradas. O quarto cheirava a ferro, suor e… rosas. Não havia como confundir.

Levantei num salto, abri a janela. A noite estava calma. Ninguém perto. Ainda assim, o perfume persistia, zombando da minha resistência.

— “É ela.” — Fenrir falou, convicto — “E você não vai escapar.”

— Eu não vou me render. — falei para a escuridão — Eu não vou.

Mas, no fundo, sabia que já estava rendido.

Quando a madrugada avançou, sentei no chão frio do quarto, as costas contra a parede, os olhos fixos no teto. A cada batida do coração, uma certeza crescia, eu podia ser Alfa, podia ser de ferro, podia erguer muros até o céu. Mas nenhum muro era alto o bastante para segurar o que vinha da Lua.

Fenrir deitou em silêncio dentro de mim, mas antes soltou a última verdade da noite:

— “Você não está lutando contra ela, Ayres. Está lutando contra o que já é seu.”

Fiquei ali, imóvel, com a respiração curta.

E percebi que o destino não respeita promessas.

Ele simplesmente as quebra.

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