Ayres
A primeira lágrima caiu sem aviso, e depois outra, e outra. Eu não chorei como menino, nem como inimigo vencido. Chorei como homem que encontrou, enfim, o nome da própria ferida. Não havia soluço grande, nem braços para me segurar. Só eu e a honestidade, um par incômodo que faz mais pelo corpo do que qualquer remédio.
Fenrir não aplaudiu, não fez discurso. Respirou comigo.
— “Agora sabe onde dói. A partir daqui, escolhe o que faz com a dor.”
Eu não respondi. As mãos sobre os joelhos, a cabeça baixa, a luz da clarabóia passando devagar pelo chão como relógio que não precisa de ponteiro. Por algum tempo, foi só isso, o coração batendo, o ar entrando, o ar saindo, o sal secando no rosto.
Do lado de fora, a porta se abriu um palmo. Joran não entrou.
— Alfa?
— Estou vivo. — falei, rouco.
— Então o resto a gente resolve em pé.
Assenti, embora ele não visse. Fiquei mais um minuto com a testa encostada no punho, para lembrar do gosto dessa verdade. Eu iria precisar dela.
Lavei o rosto