Samantha
A floresta respirava curto, como bicho que pressente tempestade. Eu estava escondida atrás de um tronco grosso de aroeira, no alto do talude que desce para a borda leste da alcateia Greene.
A capa escura grudada nos ombros, o cabelo preso sob o capuz, as marcas prateadas cobertas pelo tecido para não entregarem o reflexo.
O vento mudou de direção e trouxe um cheiro que não pertence à mata, óleo queimado, ferro lixado, couro molhado. Meu estômago encolheu antes mesmo de eu ouvir.
O primeiro som foi miúdo, galho quebrando sob uma bota. Depois veio o resto, em ondas, passos ritmados, roçar de cordas, sussurros curtos, o tinir de ferragens. Ali, misturados aos humanos, senti outros, lobos de fora, hostis, carregando impaciência no andar e raiva velha na garganta.
A visão que a Deusa me mostrou em noites anteriores começou a se montar diante dos meus olhos, peça por peça, como um cenário que alguém teima em repetir. Eu sabia o que viria, e ainda assim doeu ver.
— “Sam.” — Arwen