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Capítulo 2: E Agora, Jade?

— O chefe deste território sou eu.

A frase ecoa na cabeça de Jade como se tivesse sido dita por dentro.

— Q-quê…? — A palavra sai fraca, quase sem som.

A boca fica seca. O coração falha uma batida inteira antes de disparar rápido demais, como se tivesse entendido o perigo antes dela. Jade pisca, tentando reorganizar o mundo, mas tudo parece deslocado: o portão, o jardim, o homem do outro lado.

— Ótimo. — Ela ajeita a postura, deixando os ombros mais eretos, recusando-se a ceder tão facilmente. — Não removo uma só se quer palavra do que disse.

O homem não reage de imediato.

Os olhos azuis a observam com uma atenção fria, quase clínica, como se estivesse registrando cada microexpressão. Não há pressa. Não há irritação visível. Aquilo a desestabiliza mais do que um grito.

— Diga. — Ordena, a voz baixa, timbre grave. — O que exatamente eu fiz, ragazza?

— Você arruinou minha vida! — Jade explode, o peito subindo e descendo rápido. — Como você ousa explodir a porra da empresa onde eu trabalhava!?

Ela não espera por uma resposta, enche o pulmão de ar e continua:

— Acordei sem emprego, sem grana, sem seguro, sem nada! — As palavras saem atrapalhadas. — Tenho duas pessoas para sustentar, e você simplesmente... — a voz dela começa a perder a força, como se só agora realmente tivesse parado para pensar no real peso de tudo isso. — Destruiu tudo... e pelo quê? Me diz? Por uma única mulher?...

O silêncio cai pesado.

Ele dá um passo à frente.

A sombra dele se projeta sobre o portão, alongada. Jade sente o instinto gritar para recuar, mas não recua. Entre eles há ferro. E, se precisar, ela corre.

Fugir.

Como sempre fez.

— Quero uma compensação. — Diz, forçando firmeza. — E um emprego. Agora.

Jade sente como se o ar ao redor estivesse mais denso, difícil de respirar. Os dedos de Jade se fecham com força nas barras frias do portão. O metal morde a pele. A pressão é tanta que os nós dos dedos ficam brancos.

Ele permanece imóvel, observando-a com uma calma gélida, perigosa. Um olhar que ninguém nunca antes despertou nele.

— Primeiro, donna. — Diz por fim, sem elevar o tom. — Eu não explodi empresa nenhuma.

Jade franze o cenho, as palavras do homem atravessam seus tímpanos de forma estranha, como se estivesse no idioma errado.

Mentiroso!

— Explodiu sim, seu canalha! — Ela estreita os olhos. — Não ouse mentir para se safar de assumir a responsabilidade!

Ela não recebe nenhuma resposta de volta. O vinco entre as sobrancelhas de Jade fica ainda mais fundo, ela fecha os olhos por um instante, e então abre sua bolsa e pega o celular, conferindo mais uma vez o endereço e então olhando para o numero no portão, está...

— Errado. — A palavra sai franca entre seus lábios.

A saliva desce seco por sua garganta seus olhos tremem e suas bochecham queimam.

Entre eles, o ferro range.

O portão começa a se mover lentamente.

O som é baixo, grave, mas suficiente para disparar algo primitivo dentro dela.

Não.

Jade dá um passo para trás.

Depois outro.

— Eu… — tenta falar, mas a língua parece pesada demais. — Eu achei que você fosse…

— Um parasita da sociedade. — Ele completa, sem levantar a voz. — Sim. Percebi.

— Eu não sabia... — seu joelho treme. — Se soubesse…

Novamente, ela não recebe nenhuma reação dele.

— Desculpa — diz, finalmente. A palavra dói na boca. — Eu não devia ter falado daquele jeito, não deveria ter vindo aqui... eu errei o endereço! O erro foi todo meu. Completamente meu! Vou deixa-lo em paz!

Jade não espera por mais nenhuma palavra, ela se vira e começa a andar, os passos rápidos demais para parecerem firmes. O cascalho estala sob os pés. O portão permanece atrás dela, fechado agora, como se nada tivesse acontecido.

Ela não olha para trás.

Não por orgulho.

Por medo do que pode encontrar se olhar.

Quando alcança a estrada, as pernas cedem por um segundo. Jade se apoia no joelho, respirando curto, sentindo o corpo inteiro tremer. O ar parece insuficiente. O silêncio da estrada pesa tanto quanto o do jardim.

— Idiota… — murmura para si mesma. — Idiota.

Cada passo se afasta da mansão, mas a sensação não diminui. É como se algo tivesse ficado grudado nela — um olhar, uma decisão não dita, uma linha invisível atravessada.

Ela tenta afastar o pensamento.

Teria sido só um susto.

Um erro.

Uma humilhação.

Nada além disso.

Ainda assim, quando um carro passa ao longe, o coração dispara. Jade muda de lado na estrada sem perceber. A paranoia a acompanha até o primeiro cruzamento, até a primeira esquina segura.

Só então diminui o passo.

Longe dali, atrás do portão, o jardim volta ao silêncio habitual.

E Jade Oliveira segue acreditando que aquilo terminou ali.

Sem saber que, naquele instante, ela não saiu ilesa.

Saiu marcada.

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