Mundo de ficçãoIniciar sessão— O chefe deste território sou eu.
A frase ecoa na cabeça de Jade como se tivesse sido dita por dentro.
— Q-quê…? — A palavra sai fraca, quase sem som.
A boca fica seca. O coração falha uma batida inteira antes de disparar rápido demais, como se tivesse entendido o perigo antes dela. Jade pisca, tentando reorganizar o mundo, mas tudo parece deslocado: o portão, o jardim, o homem do outro lado.
— Ótimo. — Ela ajeita a postura, deixando os ombros mais eretos, recusando-se a ceder tão facilmente. — Não removo uma só se quer palavra do que disse.
O homem não reage de imediato.
Os olhos azuis a observam com uma atenção fria, quase clínica, como se estivesse registrando cada microexpressão. Não há pressa. Não há irritação visível. Aquilo a desestabiliza mais do que um grito.
— Diga. — Ordena, a voz baixa, timbre grave. — O que exatamente eu fiz, ragazza?
— Você arruinou minha vida! — Jade explode, o peito subindo e descendo rápido. — Como você ousa explodir a porra da empresa onde eu trabalhava!?
Ela não espera por uma resposta, enche o pulmão de ar e continua:
— Acordei sem emprego, sem grana, sem seguro, sem nada! — As palavras saem atrapalhadas. — Tenho duas pessoas para sustentar, e você simplesmente... — a voz dela começa a perder a força, como se só agora realmente tivesse parado para pensar no real peso de tudo isso. — Destruiu tudo... e pelo quê? Me diz? Por uma única mulher?...
O silêncio cai pesado.
Ele dá um passo à frente.
A sombra dele se projeta sobre o portão, alongada. Jade sente o instinto gritar para recuar, mas não recua. Entre eles há ferro. E, se precisar, ela corre.
Fugir.
Como sempre fez.
— Quero uma compensação. — Diz, forçando firmeza. — E um emprego. Agora.
Jade sente como se o ar ao redor estivesse mais denso, difícil de respirar. Os dedos de Jade se fecham com força nas barras frias do portão. O metal morde a pele. A pressão é tanta que os nós dos dedos ficam brancos.
Ele permanece imóvel, observando-a com uma calma gélida, perigosa. Um olhar que ninguém nunca antes despertou nele.
— Primeiro, donna. — Diz por fim, sem elevar o tom. — Eu não explodi empresa nenhuma.
Jade franze o cenho, as palavras do homem atravessam seus tímpanos de forma estranha, como se estivesse no idioma errado.
Mentiroso!
— Explodiu sim, seu canalha! — Ela estreita os olhos. — Não ouse mentir para se safar de assumir a responsabilidade!
Ela não recebe nenhuma resposta de volta. O vinco entre as sobrancelhas de Jade fica ainda mais fundo, ela fecha os olhos por um instante, e então abre sua bolsa e pega o celular, conferindo mais uma vez o endereço e então olhando para o numero no portão, está...
— Errado. — A palavra sai franca entre seus lábios.
A saliva desce seco por sua garganta seus olhos tremem e suas bochecham queimam.
Entre eles, o ferro range.
O portão começa a se mover lentamente.
O som é baixo, grave, mas suficiente para disparar algo primitivo dentro dela.
Não.
Jade dá um passo para trás.
Depois outro.
— Eu… — tenta falar, mas a língua parece pesada demais. — Eu achei que você fosse…
— Um parasita da sociedade. — Ele completa, sem levantar a voz. — Sim. Percebi.
— Eu não sabia... — seu joelho treme. — Se soubesse…
Novamente, ela não recebe nenhuma reação dele.
— Desculpa — diz, finalmente. A palavra dói na boca. — Eu não devia ter falado daquele jeito, não deveria ter vindo aqui... eu errei o endereço! O erro foi todo meu. Completamente meu! Vou deixa-lo em paz!
Jade não espera por mais nenhuma palavra, ela se vira e começa a andar, os passos rápidos demais para parecerem firmes. O cascalho estala sob os pés. O portão permanece atrás dela, fechado agora, como se nada tivesse acontecido.
Ela não olha para trás.
Não por orgulho.
Por medo do que pode encontrar se olhar.
Quando alcança a estrada, as pernas cedem por um segundo. Jade se apoia no joelho, respirando curto, sentindo o corpo inteiro tremer. O ar parece insuficiente. O silêncio da estrada pesa tanto quanto o do jardim.
— Idiota… — murmura para si mesma. — Idiota.
Cada passo se afasta da mansão, mas a sensação não diminui. É como se algo tivesse ficado grudado nela — um olhar, uma decisão não dita, uma linha invisível atravessada.
Ela tenta afastar o pensamento.
Teria sido só um susto.
Um erro.
Uma humilhação.
Nada além disso.
Ainda assim, quando um carro passa ao longe, o coração dispara. Jade muda de lado na estrada sem perceber. A paranoia a acompanha até o primeiro cruzamento, até a primeira esquina segura.
Só então diminui o passo.
Longe dali, atrás do portão, o jardim volta ao silêncio habitual.
E Jade Oliveira segue acreditando que aquilo terminou ali.
Sem saber que, naquele instante, ela não saiu ilesa.
Saiu marcada.







