Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não deveria ter saído de casa... Não sem me despedir... — Jade soluça, os olhos ardendo pelas lágrimas salgadas enquanto lamenta em pensamentos.
O ar falta por um instante.
Jade puxa uma respiração curta, mas ela não chega aos pulmões. O coração dispara, batendo rápido demais, forte demais, como se quisesse romper o peito. O tecido áspero da sacola em sua cabeça está úmido, pesado pelas lágrimas que ela havia começado a derrubar antes mesmo de entrar na van. O mundo se resume a escuridão, ruídos abafados e ao balanço irregular do veículo.
— Chegamos. — Jade escuta alguém dizer, e finalmente sente que o veículo parar de se mover com um solavanco.
Jade fecha as mãos em punhos, as unhas cravando na própria pele. O sentimento de puro terror percorre por sua espinha, gelado, enquanto seu coração se aperta e em sua mente só vem a imagem da sua pequena família, a qual ela dá a vida todo santo dia.
Larissa...
Manuela...
O rosto da filha surge nítido demais. O sorriso pequeno, o coelhinho de pelúcia, os braços finos ao redor do pescoço dela. O peito de Jade aperta como se estivesse sendo esmagado por dentro.
Elas precisam de mim! — O terror se mistura com a raiva, cada musculo se contrai, cada fibra grita por liberdade, contudo, por mais grite, sua voz não é ouvida por ninguém.
Novamente ela se debater, mas a seguram firmemente e a puxam para fora da van.
— Ei! — Sua voz soa abafada, mas firme, cheia de pânico e fúria misturados. — Me soltem! Seus malditos! Eu vou chamar a polícia!
Jade se debate, chuta, tenta se livrar, mas quem a segura é forte demais, contendo-a com facilidade assustadora. Não há pressa. Não há violência exagerada. Apenas força suficiente para deixá-la inútil.
Preciso de uma saída...
— Se vocês me liberarem, ninguém jamais saberá. — Ela grita, a voz falhando no meio da frase. — Não adianta pedir resgate. Ninguém vai pagar por mim!
O coração dispara ainda mais quando percebe que suas palavras não provocam reação alguma. Nenhum xingamento. Nenhuma resposta. Só passos.
A sacola aperta ainda mais seus sentidos. O som dos próprios batimentos ecoa alto demais em seus ouvidos. Jade entende, com um gosto amargo na boca, que ela não tem força nenhuma para lutar. Que cada passo está sendo decidido por outros.
Mesmo assim, ela se recusa a ceder.
Ela tenta se jogar no chão, mas só tenta, os homens a carregam com facilidade, levando-a para onde querem.
A sacola é retirada de repente.
A luz invade seus olhos com violência. Jade pisca várias vezes, o mundo girando enquanto tenta se adaptar. Antes que consiga focar em qualquer detalhe, é empurrada para frente outra vez, atravessando as portas de entreada.
O primeiro impacto é o luxo, pois, contra todas as suas expectativas, o seu cativeiro respira riqueza. Não uma ostentação desbalanceada, mas elegante.
Cortinas pesadas em tons de cinza absorvem o som. Quadros grandes, de molduras discretas, ocupam as paredes altas. Um tapete persa cobre o chão, abafando os passos apressados como se quisesse esconder qualquer vestígio de pressa ou desordem.
Tudo ali parece pensado para controlar.
Jade força os olhos a absorver o máximo possível. Portas. Distância entre elas. Escadas largas, iluminadas por um lustre imenso que reflete a luz de forma quase fria. Ela conta mentalmente: uma porta, duas, antes de subirem. Depois um corredor longo demais para uma fuga rápida.
A mente dela reduz tudo ao essencial.
Saídas.
Rotas.
Chances.
— Eu não tenho medo de vocês! — Insiste, a voz firme, apesar do tremor que trai o corpo, quando param em uma porta de madeira escura, pesada, guardada por dois homens de terno preto. — Não importa o que façam. Eu vou sair daqui e...
A frase morre.
A porta abre.
Ela é empurrada para dentro e quase tropeça ao cruzar o limiar. O espaço à sua frente é amplo, silencioso, imponente. Cada passo ecoa no chão polido, ampliando a sensação de exposição.
Jade ergue os olhos.
Um homem está de costas para ela, parado diante de uma parede inteira de vidro. Do outro lado, jardins perfeitamente cuidados se estendem sob a luz da manhã. Ele não se vira. Não demonstra surpresa. Não reage à presença dela.
É como se já a esperasse.
O ar parece pesar. Jade dá um passo instintivo para trás, mas a porta se fecha com um clique seco às suas costas, isolando-a completamente com o desconhecido.
Não há saída.
O frio do ar-condicionado arrepia sua pele. Cada músculo se contrai. Ela encara aquelas costas largas, a postura relaxada demais para alguém que acabou de receber uma mulher sequestrada em seu território.
Jade respira fundo, forçando o controle.
— Olha… — começa, a voz mais baixa do que pretendia. — Eu não sei quem você é…, mas te garanto que pegou a pessoa errada. Vamos evitar problemas e...
Ele se vira.
O movimento é rápido, Jade sente a própria voz se perder dentro de sua garganta. O ar congela nos pulmões, seus olhos se arregalam e o coração parece parar por um segundo inteiro antes de disparar com violência.
Os olhos dele a encontram.
Ele não deixou para lá. — Jade fecha as mãos em punhos, tentando controlar o tremor.
A ligação de noites atrás volta em sua mente.
E, nesse instante, Jade entende.
Não foi um engano.
Não foi exagero.
Não foi paranoia.
A esperança que ela alimentou que o ricaço a deixaria ir, de que tudo não passaria de um susto, se desfaz completamente.
Ele caminha até a mesa com calma absoluta e se senta na cadeira presidencial. A mão direita repousa relaxada no braço da cadeira. A esquerda tamborila a superfície da mesa num ritmo lento, constante, hipnótico.
O som reverbera no silêncio.
Jade não consegue desviar o olhar. As luvas pretas chamam atenção de novo. O detalhe pequeno, mas perturbador, que transforma cada gesto em algo calculado, controlado.
Ela força o bolo em sua garganta goela a baixo.
O vidro atrás dele reflete sua imagem elegante e letal, duplicando a sensação de perigo.
Quando os olhares se cruzam, Jade sente como se estivesse presa por algo invisível. Cada batida do coração se mistura ao medo e a uma tensão elétrica que percorre seu corpo inteiro. Diferente do portão, não há espaço para correr.
Guilherme permanece sentado, o olhar fixo nela, medindo cada reação, cada piscar de olhos, cada tensão nos músculos do corpo dela.
Jade respira fundo, tentando recuperar o controle da voz, tentando não demonstrar que cada segundo sob suas vistas a faz estremecer.
Ele não parecia curioso, mas sim como o dono da situação.
— Nos encontramos de novo.
A voz é baixa, calma.
E Jade entende, com uma clareza assustadora, que aquele encontro não terminou no portão.
Ele só começou ali.







