Mundo de ficçãoIniciar sessãoJade atravessa o centro da cidade com passos rápidos, os currículos envelopados dentro de sua bolsa e a esperança diminuindo a cada vitrine que passa. O sol da tarde reflete no vidro das lojas, esquenta sua pele, mas não aquece o coração.
Muito pelo contrário.
Ela fica mais apreensiva, a cada instante, mais e mais fios de sua esperança se esvaindo.
— Boa tarde, estão contratando? — Arrisca, tentando injetar um fio de otimismo na voz, ao balconista de uma padaria.
Ele mal ergue o olhar, concentrado na tela do caixa.
— Só entregador. Sabe dirigir moto?
Não.
Ela não sabe.
Jade suspira, sente o peso da bolsa nos ombros, balança a cabeça e agradece antes de sair. A campainha da porta soa como um tique-taque de fracasso.
Entre as passadas ela confere o celular mais uma vez, pois antes de sair de casa instruiu a irmã a não abrir nenhuma das janelas.
— Deve ter sido algum garoto da vizinhança passando trote, Jade, deixa de besteira. — Fora a resposta da mais nova, mas o coração de Jade não se acalmou nem um pouco.
Na esquina seguinte, uma pequena loja de roupas chama sua atenção. Ela empurra a porta devagar.
— Olá… eu gostaria de deixar meu currículo…
A gerente, sorrindo de forma gentil, e a interrompe antes que ela termine:
— Já temos equipe completa, meu bem.
— Certo, muito obrigada. — Murmura Jade, forçando um sorriso, embora a garganta estivesse seca de frustração.
As pernas de Jade começam a doer de tanto andar.
Uma boutique de vestidos florais surge à sua frente, vitrines impecáveis refletindo a luz do fim de tarde. Jade respira fundo, aperta a bolsa contra o peito, tentando reunir coragem.
A gerente da boutique nem se dá ao trabalho de esconder o desdém ao olhar Jade, seu olhar nada discreto passeando pelas roupas simples.
— Não tem os requisitos necessários. — Diz, devolvendo o currículo com um gesto frio, sem sequer folhear as páginas.
Jade fecha as mãos em punhos, apenas assente e sai da boutique. O reflexo dela no vidro a acompanha, cansado, coque torto e bolsas escuras embaixo dos olhos de uma noite mal dormida, pesadelos de que ele estaria indo atrás dela, perseguindo-a até chegar no fim de uma rua sem saída, misturando-se com a voz roborizada do telefonema da madrugada.
Jade havia decidido que era melhor passar o restante da noite acordada, mas o preço agora estava sendo cobrado.
Ela segue em frente, quarteirão após quarteirão, portas e mais portas se fechando com sorrisos que não chegavam aos olhos.
Mais tarde.
Semana que vem.
Sem vaga.
Cada recusa parecia arrancar um pedaço da sua esperança, deixando apenas uma tênue camada de teimosia.
O céu escurece, a cidade se enche de sombras, e cada passo parece exigir mais força do que Jade consegue reunir.
Quando finalmente chega em casa, j**a os sapatos em um canto e se deixa cair no sofá, o corpo pesado, a mente em silêncio. Larissa observa.
— Como foi? — Pergunta, mas observando a irmã, a resposta nem precisaria de palavras.
Jade abaixa a cabeça e cobre o rosto com as mãos. — Até pra entregar panfleto não me quiseram.
— Eles disseram por quê?
— Disseram que eu sou “incompatível com o perfil da vaga.” — Jade ergue as mãos, sarcástica.
— Eu enviei alguns dos seus currículos online. — Larissa entrega a irmã mais velha um caneca de leite e um sanduiche.
— Obrigada, Lari. — Jade morde o sanduiche. —Buscou a Manu?
— Ela está no quarto. — Volta a sentar na poltrona.
— Deu banho nela? Café? — Jade questiona com a boca cheia.
— Não. — Responde Larissa, sem se mover e continua assistindo em seu notebook.
Jade suspira, já esperava por isso, e vai até a cozinha. Abre o armário, pega a panela e começa a preparar o mingau da pequena.
— Mamãe! Bem-vinda! — Manu grita, correndo para Jade com um sorriso que ilumina mais que qualquer vitrine que ela visitou.
A pequena larga o caderninho de desenhos no chão e se j**a nos braços da mãe. Jade a abraça com força, sentindo que, mesmo em um dia em que tudo deu errado, aquele momento valia mais que qualquer emprego.
Enquanto segura Manu, Jade fecha os olhos por um instante. A cidade lá fora continua impiedosa, mas dentro daquela casa, as razões para ela seguir em frente a enchem de perseverança.
— Eu vou dar um jeito em tudo, meu amor — Murmura contra os cabelos de Manu.
~~~
Mais um pôr do sol, mas um dia recheados de nãos. De currículos jogados foras ou devolvidos. Jade começa a sua caminhada de volta para casa, nesse momento, ela finalmente se convenceu que a ligação realmente havia sido apenas um trote de algum moleque do bairro.
O corpo se mexe e a cabeça finge que segue junto. Os postes acendem um por um, e as janelas ganham retângulos de luz.
Jade aperta a bolsa contra o peito. Cálculos invisíveis de novo. A empresa foi explodida antes que recebesse o salário, e alegam que não tem meios de pagar a ninguém, todos os benefícios também foram cortados imediatamente e amanhã é dia de levar a pequena para mais uma consulta.
— Respira. — Ela ordena a si mesma. Forçando-se a manter as lágrimas controladas.
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O dia mais uma vez amanhece. E antes mesmo que o despertado toque, Jade já está fora de casa, o olhar determinado a continua.
Ela precisa.
Sem dinheiro para o ônibus, ela começa sua caminhada, ela tem até 13 h do dia para entregar o restante de seus currículos e voltar para pegar Manu na creche e levar para o hospital.
As ruas ainda estão vazias, resquícios da neblina da madrugada.
De repente, um arrepio estranho sobe pela nuca de Jade. É instintivo. Ela diminui o passo e olha por cima do ombro, esperando encontrar apenas a rua vazia da manhã, silenciosa como vinha desde que saiu de casa.
Mas não é isso que vê.
Uma van escura se aproxima devagar, avançando pela rua deserta. O coração de Jade acelera. Ela aperta a bolsa contra o corpo e continua andando, fingindo que não percebeu nada, tentando convencer a si mesma de que é só paranoia.
A van acelera de repente.
Corta o caminho dela, invadindo a calçada.
— Estão lou… — a palavra morre na garganta antes de terminar.
Com um tranco seco, as portas traseiras se escancaram de uma vez, largas e agressivas, como bocas prontas para engolir. Homens descem rápido demais para que Jade consiga reagir.
Três?
Quatro?
Não dá tempo de contar.
Jade gira para trás no impulso. O corpo entende antes da mente. Os joelhos se dobram para correr, mas não vai muito longe.
— Peguem ela!







