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Capítulo 8: Vigiando de Perto

— O senhor está achando que eu sou o quê? Algum tipo de puta barata que roda a bolsinha na esquina? — Assim que ela termina, o gosto é amargo, ácido, como se aquelas sílabas tivessem aberto uma porta que ela mantém trancada há anos. Memórias que ela havia enterrado fundo o bastante para fingir que nunca existiram. Coisas que doem mesmo quando não são tocadas.

A cadeira sob ela parece dura demais, o ar ficou ainda mais frio, opressor, seus olhos crivam nos dele demonstrando toda a sua indignação, mesmo que por dentro a ferida que ela achou está fechada ter sido cutucada e as lágrimas queiram sair.

Mas ela não deixa.

Guilherme não responde. Não nega e nem confirma as palavras de Jade, ele simplesmente deixa que o silencio se instale entre eles.

Denso e pesado.

Ele não se move, sequer fala ou muda sua expressão, e isso é pior do que qualquer coisa que ele pudesse ter dito.

Jade permanece sentada, os dedos crispados no tecido da própria calça, sentindo o coração bater forte demais dentro do peito, o sangue fervendo em suas veias como se tivesse sido aquecido por dentro.

O Don apenas a observa.

E é isso que a enlouquece.

— Ainda hoje. — Ele diz, finalmente, com a voz baixa e firme. — Estará na minha cama, me esperando com as pernas abertas.

O choque é imediato.

Jade arregala os olhos. Por um segundo, ela chega a duvidar do que acaba de ouvir.

Como esse cretino ousa falar assim?

— Nem nos seus sonhos, stronzo! — Ela o xinga antes mesmo de pensar em se conter, mas dessa vez ela não se arrepende.

Ele pode ser o chefe da máfia.

Sabe que ele pode mata-la apenas com um aceno de mão. Mas ela não é um verme para ser tratada assim.

O olhar frio dele não se altera. Nenhuma sombra de reação. Nenhum músculo do rosto se move. É como se as apalavras dela fossem irrelevantes.

O peso invisível volta a pressionar os ombros de Jade, empurrando-a para baixo, esmagando seu peito. A sensação é sufocante. Ela se levanta num impulso.

A cadeira arrasta para trás, o som áspero riscando o piso brilhante do escritório, quebrando o silêncio como um grito.

— Eu não tenho mais nada para tratar com o senhor, Don. — Ela diz, forçando a voz a sair firme. — Então, se não vai me matar, estou me retirando. Não precisa pedir aos seus homens para me escoltar, sei bem o caminho.

Guilherme abre uma gaveta e puxa um envelope fino de cor marrom, desliza-o sobre a mesa em direção a garota, sem nunca desviar o olho do dela.

— Abra. — Ordena.

Jade não toca.

— O que é isso?

— Abra.

Há algo na forma como ele repete que faz o estômago dela se revirar. Jade estende a mão devagar. Os dedos tremem, mas ela finge que não. O envelope parece pesado demais para algo tão fino.

A primeira coisa que vê é uma folha simples, letras impressas, organizadas, quase burocráticas, como um relatório escolar:

Jadeline Oliveira.

Endereço.

Rotina.

Horários.

Não...

Jade sente o sangue gelar.

Ela vira a folha.

Fotos...

Ela na rua, andando rápido, os currículos apertados contra o peito.

Ela entrando num mercado.

Ela atravessando uma esquina.

Ela voltando para casa.

E então…

Manu.

O coração b**e tão forte que chega dói.

Na creche.

Não é uma foto distante, borrada, de alguém passando na rua. É perto o suficiente para Jade reconhecer o laço preso torto no cabelo da filha, o jeito como o casaco está abotoado errado, o coelhinho rosa apertado contra o peito, o rosto levantado para alguém... para ela.

Jade para de respirar direito, o ar sumindo de seus pulmões. A pasta treme em suas mãos.

— Co-como.... — A frase morre em sua boca, ela vira mais páginas.

Agora é Larissa, saindo da escola. O rosto fechado, fones no ouvido, mochila pendendo de um ombro. A mesma expressão impaciente de sempre, como se o mundo fosse lento demais para ela.

E agora, a porta da casa delas, do portão pequeno, da janela aberta... Jade sente um gelo subir pelos pés e se espalhar por dentro, chegando no coração como uma mão fechada espremendo-o.

— Não… — a palavra escapa sem autorização.

Guilherme observa a reação dela com atenção fria, como se estivesse coletando dados.

— A essa hora. — Ele comenta, tranquilo demais. — As duas já devem estar acordadas. Provavelmente tomando café.

É demais.

— Seu.. seu... figlio de puttana! — Jade b**e na mesa com a pasta, o som seco ecoando pelo escritório. — Não ouse tocar em nenhum fio de cabelos delas, seu maledetto!

— Não lembro de tê-la autorizado se levantar. — A voz permanece baixa. — Sente.

Os joelhos de Jade cedem antes mesmo que ela perceba. O corpo obedece, traidor, afundando de volta na cadeira.

 ódio cresce.

O medo, não apenas por si, mas agora pelas duas únicas pessoas que ama em sua vida,  cresce ainda mais.

Afinal…

O que uma estrangeira pobre pode fazer contra o homem mais poderoso da Itália?

— Agora a escolha é sua, por bem ou por mal?

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