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Se Jade soubesse quem estava do outro lado do portão, teria engolido o ódio e ido embora, mas, como ela não sabia...
— É aqui — Jade Oliveira murmura para si mesma, tentando transformar a própria voz em coragem ao parar diante do portão.
Alto demais para quem está com raiva.
Ela aperta a alça da bolsa no ombro, sentindo o couro frio contra a palma suada da mão. O ferro preto, pesado, ostenta arabescos dourados que brilham mesmo sob o céu nublado. No topo, câmeras de vigilância a acompanham como olhos de águia.
Jade b**e uma vez contra as grades do portão.
Nada acontece.
Ela b**e de novo. Mais forte.
— Ei! — Grita, a voz atravessando o frio da manhã. — Tem alguém aí?
O coração martela no peito, não de medo, mas de urgência. Sequer se deu tempo de pensar direito sobre o que tinha que fazer, apenas sabia que tinha que fazer algo. O celular no bolso vibra como um lembrete cruel de que o mundo não vai esperar ela se recompor.
Uma terceira batida.
É quando ele aparece.
Vem do fundo do jardim, caminhando com a calma de quem não precisa se preocupar com nada. Terno escuro, postura impecável, celular colado ao ouvido. Cada passo é medido, preciso. O cabelo castanho-escuro está penteado para trás, exceto por uma mecha rebelde que cai sobre a testa. Ele a afasta com um gesto automático, quase irritado com a própria imperfeição.
Tudo nele lembra a rigidez necessária em um segurança particular.
— …resolva isso hoje. — o homem diz ao telefone, a voz baixa, carregada de autoridade.
Jade se aproxima ainda mais do portão, ignorando o nó estranho que se forma no estômago. Não é hora de arrependimentos.
— Ei, você aí! — Grita. — Ô do terno!
O homem para.
Lentamente, vira-se para ela, como se não acreditasse que alguém realmente havia ousado gritar daquela forma com ele. Os olhos azuis a analisam de cima a baixo sem pressa, como se estivesse decidindo se ela merece ser respondida.
Jade odeia aquele olhar no mesmo instante.
Ele encerra a ligação e guarda o celular no bolso.
— O que quer, donna? — Pergunta, enquanto enfia ambas as mãos enluvadas nos bolsos da calça de linho.
— Quero falar com o seu chefe. — Jade dispara, erguendo o queixo. Apesar de estar a vários passos de distância, sente a diferença de altura, mas não recua. — Agora.
O canto da boca dele se move quase imperceptivelmente. Não chega a ser um sorriso. Os olhos dele varrem cada centímetro do corpo de Jade, fazendo-a se sentir como um inseto exótico em exibição.
— Por que tá me olhando assim, com essa cara de taxo? — Jade se exalta, batendo de novo no ferro. — Vai logo chamar seu patrão!
— Vattene, donna!
Aquilo é o estopim.
— Ir embora é o caralho! — Jade b**e a mão no portão novamente, a vibração do ferro sobe pelos dedos dela. A raiva também. — Não arredo o pé daqui até falar com o maldito do seu chefe, puttano! — Ela semicerra os olhos, mantendo o queixo bem erguido.
— Este é meu último aviso, donna, vá…
— Vá à merda com seus avisos, seu segurançazinho! — Ela rebate, a voz tremendo de raiva e frustração. — Quero falar com chefe, agora!
O homem dá um passo à frente.
Apenas um.
O suficiente para deixar claro o tamanho da diferença entre eles. Ele inclina a cabeça de leve, olhando-a de cima, e, por um instante, o ar fica mais denso, pesado; Jade tem a sensação de estar correndo perigo.
Recue. — Sua consciência grita.
Não mesmo! Tarde demais! — Rebate mentalmente.
— Vai chamar ou não vai? — Jade rosna entre dentes.
— Ragazza…
— Não me chama assim! — Ela interrompe, o corpo vibrando. — Seu segurançazinho metido a besta, só porque tem seu emprego tá se achando melhor do que eu?
— Do que...
— Você sabe o que é acordar e descobrir que não tem mais emprego? — Jade despeja, sem freio. — Ter uma criança doente para sustentar? Ver um bilionário mimado mandar explodir uma empresa porque a mulherzinha dele não queria concorrência?
O silêncio cai como um bloco.
Dois homens surgem mais afastados no jardim, atentos. Jade percebe, revira os olhos. Já foi longe demais para recuar.
— É sério isso? Precisa de reforço? — Ela respira fundo. — Vai, chama logo a porra do seu chefe. Não vou me demorar.
Os olhos azuis escurecem.
— Você não sabe onde está se metendo.
— Sei sim. — Jade rebate, rindo sem humor. — Tô no quintal de mais um rico covarde que acha que dinheiro compra tudo, batendo boca com um subordinado que também se acha demais.
Ele se aproxima do portão.
Agora está perto o suficiente para que ela sinta o perfume caro, discreto, nada doce. Jade engole seco, mas força seu corpo a permanecer como está.
— Seu chefe é um lixo! — ela dispara, cuspindo cada palavra. — Um parasita! Um desgraçado que fodeu com a vida de centenas de pessoas! Quero que ele tome bem no meio do cu!
O vento passa entre eles.
Por um segundo, o alívio que Jade pensou que sentiria ao pôr esses pensamentos para fora, não vem. Muito pelo contrário, a sensação de perigo dentro dela apenas cresce, fazendo-a quase se arrepender das palavras.
— Termine — o segurança diz, baixo.
— Quero falar com o dono dessa casa, agora! — Jade grita, tentando se manter corajosa.
Novamente ele a olha de cima a baixo.
— Está falando.
O mundo dá um tranco.
— Como é? — Jade pisca.
— O chefe deste território sou eu.
— Q-quê?...
A boca de Jade abre, ficando seca por alguns segundos, o coração falha uma batida.







