Os Trigêmeos do CEO Viúvo
Os Trigêmeos do CEO Viúvo
Por: CINVAN
CAPÍTULO 1

POV LUCIA.

O monitor registava o batimento irregular do coração da minha mãe, um bipe intermitente que já não me abalava. Já o tinha ouvido tantas vezes que se fundia com o ar estéril do hospital, tal como a sua voz rouca quando ergueu os olhos para mim.

—Pensei que hoje não viesses —disse ela, com um esforço.

—Claro que venho.

Ajeitei-lhe o cobertor com movimentos práticos, sem fingir ternura. Não me saía, e ela sabia disso melhor do que ninguém.

—Estás pior do que eu —murmurou ela, tentando um sorriso que se desfez a meio caminho.

—Não digas disparates — respondi, sem desviar o olhar das suas mãos finas, agarradas ao lençol como se temessem soltar-se.

Ela não insistiu. Eu também não. Falar era um luxo que nenhuma de nós podia permitir-se; gastava forças que escasseavam.

A conta do hospital crescia como uma sombra inevitável. Não precisava de ver os números para sentir o seu peso: no tom cortante das enfermeiras, nos olhares evasivos dos médicos, na forma como a minha mãe se desculpava até pelo ar que respirava. Era uma dívida que a mataria antes da doença, se eu não fizesse alguma coisa.

Voltei a pé para o apartamento sem pensar em nada, ou pelo menos tentando. Assim que fechei a porta, o silêncio atingiu-me como uma repreensão. Liguei o computador; um novo e-mail do trabalho piscava na bandeja de entrada.

«Amanhã: entrevistas para o programa de barriga de aluguer. Você receberá as candidatas. Estarão presentes ADRIÁN e CLAUDIA Valcor.»

Não devia ter-me surpreendido. Há semanas que ouvia rumores sobre isso nos corredores da Valcor Enterprises. O casal Valcor já tinha tentado tudo: tratamentos, adoções falhadas. Agora procuravam uma barriga de aluguer. O dinheiro não era um obstáculo para eles. Nunca era.

Para mim, era.

Abri o ficheiro com as dívidas médicas. O total tinha disparado novamente, um número a vermelho que me queimava os olhos. Fechei a aba antes que as mãos começassem a tremer.

O pagamento que ofereciam pela barriga de aluguer era suficiente para apagar tudo. Tinha-o visto de relance num rascunho de contrato enquanto preparava documentos. Suficiente para tratamentos, reabilitação, até mesmo para um respiro. Não pensei nisso mais do que três segundos. Ou pelo menos foi o que tentei.

Mas a ideia ficou gravada, como uma lasca.

Cheguei cedo no dia seguinte. A sala de entrevistas era fria e simétrica, como tudo na Valcor Enterprises: paredes de vidro imaculado, mobiliário minimalista que gritava poder. Coloquei pastas, garrafas de água, canetas alinhadas. Revi a lista de candidatas. Não tive tempo para mais nada.

Claudia Valcor entrou primeiro, os seus saltos a marcar um ritmo preciso contra o chão polido.

—Obrigada, Lucia. Precisávamos que estivesse pronto hoje —disse ela, a examinar a sala como se procurasse falhas na perfeição.

—Está tudo pronto — respondi, impassível.

Ela acenou com a cabeça, mas não sorriu. Ultimamente, os seus lábios eram uma linha tensa, marcada por anos de desilusões.

Adrián chegou atrás dela, alto e imponente, com aquele olhar que avaliava, dissecava e descartava num piscar de olhos.

Houve um segundo — apenas um, estúpido — em que o notei de outra forma. Não como o chefe. Como um homem que enchia uma sala sem se dar conta. Guardei-o na pasta dos pensamentos que não existem e voltei a ser a assistente.

—Pontuais? —perguntou ele, sem rodeios.

—Já estão no corredor —confirmei.

—Perfeito. Não quero perder tempo.

Claudia virou-se ligeiramente para ele.

—Também não queremos tratar isto como um trâmite frio.

—É um processo —corrigiu ele, sem olhar para ela—. Não um luto interminável.

Ela inspirou profundamente, um suspiro que ele ignorou. Eu não. Vi a dor nos seus olhos, o abismo entre eles que crescia a cada tentativa falhada.

A primeira candidata entrou: uma mulher robusta, com um olhar tenso e ombros largos, moldados pela vida.

—Tenho dois filhos —disse ela, antes que lhe perguntassem, como se isso a definisse.

Adrián examinou os seus papéis com frieza.

—Motivo?

—Dívidas. Preciso de recomeçar.

—Compreendo —disse ele, embora fosse óbvio que não. Adrián Valcor nunca tinha tocado fundo.

Claudia observou-a com uma mistura de empatia e desconfiança.

—Tem a certeza? Isto é difícil, física e emocionalmente.

A mulher ergueu o queixo, desafiadora.

—Mais difícil é vê-los passar fome.

Adrián fechou a pasta com um estalido.

—A seguir.

Não houve despedidas. Apenas a porta a fechar-se atrás dela.

A segunda era jovem, demasiado jovem, com as mãos entrelaçadas e uma determinação febril nos olhos.

—Estou pronta —afirmou ela, como um mantra.

—A pergunta não é essa —replicou Adrián sem levantar os olhos—. É se vais aguentar os nove meses, as consultas, a dedicação.

—Sim.

—Ótimo. Se mentires, vamos saber. Há cláusulas para isso.

Claudia interveio, com voz suave mas firme:

—Chega, Adrián. Não estamos a interrogar criminosos.

—Estamos a escolher quem vai ter o nosso filho —contra-atacou ele—. Não tenciono errar outra vez.

A rapariga engoliu em seco, visivelmente. Senti o nó na minha própria garganta, como se fosse meu.

Enquanto eles discutiam, algo crescia dentro de mim. Não um impulso romântico, não um sonho heróico. Um cálculo frio. As mulheres que entravam tinham razões reais, vidas destruídas que eu conseguia compreender, embora as minhas fossem diferentes. Mas nenhuma tinha uma mãe ligada a um monitor, com uma conta que a sufocava mais do que o cancro.

Quando fiquei sozinha por alguns minutos, fui buscar mais formulários. Toquei no papel; estava frio, impessoal.

Podia ser eu.

Não queria pensar nisso. Mas era verdade: saudável, sem filhos, disponível. E desesperada.

Guardei um formulário em branco na minha bolsa, sem saber se era coragem, estupidez ou pura loucura. Ou tudo ao mesmo tempo.

Passei pelo hospital no final do dia. A minha mãe dormia, o peito a subir e a descer com esforço. Sentei-me ao lado dela, na penumbra.

Tirei o formulário, olhei para ele por um segundo à luz fraca e guardei-o novamente.

—Vou tirar-te daqui — sussurrei.

Não sabia se estava a dizer-lhe isso a ela... ou a mim mesma.

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