AdriánO frio da morgue penetra-me nos ossos como uma faca enferrujada. O cheiro a formol e morte sufoca-me, mas não me mexo. Não consigo. A Claudia jaz ali, sobre a mesa de metal, coberta por um lençol branco que não esconde a realidade. O seu rosto pálido, imóvel, como uma estátua partida. Os seus lábios, que costumavam curvar-se em sorrisos que derrubavam as minhas defesas, agora quietos, frios, mortos. Toquei na sua mão, gelada como o mármore da nossa mansão. «Claudia…», sussurro, a voz quebrada no silêncio opressivo. O médico legista murmura algo sobre o acidente, o impacto instantâneo, mas as suas palavras perdem-se no vazio. Não há consolo. Apenas isto: o seu corpo sem vida, o eco do seu riso extinto para sempre. Inclinei-me, beijei a sua testa gelada, e algo dentro de mim parte-se. Irreparavelmente. Saio a cambalear, o mundo desfocado sob a chuva que não pára. Mas a culpa… essa é minha. Tudo começou com aquela gravidez. Com aqueles filhos que ela tanto desejava. E que agora od
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