CAPÍTULO 2

Lucia

A sala de reuniões estava tão fria como no dia anterior, mas a tensão tinha mudado: transparecia nos pequenos gestos, como a Claudia a esfregar as mãos como se tentasse apagar uma mancha invisível, ou a Claudia a andar de um lado para o outro, a rever pastas que já conhecia de cor. Era o segundo dia de entrevistas e nenhum dos perfis se encaixava. Todos insuficientes para o padrão implacável do Adrián.

Há horas que observava as candidatas a entrar e a sair: todas adequadas no papel, todas marcadas por um desespero que reconhecia em mim mesma, todas descartadas com um aceno de cabeça. Nenhuma tinha ultrapassado aquela barreira invisível que ele erigia sem esforço.

Coloquei outra pasta sobre a mesa, com movimentos automáticos.

—Próxima candidata em dez minutos — informei, a minha voz neutra como sempre.

—Que ela entre já — ordenou Adrián, sem olhar para mim.

—Não pode. Ainda estamos à espera dos relatórios médicos — respondi, firme. Parte do meu trabalho era travar os seus impulsos, evitar que tudo desmoronasse.

Claudia lançou-me um olhar exausto, quase agradecido.

—Obrigada, Lucia. Sem ti, isto seria um caos total.

Acenei com a cabeça, mas a minha mente estava noutro lugar. Não estava totalmente ali.

Mal conseguia manter-me de pé. Desde o amanhecer, o corpo pesava-me o dobro, como se tivesse chumbo nas veias. E não era por causa das entrevistas.

A chamada do hospital tinha chegado às três da manhã, um toque que cortou o silêncio como uma faca.

«A sua mãe teve outra crise. Precisamos que venha imediatamente.»

Corri pelas ruas desertas, o frio a morder-me a pele, as luzes a desfocarem-se devido ao pânico. Quando cheguei, a mãe ofegava, agarrada à cama, à vida, a mim. Os olhos abertos, suplicantes, a pedir algo que não conseguia articular. Os médicos estabilizaram-na por um milagre precário. Eu ainda tremia quando o amanhecer tingiu as janelas de cinzento.

Agora estava ali, a servir água, a organizar papéis, a ouvir como o Adrián rejeitava a décima candidata do dia com um veredicto seco.

—Ela não está preparada — sentenciou ele, fechando a pasta com um estalo.

—Adrián, não podemos descartar toda a gente —replicou a Claudia, a voz quebrada pelo cansaço.

—Não vou confiar a nossa última tentativa a qualquer um.

A palavra «última» flutuou no ar como uma sentença. Claudia pestanejou rapidamente, contendo as lágrimas que ameaçavam derramar-se. Compreendia-os mais do que queria admitir: a dor deles era um espelho distorcido da minha.

Mas enquanto eles falavam do seu desespero, eu só pensava no meu. No formulário que tinha guardado na minha mala no dia anterior. No contrato que tinha visto de relance: o adiantamento, a cirurgia, a possibilidade de a mãe respirar sem máquinas. O pagamento que a poderia salvar.

A minha mão fechou-se num punho debaixo da mesa. A garganta ardia-me. Algo se partiu dentro de mim, algo que já não conseguia conter.

—Há outra candidata — disse de repente, quebrando o silêncio.

Ambos se viraram para mim.

—Quem? — perguntou o Adrián, com a voz afiada como uma lâmina.

Engoli em seco, com o coração a bater-me nos ouvidos como um tambor descontrolado.

—Eu — respondi.

A Claudia arregalou os olhos, surpreendida.

O Adrián endireitou-se, como se não tivesse ouvido bem.

—Repete isso.

—Quero candidatar-me — insisti, mantendo a voz firme, embora por dentro estivesse a desmoronar-me. — Cumpro todos os requisitos: não tenho filhos, estou saudável e conheço o processo melhor do que ninguém.

O silêncio foi brutal, quase tangível, como um peso sobre o peito.

O Adrián reagiu primeiro, com a expressão a endurecer.

—Não. Trabalhas aqui. Não é apropriado. Poderia complicar tudo: legalmente, eticamente.

—Não falou em ser apropriado —contra-ataquei—. Falou em capacidade. Sei o que isso implica e sei que preciso disso tanto quanto vocês.

A Claudia observava-me com uma mistura de desconcerto e compaixão, as mãos a tremer ligeiramente.

—Lucia... por que farias algo assim? Por que agora?

Foi aí que surgiu a fratura. O momento em que deixei de me segurar.

—A minha mãe não tem tempo —confessei, com a voz a falhar pela primeira vez—. Ontem à noite teve outra crise. Não tenho dinheiro para pagar a operação. A única coisa que a pode salvar... é isto. Este pagamento.

Claudia cobriu a boca com uma mão, abafando um suspiro. Adrián franziu o sobrolho, a processar a informação.

—Isso não garante nada —objeu ele, num tom clínico—. É uma gravidez: riscos, obrigações, consequências emocionais. Não podes tratar isto como uma simples troca.

—Não é simples — admiti, as palavras a saírem como veneno —. Não é para ninguém nesta sala. Mas sei que sou capaz. E sei que vocês precisam de alguém de confiança. Não posso perdê-la, Adrián. Não posso.

Ele sustentou o meu olhar: forte, desconfortável, afiado como um bisturi. A avaliar-me, a dissecar-me.

Havia algo perturbador em ser olhada assim por ele. Não da mesma forma que os outros me olhavam — com indiferença ou com o desdém educado que reservam para o pessoal de apoio. Era um olhar que pesava. Que contava. E tive de me lembrar, com mais firmeza do que o necessário, que estava sentada diante do meu chefe na pior circunstância possível da minha vida, e que aquele peso no peito não era nada que merecesse nome.

—Sabes o que implica carregar um filho que não é teu? Entregá-lo depois, como se nada fosse?

—Sei que dói — respondi sem hesitar. — Mas dói mais vê-la morrer por falta de dinheiro.

Claudia olhou para o marido, a voz suave mas urgente.

—Adrián... por favor. Ouve-a.

Ele não respondeu de imediato. Deu alguns passos, pensativo, ponderando os riscos como se fossem números num balanço.

—Quero que o médico a examine ainda hoje —disse ele finalmente—. Se algo não bater certo, fica descartado. Sem exceções.

—Ele aceitou —afirmei, o alívio misturando-se ao terror.

Claudia levantou-se e pegou-me nas mãos, os seus dedos frios contra os meus.

—Lucia... obrigada. Não sei se isto é coragem ou loucura. Mas obrigada.

Não soube o que dizer. Só sabia que, pela primeira vez em dias, sentia uma saída. Uma única

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App