CAPÍTULO 5

Adrián

O frio da morgue penetra-me nos ossos como uma faca enferrujada. O cheiro a formol e morte sufoca-me, mas não me mexo. Não consigo. A Claudia jaz ali, sobre a mesa de metal, coberta por um lençol branco que não esconde a realidade. O seu rosto pálido, imóvel, como uma estátua partida. Os seus lábios, que costumavam curvar-se em sorrisos que derrubavam as minhas defesas, agora quietos, frios, mortos. Toquei na sua mão, gelada como o mármore da nossa mansão. «Claudia…», sussurro, a voz quebrada no silêncio opressivo. O médico legista murmura algo sobre o acidente, o impacto instantâneo, mas as suas palavras perdem-se no vazio. Não há consolo. Apenas isto: o seu corpo sem vida, o eco do seu riso extinto para sempre. Inclinei-me, beijei a sua testa gelada, e algo dentro de mim parte-se. Irreparavelmente. Saio a cambalear, o mundo desfocado sob a chuva que não pára. Mas a culpa… essa é minha. Tudo começou com aquela gravidez. Com aqueles filhos que ela tanto desejava. E que agora odeio com cada fibra do meu ser.

A mansão, que outrora foi um teatro cheio de luz, música e cheiro a pão doce — porque a Claudia insistia em cozinhar, apesar de termos cinco chefs contratados —, está agora congelada num vazio insuportável. Entrei, e o silêncio atinge-me como um soco. Os seus passos suaves já não ressoam pelos pisos de mármore. O seu riso não se espalha pelos corredores como um feitiço capaz de acalmar qualquer fúria minha. A sua voz a cantarolar melodias sem letra não enche a cozinha, o jardim de inverno nem o meu escritório. Hoje não resta nada. Apenas ausência. Apenas a prova viva de que o mundo pode arrebatar-te a única coisa que amas num piscar de olhos. A Claudia está morta. E embora o relatório policial culpe um condutor que passou um semáforo, eu sei a verdade que ninguém quer dizer em voz alta: tudo começou com aquela gravidez. Com aqueles filhos que crescem no ventre de outra mulher. Com aqueles trigémeos que ela tanto desejou… e que agora eu nem quero ver.

Lembro-me da primeira vez que vi a Claudia. Não numa pastelaria, como nas histórias românticas baratas; mas numa daquelas reuniões em que os herdeiros milionários passeiam como aves exóticas prontas para se devorarem uns aos outros. Eu era um Valcor. Ela era… inesperada. Entre vestidos de estilista e relógios suíços, a Claudia apareceu com um vestido branco simples, o cabelo preso de forma descuidada e uma taça de champanhe na mão que nunca bebeu. Ela sorria com uma tranquilidade que não combinava com os tubarões que a rodeavam. Quando os nossos olhares se cruzaram, senti que algo em mim — algo que nem sabia que existia — se acomodava. Ela aproximou-se primeiro. Sempre foi mais corajosa do que eu. — Tens cara de quem odeia este lugar — disse-me ela, divertida. Franzi o cenho. — Detesto — confessei. — Perfeito — sorriu ela. — Então podemos detestá-lo juntos. Foi assim que tudo começou. A Claudia, com a sua luz absurda. Eu, com as minhas sombras. Com ela, aprendi que existe algo mais do que contratos, processos e lutas de poder. Aprendi que alguém podia amar-me sem esperar que eu fosse perfeito.

Quando nos casámos, o meu pai disse-me: «Um filho, Adrián. Só um. É a única coisa que falta para garantir a herança. O teu irmão já está a mover peças. Não te adormeces.» Nunca quis filhos. A Claudia sim. Ela sonhava em encher esta mansão de vozes pequenas e risos. Aceitei — não pela herança, pelo menos não apenas por isso —, mas porque a via tão feliz que sentia que o meu coração se poderia partir se lhe dissesse que não. Mas nada resultou. Tratamentos falhados. Esperas intermináveis. Lágrimas que ela escondia para que eu «não carregasse mais culpas». Quando ela me propôs a barriga de aluguer… quando me falou do assunto, eu aceitei. Porque a amava. Porque queria dar-lhe o que ela mais desejava. E porque a herança garantiria que a nossa família estivesse protegida. Que ela estivesse protegida. Que ironia. A tentativa de salvar o nosso futuro acabou por matá-la.

As coisas dela ainda estão no nosso quarto. O perfume dela flutua como um fantasma doce que me segue a cada passo. Não consigo entrar no closet sem tremer. Há três horas, no hospital, quando me disseram que ela tinha morrido instantaneamente, senti que alguém me arrancou a alma do corpo. Eu, que nunca chorei na frente de ninguém, desmoronei-me num corredor na frente de uma estranha. Na frente da Lucía. Com o coração partido, o mundo a desmoronar-se sob os meus pés. E quando a vi — com a barriga enorme, a apertar-se o ventre, a respirar ofegante — algo dentro de mim explodiu. Dor. Culpa. Raiva. Uma raiva venenosa, irracional, mas real. Essas crianças… essas três crianças que ela tanto esperava… são agora a prova viva de que a Claudia já não está aqui. De que a luz da minha vida morreu sozinha, debaixo da chuva, enquanto procurava roupa para elas. Esta mansão, onde ela planeava quartos temáticos para os bebés, parece hoje um mausoléu. Na ala leste, as caixas com brinquedos continuam no chão. Ela deixou-as ali antes de morrer. E a mim resta-me apenas o eco da sua voz: «Adri, quero que os nossos filhos cresçam rodeados de amor, não de frieza.» Que ironia tão cruel. Não consigo olhar para aquelas caixas sem sentir que me queimo. Não consigo pensar nos trigémeos sem sentir que me afogo. Não consigo ser pai deles. Não agora. Talvez nunca.

O Ernesto, o meu irmão, já tentou contactar-me. Quer certificar-se de que faço o «correto» em relação à herança. Que cumpra os requisitos. Mas que não pense que vou permitir que ele toque num cêntimo enquanto eu respirar. Não ele. Não o homem que sempre desejou ver-me cair. Mesmo assim… nada disso importa agora. Nem a herança. Nem as empresas. Nem as batalhas legais. Tudo se tornou irrelevante no dia em que perdi a Claudia.

O telemóvel vibra no meu bolso, mas ignorei-o. Até que o mordomo entra, com o rosto pálido como o de um fantasma. ---Senhor Valcor… uma chamada do hospital. Olhei para ele, irritado. ---Agora não. ---É sobre a Lucía —insiste ele, com a voz trémula—. Ela deu à luz esta noite. Dois meninos e uma menina. Estão bem, mas são prematuros.

O mundo pára. Dois meninos. Uma menina. Trigémeos. Nascidos nessa mesma noite, depois de perder a Claudia. Depois de a dor a ter levado ao parto prematuro. Sinto um nó no estômago, uma náusea que sobe como bile. ---Não ---digo, com a voz rouca, explosiva---. Não os quero. O mordomo pestaneja, confuso. ---Senhor… são os seus filhos. E a herança… o seu pai deixou isso bem claro. Sem descendentes, tudo vai para o Ernesto.

Levantei-me de repente, cego pela raiva. — Não me interessa! — grito, batendo na mesa, o eco a ressoar na mansão vazia. — A herança pode ir para o inferno! Essas crianças tiraram-me a Claudia! Sem eles, ela não teria saído à noite! Sem eles, estaria viva! O mordomo recua, mas eu continuo, a dor a sair como veneno. —Diga-lhes para a Lucía ficar com eles. Pague-lhes mais. O que for preciso. Mas não os tragam para cá. Não os quero ver. Não sem ela. O silêncio volta, mais pesado.

Às vezes penso em ir ver a Lucía… mas só de imaginar a sua barriga —agora vazia— destrói-me. Só de imaginar aqueles corpinho a chorar numa incubadora, revolta-me o estômago. Porque sei que se voltar a sentir aquela mistura de vida e morte ao mesmo tempo… vou partir-me para sempre. A Lucía acha que sou um monstro. Talvez seja. Talvez perder a mulher que amava me tenha transformado em algo que não reconheço. Por agora, a decisão é clara: não quero aquelas crianças. Não consigo olhar para elas sem me lembrar de como a Claudia morreu. De como a perdi. Talvez com o tempo algo mude. Talvez não. A única coisa que sei é que o mundo continua a girar, indiferente, enquanto eu permaneço preso no momento exato em que a luz se apagou. E nada, absolutamente nada, ma trará de volta.

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