Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucia
A clínica privada onde o procedimento seria realizado não se parecia com nada que eu já tivesse visto antes: corredores silenciosos, luzes brancas que iluminavam sem piscar, pisos polidos que refletiam cada passo como um espelho implacável. Era o tipo de lugar onde ninguém morria por falta de recursos. Onde a vida valia porque alguém podia comprá-la.
Cláudia chegou primeiro, a sua maquilhagem impecável contrastando com os olhos inchados, como se as noites de insónia a tivessem marcado, apesar de tudo.
—Lúcia —disse ela com um sorriso suave, quase maternal—. Hoje é um dia importante. Estás bem?
Acenei com a cabeça, embora não estivesse. Um peso no estômago apertava-me como uma garra, impedindo-me de respirar fundo. Mas não podia hesitar agora; não depois de ter roubado aquele formulário e de o ter transformado na minha tábua de salvação.
O Adrián apareceu atrás de mim, de fato escuro e com uma expressão impenetrável, uma aura que obrigava todos a se afastarem.
—Vamos fazer isto depressa —disse ele, sem cumprimentos desnecessários. Quanto menor for a margem de erro, melhor.
Não era pura frieza; era medo envolto em controlo, como se admiti-lo o tornasse real.
A médica conduziu-nos a uma pequena sala, esterilizada a ponto de parecer impessoal. Explicou protocolos, riscos e estatísticas com voz monótona, mas eu mal registava as palavras. A minha mente voltava-se repetidamente para a minha mãe: a sua respiração entrecortada, o seu corpo a convulsar naquela madrugada em que a crise quase a levou. Aquela imagem repetia-se como um eco doloroso, justificando cada passo que eu dava.
A Cláudia pegou-me na mão quando me deitei na maca, o papel a estalar sob o meu peso.
—Respira fundo. Estamos contigo — sussurrou ela, a palma quente da sua mão contra a minha gelada.
O Adrián ficou de pé, rígido, a escrutinar cada movimento da médica como se estivesse a supervisionar uma operação de alto risco.
O procedimento foi rápido, frio, preciso: uma picada aguda, um fluido invasor e, depois, nada mais do que o zumbido das máquinas. Quando terminou, ajudaram-me a sentar-me, com o mundo a girar ligeiramente.
—Agora é só esperar — disse a médica, com um sorriso profissional.
Cláudia sorriu com uma mistura de esperança e terror contido. O Adrián limitou-se a acenar com a cabeça, mas a sua mandíbula tensa parecia prestes a estalar.
\*\*
As semanas seguintes transformaram-se numa rotina sufocante: trabalho no escritório, com olhares evasivos, consultas médicas que me roubavam as tardes, e descanso forçado que não acalmava o esgotamento. A Cláudia escrevia-me todos os dias; as suas mensagens eram um alívio inesperado.
Como acordaste? Precisas de alguma coisa?
Come bem? Levo-te as vitaminas, se for preciso.
O Adrián, por outro lado, era pontual e seco:
Consulta às sete. Não faltes.
Verifica a tua pressão. Chega às dez.
Nunca um emoticon. Nunca uma palavra a mais.
O primeiro exame de sangue deu positivo. A Cláudia chorou ao telefone, com a voz embargada pela emoção.
—Lúcia, meu Deus, obrigada! Conseguimos... finalmente...
O Adrián limitou-se a dizer:
—Ótimo. Vamos marcar as consultas semanais.
Mas quando a médica ligou para marcar a ecografia, o seu tom era invulgar, carregado de algo por dizer.
—Preciso que venham os três. Ainda hoje.
O consultório estava impregnado de um silêncio opressivo. A médica aplicou o gel frio no meu abdômen — um arrepio que me percorreu a espinha — e moveu o transdutor. O ecrã ganhou vida.
Um batimento surdo.
Outro.
E um terceiro.
Três pontos a piscar, três ritmos sincronizados.
—São... —Claudia levou a mão à boca, com os olhos a encherem-se de lágrimas—. São...?
—Trigémeos —confirmou a médica, com voz neutra—. Três embriões implantados com sucesso. É raro, mas possível nestes procedimentos.
O ar ficou pesado, como se a sala tivesse encolhido.
Claudia desatou a chorar, sem conseguir conter-se.
—Adrián... são três! Três vidas... Três bebés!
Ele não falou de imediato. Apertou os punhos, o impacto visível no seu rosto pálido. Quando finalmente abriu a boca, a sua voz estava rouca, quase irreconhecível.
—Obrigado, Lucia.
Era a primeira vez que ele me dizia isso de verdade, sem filtros. E soou genuíno, vulnerável.
Esse era o problema: ele sem a armadura. O Adrián Valcor com a voz rouca e os olhos brilhantes era uma versão que eu não estava preparada para processar. Era mais fácil quando ele era frio, quando dispensava candidatas com um estalar de pasta, quando falava em frases curtas e secas. Isso tornava-o controlável. Isso tornava-o apenas o chefe. Isto — este homem de pé junto a um ecrã de ecografia com três batimentos cardíacos que eram dele — era outra coisa. Uma coisa para a qual não tinha nome e à qual não ia dar nenhum. Tinha a minha mãe doente, um contrato assinado e três vidas dentro do meu corpo. Não me restava espaço para disparates.
Eu não sabia o que sentir: um orgulho fugaz, pânico crescente, uma vertigem que me tensionava as mãos. Ser barriga de aluguer já era um fardo esmagador. Ser barriga de aluguer de três... isso transformava o meu corpo num campo minado, onde três vidas cresciam sem pedir permissão.
\*\*
Naquele dia, ao sair da clínica, desviei o caminho para o hospital para ver a minha mãe. Ela estava sentada na cama, fraca mas estável, fora de perigo por enquanto.
—Pareces cansada —disse ela, estendendo uma mão frágil—. Vem, senta-te.
Apertei os dentes. Não podia continuar a escondê-lo. O meu corpo começava a mudar: um inchaço subtil, um cansaço que não passava. Três vidas fazem mais barulho do que uma.
—Mãe... tenho de te dizer uma coisa.
Ela sorriu, os olhos a brilharem fracamente.
—Não importa o que seja, filha. Diz-me.
Respirei fundo, o ar a queimar-me os pulmões.
—Estou grávida.
O rosto dela iluminou-se como não via há meses, com um lampejo de vida a regressar.
—O quê? Lucia, minha menina...! —Cobriu a boca com as mãos trémulas—. Não consigo acreditar. Vou ser avó...
O nó na minha garganta apertou-se, doloroso.
—Mãe... não são meus. É uma gravidez de substituição. Para o meu chefe e a sua esposa. Faz... parte do acordo.
O sorriso apagou-se como uma vela ao sopro do vento.
—Ah... —sussurrou ela, a assimilar a situação—. Compreendo.
—Fiz isto por ti — acrescentei rapidamente, com a voz a tremer-me—. Para pagar a operação. Para não te perder.
Ela fechou os olhos, uma lágrima a escorrer pela sua bochecha pálida. Mas quando falou, a sua voz era firme, cheia de amor.
—Tenho orgulho de ti. Não pelo sacrifício... mas pela tua coragem.
Ela segurou-me o rosto com as suas mãos frias, obrigando-me a olhar para ela.
—Mas promete-me uma coisa: não te esqueças de que a tua vida também importa.
Não soube o que responder. Tinha três vidas a pulsar dentro de mim e uma agarrada a mim por fora, dependente das minhas decisões.
—Prometo-te — menti, com as palavras amargas na língua.
\*\*
Naquela noite, enquanto caminhava para casa sob um céu nublado, percebi que nada voltaria a ser como antes. Os Valcor tinham recuperado a esperança. A minha mãe, a saúde, pelo menos por agora.
E eu... tinha perdido qualquer vestígio da Lucía de antes. Três batidas acompanhavam-me, uma lembrança constante.
Três destinos entrelaçados.
Três razões para não falhar.







