CAPÍTULO 4

Lucia

Os dias que antecederam foram uma descida interminável: corredores gelados que cheiravam a desinfetante e morte, luzes brancas que queimavam os olhos, o bip constante de máquinas que já não salvavam ninguém. A mãe desmoronava-se diante de mim, embora fingisse força. O seu sorriso tremia como uma folha seca, a sua pele pálida como um lençol gasto, e os seus olhos... já não brilhavam. Apenas resistiam, agarrando-se a um fio que se tornava mais fino a cada hora que passava. Eu visitava-a todas as tardes, segurando a barriga inchada, sentindo os trigémeos a dar pontapés como se soubessem que o mundo estava a desmoronar-se.

Ela foi internada novamente na UCI num dia cinzento, sob uma chuva torrencial que batia nas janelas. Assinei papéis com as mãos suadas, o coração a martelar-me no peito, sem compreender uma palavra. Estava grávida de oito meses, o peso brutal dos trigémeos esmagava-me: cada passo era um esforço, cada movimento uma lembrança de que o meu corpo estava no limite, esticado até à beira do colapso. Mas nada importava enquanto ela respirasse, enquanto a sua mão fria ainda apertasse a minha.

Mas naquela noite tudo mudou, o telefone tocou na escuridão, um toque que cortou o silêncio como uma faca.

—Lucia Navas? — a voz era grave, exausta —. Tem de vir ao hospital. É a sua mãe.

A chávena escorregou-me das mãos, estilhaçando-se contra o chão num estrondo que não ouvi. Não vesti casaco nem calçado decente. Apenas corri, o frio da noite a morder-me a pele, a água da chuva a encharcar-me enquanto atravessava ruas vazias.

O elevador demorava uma eternidade. Subi as escadas ofegante, segurando a barriga inchada, sentindo uma contração que me dobrou como um raio. Aguentem, pequeninos, pensei, pressionando com as mãos, a dor a irradiar pelas minhas costas. Mas continuei a subir, ignorando o fogo nos meus pulmões, o peso que me arrastava para baixo.

Quando entrei no quarto, soube que eram os seus últimos minutos. A sua pele estava quase translúcida, a sua respiração um sussurro agonizante, interrompida por tosses fracas que ressoavam no quarto estéril.

—Filha… —murmurou ela, olhando para mim com uma ternura que me despedaçou por dentro—. Promete-me… que não te deixarás morrer comigo.

—Mãe, por favor… —mal conseguia falar, as lágrimas a sufocar-me, ajoelhando-me junto à cama.

—Vais dar à luz esses bebés… e terás a tua vida. Não fiques sozinha… promete-me que irás procurar a tua própria felicidade.

Ela apertou-me a mão com uma força impossível para o seu corpo debilitado, os seus dedos como garras frias a cravarem-se na minha pele.

Eu chorava, abanando a cabeça, o soluço preso na minha garganta.

—Não me deixes… não me deixes —sussurrei, destroçada.

Ela acariciou-me a bochecha, como quando eu era criança e tinha medo do escuro.

—Amo-te… tanto… —A sua voz enfraqueceu, um fio quase inaudível—. Procura entre as minhas coisas… encontrarás algo… que mudará a tua vida…

Não compreendi. As suas palavras perderam-se no ar, um enigma que me deixou confusa, mas não havia tempo para perguntar. Os seus olhos fecharam-se, uma lágrima a escorrer-lhe pela bochecha.

O monitor mudou.

Primeiro, mais devagar.

Depois, um bipe interminável.

Nada.

—Doutora! —gritei, embora já soubesse. Ela tinha-se ido.

Fiquei abraçada ao seu corpo inerte, a inalar o seu cheiro a lavanda e hospital, desesperada por gravar cada detalhe antes que mo tirassem para sempre. A dor atingiu-me como uma onda, um vazio que me sufocava, e então senti outra contração, mais forte, mais insistente, como se o impacto tivesse despertado algo dentro de mim.

Saí cambaleando para o corredor, cega pelas lágrimas, o mundo embaçado, segurando a barriga enquanto a dor se intensificava, ondas de agonia que me obrigavam a apoiar-me na parede.

E foi aí que o vi.

Adrián Valcor.

De pé, abatido, destroçado.

A chorar.

Adrián, o homem de controlo absoluto, o empresário implacável que nunca mostrava fraquezas. O rosto desfigurado, os olhos vermelhos, as mãos enredadas no cabelo como se tentasse arrancar a dor, soluçando em silêncio contra a parede.

Aproximei-me lentamente, com a voz abafada, ignorando a contração que me percorria o estômago.

—Senhor Valcor… o que… o que aconteceu?

Ele ergueu o olhar, os olhos como poços de agonia, injetados de sangue.

—Claudia… — a sua voz quebrou-se, dilacerada, e de repente explodiu, batendo com o punho na parede —. A minha mulher! A Lucia, ela…!

Engoliu em seco, tremendo visivelmente, o corpo a convulsar-se de raiva contida.

—Um maldito condutor… não travou. Ela… morreu na hora! Na hora, caramba!

O corredor encolheu-se, o ar tornou-se pesado. Fiquei sem fôlego e outra contração dobrou-me, mas contive-me.

—Não... — murmurei, cobrindo a boca com as mãos.

Ele apertou os olhos, como se quisesse apagar a memória, e depois gritou, a sua voz a ressoar no corredor vazio.

—Ela saiu para comprar roupa… brinquedos… para os bebés —cuspia as palavras com raiva cega, batendo novamente na parede, o eco a ressoar—. Não queria que carregasses mais! Queria fazer-te uma surpresa! Estava tão… tão feliz, raios!

A sua voz quebrou-se completamente, mas a dor cegava-o, transformando-o em fúria.

—E agora está morta. Morta por causa disto!

Dei um passo na direção dele por instinto, mas a sua expressão mudou. Endureceu-se, tornou-se afiada, acusadora, explosiva.

—Isto não teria acontecido se não fosse esta maldita gravidez —bramou ele, apontando-me com um dedo trémulo, o rosto contorcido pela culpa e pela raiva—. Se não tivéssemos insistido! Se não tivéssemos tentado outra vez… ela estaria viva! Tu e este… este erro tiraram-ma!

Senti uma facada no peito, a dor a irradiar até à barriga, e outra contração atingiu-me, mais aguda, obrigando-me a ofegar.

—Senhor Valcor… eu… lamento tanto… —consegui dizer, com a voz trémula, lágrimas a misturarem-se com o suor.

Mas ele já não me via como aliada. Apenas como uma lembrança viva da sua perda, a dor a cegá-lo completamente.

—Lucia —rugiu ele, a voz um trovão gelado—. Vou pagar-te tudo! O contrato completo. Mais! O que for! Mas não quero essas crianças. Não consigo! Não… depois disto! Leva-as, queima-as, faz o que quiseres, mas não as quero por perto!

As minhas pernas cederam, o mundo girou, e a dor na minha barriga intensificou-se, as contrações vindo em ondas, o impacto de perder a mãe a acelerar o parto prematuro.

—Não... não pode dizer isso — sussurrei, destroçada, curvando-me de dor —. São os seus filhos.

—A Claudia era a minha vida —replicou ele com uma frieza explosiva, o punho a cerrar-se até branquear os nós dos dedos—. E o preço desta tentativa… foi ela! Tudo por nada!

Ele virou-me as costas, caminhando como um fantasma pelo corredor, deixando-me sozinha no vazio, os seus passos a ressoar como acusações.

O meu telemóvel vibrou. Um depósito. O dobro. O triplo. Uma tentativa desesperada de cortar todos os laços.

Apertei a minha enorme barriga com as mãos. Os trigémeos mexiam-se, fortes, inquietos, como se sentissem a tempestade. A dor do parto obrigou-me a apoiar-me na parede, a respirar ofegante, sabendo que tinha de pedir ajuda, mas a dor paralisava-me.

Eu tinha perdido a minha mãe.

O Adrián acabara de perder a sua esposa.

E aqueles três pequeninos… tinham acabado de perder tudo.

Abracei a minha barriga, protegendo-os com os meus braços, as lágrimas a cair sobre a pele esticada, enquanto outra contração me fazia gritar em silêncio.

—Não vou deixá-los sozinhos — sussurrei, a voz entrecortada por soluços e dor. — Não como eu... não como ele... não como a minha mãe. Vou cuidar de vocês. De vocês, sim. Prometo-vos.

No meio da dor, descobri uma coisa: eles eram tudo o que me restava. A única coisa que ainda me dava forças para continuar a respirar, mesmo enquanto o meu corpo se partia

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