Mundo de ficçãoIniciar sessãoA tarde na mansão arrastou-se como melado, pesada com o peso daquele quarto trancado queimando na minha mente. Tentei focar nas aulas — frações pra Giulietta, que rabiscava coraçãozinhos no caderno, e formas geométricas pro Lorenzo, que empilhava blocos sem entusiasmo. Mas a loira do retrato… aqueles olhos azuis gélidos me perseguiam. Quando as crianças foram liberadas pro lanche, corri pra cozinha, onde Assunta cortava vegetais com precisão cirúrgica.
— Assunta, preciso falar com você — soltei, voz baixa, olhando pros lados. Rex dormia no tapete, alheio. — Quem é aquela mulher do quarto trancado? A do quadro enorme?Ela parou, faca no ar, olhos cinzentos estreitando.
— Isabella, baixa a voz. — Não consigo! Entrei sem querer… Giulietta armou esconde-esconde, deixou a porta entreaberta. Vi tudo: vestidos, joias, o retrato. Alessandro quase me matou! “Chi ti ha dado permesso?”, gritando como se eu tivesse profanado um túmulo. Foi armadilha dela, tenho certeza.Assunta suspirou, limpando as mãos no avental. Seus 30 anos de lealdade pesavam em cada ruga.
— Não é lugar de empregada. Fica quieta, menina. Não mexe no que não te diz respeito, se quer preservar o emprego. Esse quarto… é passado. Enterrado. Deixa assim. — Mas quem era ela? — insisti, coração acelerado.Ela balançou a cabeça, firme.
— Cuida das crianças. É o seu lugar. — Voltou pros vegetais, conversa encerrada.Frustrada, saí da cozinha com um bolo de perguntas entaladas. A mansão parecia maior, mais labiríntica, segredos em cada sombra. No corredor, vozes masculinas ecoaram do escritório semiaberto. Alessandro, Enzo e Matteo. Parei, instinto me colando na parede.
— …remessa portuária atrasa dois dias — voz grave de Alessandro, controlada como sempre. — Os russos estão farejando. Viktor Ivanov não esquece a dívida. — Duplicamos os homens no cais? — Enzo, provocador como sempre. — Sim. E nada de furos. Se perdermos essa carga, cabeças rolam — Alessandro cortou, tom final.Matteo murmurou algo sobre “contatos na alfândega”. Saí de fininho, coração trovejando. Remessa portuária? Russos? Não era empresário de importação. Era… maior. Mais sujo. Don da máfia? A suspeita me gelou. Quem era esse homem de verdade?
A noite caiu suave de maio, oliveiras sussurrando ao vento. Na suíte, Rex roncava enquanto eu rolava na cama king, dúvidas invadindo como maré. Peguei o celular, abri buscas sobre traumas infantis. “Mutismo seletivo: carinho consistente, jogos lúdicos, desenhos pra expressar o indizível.”
Anotei ideias: carrinhos terapêuticos, histórias inventadas. Lorenzo precisava disso. Mas a curiosidade venceu. Digitei: Alessandro Lombardi.
Resultados: “Empresário temido de Bari, império de logística marítima.” Artigos o pintavam como tubarão dos negócios, festas de gala, respeito (e medo) regional. Rolei pra baixo. Um link clicável: “O que foi feito da esposa do temível empresário Alessandro Lombardi?”
Cliquei. A mesma loira do quadro enchia a tela — Donna Chiara, radiante em foto de casamento. Li voraz: “Explosão de carro na rodovia costeira, 2022. Corpo não encontrado. Polícia arquiva como acidente, sem motivo claro.” Fotos do carro retorcido, especulações. Pobre Chiara. Pobre Alessandro. Pobres crianças. Giulietta com 10 anos na época, Lorenzo bebê. Sem mãe. Pai ausente. Fazia sentido a rebeldia dela, o silêncio dele.
Comentários fervilhavam: “Conspiração russa!”, “Vingança de rivais”, “Procuro posição de esposa”. Revirava os olhos pras fãs. Mas um anônimo gelou meu sangue: “Nem o mais temível Don da máfia é intocável.”
Don da máfia. Ali estava. Não empresário. Capo. Cosa Nostra. A cabeça girava. Fechei o celular, mas o sono não veio. Desci pra cozinha em pés de lã, silk curto colando no corpo quente da noite. Enchi um copo de leite, aqueceu no micro. Janela aberta, oliveiras dançando ao luar. Respirei fundo, tentando acalmar.
— Não dorme? — Voz grave atrás de mim.Virei num salto. Alessandro, sem camisa, músculos esculpidos brilhando sob a luz fraca. Peito largo, abdômen definido como mármore vivo. Tatuagens antigas: dragão negro enrolado no ombro direito, rosas com espinhos no antebraço. Mas saltou uma no peitoral: cruz siciliana com “Famiglia”, tinta desbotada pelo tempo. Cicatriz feia acima do coração esquerdo — entrada de bala, irregular, anos de história. Ele era um mapa de guerras.
— Não… pensamentos demais — murmurei, leite quente queimando a mão trêmula. Olhos dele desceram devagar: pernas nuas, silk fino marcando curvas, decote. Percorria possessivo, sem pudor. Tensão crepitou no ar, elétrica. — Volta pra cama — ordenou baixo, mas rouco, aproximando um passo. Cheiro dele: sabonete, pele aquecida. — E você? — desafiei, voz falha. — Cozinha às 2h? — Negócios. — Olhar fixo, intensidade me prendendo. — Durma, Isabella. Amanhã cuida dos meus filhos.Assenti, copo vazio na pia. Passamos perto demais na porta — calor dele roçando meu braço. Subi correndo, porta trancada. Deitei com coração disparado. Don da máfia. Tatuagens de clã. Cicatriz de bala. Chiara morta. E aqueles olhos… me despindo.
A mansão dormia. Mas eu sabia: seus segredos acordavam.






