Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol da tarde filtrava pelas cortinas pesadas da suíte improvisada, lançando sombras compridas no chão de mármore. Eu havia dormido pouco mais de duas horas, mas o peso do novo teto — e do Don que comandava essa casa — já me fazia sentir uma intrusa permanente. Rex roncava ao pé da cama, alheio ao caos que eu tentara deixar para trás no apartamento inundado. Olhei o relógio: 8h45. Hora de enfrentar as crianças.
Desci as escadas com o dossiê na mão, o cheiro de café fresco misturando-se ao aroma de oliveiras antigas que invadia os corredores. A mansão parecia viva de um jeito diferente agora que eu fazia parte dela — ou pelo menos dormia sob seu teto. Assunta me encontrou na cozinha, arrumando o café da manhã das crianças com eficiência militar.
— Dormiu bem? — perguntou ela, sem tirar os olhos da torradeira. — O Don já checou os estudos de hoje. Matemática avançada pra Giulietta, formas geométricas pro Lorenzo.Assenti, pegando uma xícara de café forte.
— Como uma pedra. Rex conquistou a cama. Obrigada de novo, Assunta.Ela deu um sorriso discreto, entregando-me um cesto com pães e frutas.
— Ele gosta de cachorros. Raro nele. Leve pras crianças. Elas comem melhor com você por perto.Subi para a sala de estudos no segundo andar, onde Giulietta já estava largada na poltrona de couro, pernas cruzadas, rolando o celular com desdém. Lorenzo brincava com blocos no tapete, construindo uma torre instável que desabava a cada poucos minutos. O ar estava carregado de silêncio desafiador.
— Bom dia — tentei, colocando o cesto na mesa. — Café da manhã antes da aula?Giulietta ergueu os olhos azuis penetrantes, iguais aos do pai, mas cheios de uma rebeldia afiada.
— Não tô com fome. E você morando aqui agora? Patético. Papai deve tá desesperado por companhia.Ignorei a alfinetada, sentando ao lado de Lorenzo.
— Só temporário. Meu apartamento precisa de obras. Vamos começar com formas? — Peguei um bloco vermelho, mostrando. Ele observou, mas não tocou.Giulietta bufou, largando o celular.
— Sabe o que seria legal? Esconde-esconde. Aqui na mansão. Aposto que você perde feio.
Meu radar interno piscou. Ela nunca sugeria brincar.
— Esconde-esconde? Durante aula?
— Por que não? Lorenzo adora. — Ela se levantou, voz melosa demais pra ser sincera. — Voce conta. Nos escondemos. Perdedor lava a louça da semana.Lorenzo ergueu os olhos pela primeira vez, um brilho fugaz de interesse. Contra meu bom senso, concordei.
— Tudo bem. Mas só dez minutos. Um… dois…As crianças saíram correndo, risinhos abafados ecoando pelo corredor. Esperei até dez, depois saí procurando. A mansão era um labirinto: biblioteca vazia, salão de jogos silencioso, até o jardim das oliveiras. Nada. Voltei pros andares superiores, passando por portas trancadas que eu nunca notara.
Uma estava entreaberta no fim do corredor oeste — carvalho escuro, maçaneta de bronze polido. Estranho. Assunta mantinha tudo impecável, nunca entreaberto. Curiosidade venceu. Empurrei devagar.O quarto era um santuário congelado no tempo. Uma cama king com dossel de seda creme, armários abertos revelando vestidos de alta-costura — Chanel, Dior, peças intocadas há anos. Frascos de perfume cristalino na penteadeira, joias espalhadas como se a dona tivesse saído por um minuto. E na parede principal, um retrato a óleo gigantesco: mulher loira, olhos azuis gélidos, sorriso enigmático sob um chapéu de leque. Beleza etérea, mas com algo… quebrado no olhar. Quem era ela? A semelhança com as crianças era sutil, mas inegável.
Toquei a moldura dourada, hipnotizada. Uma foto emoldurada na mesa: ela com Alessandro, mais jovem, braços entrelaçados num iate. Ele sorria de um jeito que eu nunca vira — leve, quase humano. Meu coração acelerou. Donna Chiara?
Passos pesados atrás de mim. Virei num salto.Alessandro enchia a porta, imenso, olhos azuis escuros flamejando fúria pura. A camisa preta esticava nos ombros tensos, punhos cerrados.
— CHI TI HA DADO PERMESSO DI ENTRARE QUI?! — trovejou, voz como granito rachando. Avançou dois passos, me encurralando contra a penteadeira.
Eu recuei, coração na garganta.
— Eu… Giulietta! Esconde-esconde. A porta tava aberta. Eu não sabia— — SAI. ORA.Cada sílaba era uma lâmina. Ele não tocou em mim, mas a proximidade era sufocante, cheiro de colônia amadeirada misturado à raiva. Seus olhos varreram o quarto, pousando no retrato por um segundo — dor crua ali, antes de endurecer de novo.
— Isso não é da sua conta. Nunca mais entre aqui. — Desculpe, Don Alessandro. Juro. — Minha voz tremia, mas sustentei o olhar. Leal até o fim, mesmo tremendo.Ele apontou a porta, imperativo. Saí correndo pelo corredor, sentindo o peso daquele olhar nas costas até a sala de estudos. Giulietta estava lá, fingindo ler um livro, sorriso vitorioso escondido nos cantos da boca. Lorenzo observava, olhos grandes e culpados.
— Encontrei vocês — murmurei, voz rouca. — Aula agora.Giulietta deu de ombros.
— Legal, né? A mansão tem uns cantos incríveis.Não respondi. Mas enquanto explicava frações com mãos ainda trêmulas, a imagem da loira do retrato queimava na minha mente. Quem era ela pra merecer um quarto-museu? E por que Alessandro olhou praquele quadro como se doesse?
No almoço, evitei os olhos dele. Assunta serviu risotto de açafrão em silêncio, mas seus olhos encontraram os meus — aviso mudo: não pergunte. Rex, deitado aos meus pés, era o único conforto naquela casa de segredos trancados.
A tarde passou em tensão sufocada. Giulietta voltou ao sarcasmo habitual, Lorenzo ao silêncio. Mas o retrato… ele pairava sobre tudo, um fantasma que eu não conseguia ignorar. E o Don? Sua fúria não era só raiva de invasão. Era dor antiga, exposta.
Naquela noite, deitada na suíte que agora parecia uma cela dourada, ouvi passos no corredor. Pararam na minha porta. Silêncio. Depois, se afastaram. Alessandro? Não me levantei pra confirmar.
A mansão guardava seus mortos. E eu estava cavando cedo demais.







