Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle não sabia amar. Dante não apenas evitava sentimentos — ele os destruía antes que pudessem existir. Frio, inacessível e marcado por um passado que se recusa a encarar, sua casa é o reflexo perfeito de quem ele se tornou: silenciosa, impecável… e completamente vazia. Até Clara atravessar aquela porta. Ela não pediu espaço — e definitivamente não pediu permissão para permanecer. Contratada para trabalhar em sua casa, Clara logo percebe que por trás do homem arrogante e distante existe algo muito mais perigoso do que a frieza: dor. E ao contrário de todos, ela não recua. Entre ordens secas, olhares demorados e silêncios carregados de tensão, uma conexão inesperada começa a surgir — intensa demais para ser ignorada, arriscada demais para ser vivida. Mas amar alguém como Dante tem um preço. E quando segredos vêm à tona e feridas antigas são reabertas, Clara vai precisar decidir se vale a pena lutar por um homem que nunca aprendeu a amar… ou se a única forma de não se perder é ir embora antes que seja tarde demais.
Ler mais🖤 A Casa do Silêncio
... Eu soube que não gostaria daquele lugar antes mesmo de entrar. O portão se abriu devagar, com um rangido baixo que pareceu alto demais no silêncio ao redor. Apertei a alça da minha bolsa com mais força do que o necessário, como se aquilo fosse me dar algum tipo de controle. Respira, Clara. Era só um trabalho. Só mais um. Dei o primeiro passo para dentro da propriedade e senti imediatamente: aquele lugar não era feito para pessoas. Era bonito, sim… mas de um jeito frio. Calculado demais. Linhas retas, vidro escuro, concreto em tons neutros. Sem flores. Sem cor. Sem vida. Meu estômago se contraiu. — Ótimo… — murmurei, quase sem som. — Exatamente o tipo de lugar onde pessoas felizes vivem. Caminhei até a porta principal, o som dos meus próprios passos me incomodando mais do que deveria. Toquei a campainha. Uma vez. Duas. Nada. Cruzei os braços, já começando a perder a paciência. — Sério isso? Levantei a mão para tocar pela terceira vez, mas antes disso a porta se abriu de repente. E foi aí que eu o vi. Por um segundo — só um — eu esqueci completamente o que estava fazendo ali. Ele era… intenso. Não era só sobre aparência, embora ele claramente soubesse o impacto que causava. Era a forma como ele se mantinha parado, como se o mundo tivesse que se ajustar a ele, e não o contrário. Alto. Postura rígida. Camisa escura perfeitamente alinhada. E aqueles olhos… Escuros. Profundos. Vazios. Completamente vazios. Ele me olhou de cima a baixo, sem pressa. Sem disfarçar. Eu sustentei. Porque se tinha uma coisa que eu aprendi na vida, era que baixar o olhar na frente de alguém como ele era a pior escolha possível. — Você está atrasada. A voz dele era baixa, firme… e tão fria quanto a casa. Eu pisquei uma vez, mais para ganhar um segundo do que por surpresa. — Bom dia pra você também. Silêncio. Nenhuma reação. Nem um mínimo sinal de educação básica. Senti a irritação subir, quente, familiar. — E não, eu não estou atrasada — continuei, firme. — Cheguei no horário combinado. Se alguém demorou pra abrir a porta, definitivamente não fui eu. Os olhos dele se estreitaram levemente. Aquilo foi quase satisfatório. Quase. Inclinei a cabeça, encarando. — Mais alguma coisa? Por um instante, algo mudou no olhar dele. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas eu vi. Ele não estava acostumado a ser respondido. Ótimo. Ele deu um passo para o lado, abrindo espaço. — Entre. Não foi um convite. Foi uma ordem. Passei por ele sem dizer nada, sentindo a presença dele atrás de mim como uma sombra. E assim que cruzei a porta… O silêncio ficou ainda pior. A casa por dentro era exatamente o que eu imaginei. Impecável. Organizada demais. Limpa demais. Fria demais. Era como se ninguém realmente vivesse ali. Como se tudo estivesse no lugar certo… mas completamente morto. Meus olhos percorreram o ambiente devagar, absorvendo cada detalhe. Sofás perfeitos, mesas sem uma única marca, nenhuma foto, nenhum objeto pessoal. Nada. Nem um sinal de história. Nem um sinal de vida. — Regras. A voz dele atrás de mim me fez virar. Ele estava parado a poucos passos, me observando como se estivesse avaliando algo que ainda não tinha decidido se valia a pena manter. Cruzei os braços. — Claro. Porque um “bom dia” seria pedir demais mesmo. Por um segundo, achei que ele fosse simplesmente me ignorar. Mas não. — Você faz o seu trabalho. Não mexe no que não foi pedido. Não faz perguntas. Não fala mais do que o necessário. Cada palavra saiu precisa. Calculada. Ensaiada. Como se ele já tivesse dito aquilo muitas vezes antes. Eu deixei um pequeno sorriso escapar. Mas não foi um sorriso gentil. — Relaxa. Também não gosto de gente que fala demais. Silêncio. Dessa vez, mais pesado. Os olhos dele prenderam nos meus. E, por algum motivo que eu ainda não sabia explicar… Eu não consegui desviar. Algo ali… não estava certo. Não era só frieza. Era mais fundo. Mais escuro. E, contra toda lógica, contra todo bom senso que eu deveria ter… Eu tive certeza de uma coisa naquele momento: Trabalhar naquela casa não seria simples. E, definitivamente… Aquele homem não era só difícil. Ele era quebrado. E o pior? Eu tinha a estranha sensação de que, de alguma forma… Aquilo ainda ia me atingir. Fundo demais. --- Se alguém me perguntasse como foi meu primeiro dia naquela casa, eu teria dificuldade em responder. Porque não aconteceu nada. E, ainda assim… parecia que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo. O silêncio era a pior parte. Não era o tipo de silêncio tranquilo, de quem está em paz. Era um silêncio pesado, quase sufocante, como se as paredes guardassem coisas que não deveriam estar ali. Eu comecei pela sala. Tudo já estava limpo. Impecável. Mesmo assim, passei o pano, organizei almofadas que já estavam perfeitamente alinhadas, ajustei objetos que claramente não precisavam de ajuste nenhum. Era ridículo. — Isso aqui não precisa de mim… — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. E talvez fosse exatamente esse o problema. Caminhei até a cozinha. Mesma coisa. Sem louça na pia. Sem bagunça. Sem sinais de uso. Abri um dos armários. Pratos organizados por tamanho. Copos alinhados por altura. Talheres separados com uma precisão quase obsessiva. Franzi o cenho. — Ou ele não vive aqui… ou tem algum problema. Fechei o armário com cuidado, como se qualquer som mais alto pudesse incomodar alguém. Ou alguma coisa. Balancei a cabeça, tentando afastar aquele pensamento. Ridículo. Passei para o corredor. Meus passos ecoavam levemente no chão, e aquilo me incomodava mais do que deveria. Era como se o som denunciasse minha presença em um lugar onde eu não pertencia. Olhei para as portas fechadas. Todas iguais. Todas silenciosas. Todas… estranhas. Evitei pensar demais e continuei trabalhando. Limpei o que não precisava ser limpo. Organizei o que já estava organizado. Passei horas tentando me convencer de que aquilo era só mais um trabalho. Mas não era. Porque, vez ou outra, eu sentia. A presença dele. Mesmo sem vê-lo. Como se ele estivesse sempre por perto. Observando. Aquilo me irritava. E, ao mesmo tempo… Me deixava alerta. Quando terminei, o sol já estava começando a baixar, tingindo a casa com uma luz alaranjada que, por alguns segundos, fez o lugar parecer quase… humano. Quase. Eu estava na sala, guardando os últimos produtos de limpeza, quando ouvi passos. Firmes. Calmos. Atrás de mim. Endireitei a postura antes mesmo de me virar. Dante. — Terminou? — Sim — respondi, simples, cruzando os braços logo depois. — Apesar de ainda achar que você não precisa de alguém aqui. Ele ignorou completamente meu comentário. Claro. — Venha. Eu soltei um suspiro baixo. — Você sempre fala assim? Tipo… como se estivesse dando ordens pra um robô? Ele já estava andando quando respondeu: — Está reclamando? Revirei os olhos, mesmo sabendo que ele não estava vendo. — Ainda não decidi. Segui atrás dele pelo corredor. O mesmo corredor silencioso. O mesmo desconforto. Ele parou em frente a uma das portas e a abriu. — Esse é o seu quarto. Eu congelei por um segundo. — Meu… quarto? Entrei devagar, olhando ao redor. Era… bonito. Mas, de novo, sem vida. Cama perfeitamente arrumada. Lençóis claros. Um guarda-roupa vazio. Uma janela grande com cortinas leves. Tudo no lugar. Tudo frio. Virei para ele. — Acho que teve um engano. Ele me encarou, impassível. — Não teve. Cruzei os braços. — No meu contrato não diz nada sobre eu morar aqui. — Agora diz. Eu soltei uma risada curta, sem humor nenhum. — Não, não diz. E eu não aceito mudanças assim do nada. Silêncio. Os olhos dele se fixaram nos meus, mais intensos agora. Mais duros. — Então não precisa mais vir. Simples. Direto. Como se fosse descartável. Como se eu fosse descartável. Meu maxilar travou. Por um segundo, tudo que eu queria era mandar ele se virar sozinho naquela casa perfeita e morta. Mas a realidade bateu rápido. Contas. Responsabilidades. A vida real não liga para orgulho. Respirei fundo, sentindo a irritação queimar por dentro. — Isso não estava no acordo — falei, mais baixa dessa vez, mas ainda firme. — Agora está. Eu odiava o jeito como ele falava. Sem emoção. Sem espaço. Sem negociação. Olhei ao redor do quarto mais uma vez. Depois para ele. E, por mais que aquilo me irritasse profundamente… Eu sabia que não tinha escolha. Soltei o ar devagar. — Tá. A palavra saiu seca. Pesada. — Eu fico. Nada mudou na expressão dele. Nada. Como se aquilo não fizesse diferença nenhuma. — Suas coisas chegam amanhã. Franzi a testa. — Minhas coisas? — Já providenciei. Eu pisquei, incrédula. — Você decidiu isso tudo sozinho? — Sim. Fechei os olhos por um segundo, tentando não explodir. — Você é sempre assim? Ele não respondeu de imediato. E, quando respondeu, a voz saiu ainda mais baixa. — Funciona. Abri os olhos. E, por algum motivo… Aquilo me deu mais arrepio do que deveria. Ele virou as costas e saiu do quarto, me deixando ali sozinha. De novo. Olhei ao redor. Para a cama. Para o silêncio. Para aquele lugar que, de repente, não era só um trabalho. Era onde eu ia viver. Engoli seco. — No que eu fui me meter… Mas, lá no fundo… Uma parte de mim já sabia. Aquilo não era só sobre um emprego. E definitivamente… Não era só sobre ele.A noite na casa de campo parecia irreal. Depois do jantar, ficamos sentados na varanda dos fundos, observando o lago refletir a luz da lua. O ar estava frio. Mas o cobertor sobre nossas pernas e o calor do corpo de Dante ao meu lado tornavam tudo confortável demais para que eu pensasse em qualquer outra coisa. O silêncio entre nós já não era pesado. Era íntimo. Seguro. Apoiei a cabeça em seu ombro enquanto ele acariciava distraidamente meus dedos. — Aqui é bonito — murmurei. Dante soltou um pequeno “hm”. — Isabella odiava este lugar. Meu corpo enrijeceu levemente antes que eu pudesse evitar. Dante percebeu imediatamente. Os dedos pararam sobre os meus. — Ei. Levantei o rosto para encará-lo. Os olhos escuros estavam atentos. Cuidadosos. — Não falei dela para te machucar. Forcei um sorriso pequeno. — Eu sei. Ele segurou meu rosto delicadamente. — Eu quero poder falar sobre ela sem que isso signifique perder você. Meu coração apertou. Porque aquilo era importante.
Por alguns segundos, tudo o que consegui fazer foi olhar para ele. Para o homem que eu amava. O homem que tinha me machucado. Mas que, pela primeira vez, estava ali sem fugir. Sem esconder o medo atrás de distância. Sem me afastar para se proteger. A chuva continuava caindo do lado de fora, suave contra os vidros do carro. Dante manteve a mão em meu rosto, acariciando minha pele com delicadeza. Como se ainda tivesse receio de que eu desaparecesse. Minha voz saiu baixa. Fragilizada. — Você partiu meu coração. A dor atravessou os olhos dele imediatamente. — Eu sei. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. — E eu odiei você por isso. Dante abaixou a cabeça por um instante, como se aquelas palavras fossem merecidas. Talvez fossem. Mas então ele voltou a me olhar. E havia tanta honestidade ali que meu peito apertou. — Eu me odiei também. O silêncio entre nós ficou pesado de emoção. Meu coração ainda doía. Mas, mesmo machucada, eu conseguia enxergar
A primeira sensação que tive ao abrir os olhos foi a de que alguém estava martelando dentro da minha cabeça. Soltei um gemido e puxei o travesseiro sobre o rosto. Ao meu lado, Lívia resmungou algo incompreensível e se virou na cama. Foi então que ouvi a campainha. Uma vez. Duas. Três. Longa e insistente. Fechei os olhos com força. — Se for um vendedor, eu juro que mato — murmurei. Lívia enterrou o rosto no travesseiro. — Você está mais perto da porta. — Odeio você. — Eu também te amo. Com um esforço monumental, saí da cama. O quarto girou levemente. Meu estômago protestou. Caminhei tropeçando pelo corredor, ainda vestindo a camiseta enorme de Lívia e com o cabelo em um estado lamentável. A campainha tocou outra vez. — Já vai! — gritei, irritada. Abri a porta. E congelei. Dante estava ali. Calça escura. Camisa social amarrotada, como se tivesse vestido a primeira que encontrou. Barba por fazer. Olheiras profundas. E uma expressão te
Eu não sei como consegui dirigir. Sinceramente. Tudo o que lembro é das lágrimas embaçando minha visão, das mãos apertando o volante com tanta força que meus dedos doíam e da sensação devastadora de que algo dentro de mim havia sido arrancado. O homem que, poucas horas antes, dizia me amar… Tinha me deixado ir. E o pior de tudo não era o fato de ele ainda amar Isabella. Eu sempre soube que ela fazia parte dele. O que me destruiu foi perceber que, no momento em que precisou escolher entre o medo e nós, Dante escolheu o medo. Escolheu a culpa. Escolheu o passado. E eu fiquei para trás. Quando estacionei em frente ao prédio de Lívia, minhas mãos tremiam tanto que precisei de alguns segundos para conseguir desligar o carro. Encostei a testa no volante. E chorei. Não um choro bonito, silencioso e controlado. Mas um choro doloroso, convulsivo, que parecia vir de um lugar profundo demais. O tipo de choro que faz o peito doer e o ar faltar. Peguei o celular c
Último capítulo