Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu demorei mais do que deveria para desfazer a minha bolsa.
Na verdade… eu nem desfiz direito. Deixei ela em cima da cama, fechada, como se aquilo fosse um lembrete silencioso de que eu ainda podia ir embora. Mesmo sabendo que não podia. Olhei ao redor do quarto mais uma vez. Tudo perfeito. Arrumado demais. Limpo demais. Frio demais. Passei a mão pelos lençóis — macios, sem uma única marca, como se ninguém nunca tivesse dormido ali antes. — Claro… — murmurei. — Nem o quarto escapa dessa obsessão. Caminhei até a janela e afastei levemente a cortina. Lá fora, a noite já tinha tomado conta de tudo. A propriedade era grande, mas… vazia. Sem vizinhos próximos. Sem movimento. Sem luzes ao redor. Só escuridão. E silêncio. Muito silêncio. Soltei o ar devagar, tentando ignorar a sensação estranha que começava a crescer dentro de mim. — Para com isso, Clara… — falei baixo. — É só uma casa. Mas não parecia. Deitei na cama sem trocar de roupa mesmo, olhando para o teto. Eu estava cansada. Mas meu corpo não relaxava. Era como se algo dentro de mim dissesse pra ficar alerta. Como se aquele lugar não fosse seguro. Ou… não fosse normal. Fechei os olhos. Silêncio. Abri de novo. Ainda silêncio. Virei de lado. Nada. Suspirei, irritada. — Ótimo. Não consigo nem dormir agora. Sentei na cama, passando a mão no rosto. Talvez água ajudasse. Ou qualquer coisa que me tirasse daquela sensação sufocante. Levantei e abri a porta do quarto devagar. O corredor estava escuro. Apenas uma luz fraca, vinda de algum ponto distante, quebrava a escuridão. Engoli seco. Ridículo. Era só um corredor. Comecei a andar. Meus passos eram baixos, mas ainda assim pareciam altos demais naquele silêncio absurdo. Passei pelas portas fechadas. Uma. Duas. Três. Todas iguais. Todas caladas. Cheguei até a escada e desci devagar. A casa à noite parecia… diferente. Mais fria. Mais vazia. Mais… viva. Balancei a cabeça, incomodada com o próprio pensamento. — Para de viajar. Fui até a cozinha, peguei um copo e abri a torneira. O som da água quebrando o silêncio foi quase um alívio. Quase. Levei o copo até os lábios— — Não consegue dormir? A voz dele atrás de mim fez meu corpo travar. Eu não ouvi passos. Não ouvi nada. Só… ele. Virei devagar. Dante estava encostado na entrada da cozinha, braços cruzados, me observando. A luz baixa desenhava sombras no rosto dele, deixando a expressão ainda mais fechada. Mais difícil de ler. Meu coração bateu mais forte por um segundo. Mas eu ignorei. — Você sempre aparece assim ou é só comigo? Ele não respondeu à provocação. Claro. — Eu poderia perguntar o mesmo. Revirei os olhos, tomando um gole de água. — Eu desci pra beber água, não pra investigar sua casa. Silêncio. Ele continuava me olhando. Fixamente. Aquilo começou a me incomodar. — Você não dorme? — perguntei, antes que pudesse me impedir. — Durmo. — Não parece. — Você também não. Toque. Direto. Soltei um pequeno sorriso, sem humor. — Não estou acostumada com casas que parecem cenário de filme de terror. Ele não reagiu. Mas algo no olhar dele mudou. — Se está com medo, pode ir embora. Frio. Simples. Como sempre. A irritação veio na hora. — Eu não estou com medo. Ele inclinou levemente a cabeça, analisando. — Não? Dei um passo à frente, sustentando o olhar. — Não. Silêncio. Pesado. Sufocante. Por um segundo, eu esqueci completamente de respirar. Porque havia algo ali. Algo que não era só implicância. Não era só provocação. Era… tensão. Crua. Direta. Perigosa. Eu fui a primeira a quebrar. — Boa noite, Dante. Passei por ele antes que ele respondesse. Subi as escadas mais rápido do que antes, sem olhar para trás. Mas eu senti. A presença dele. O olhar dele. Me seguindo. Entrei no quarto e fechei a porta, encostando as costas nela por alguns segundos. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três. Meu coração ainda estava acelerado. E eu odiava isso. Odiava o efeito que aquele homem tinha sem fazer absolutamente nada. Afastei da porta e voltei para a cama. Deitei. Fechei os olhos. E dessa vez… O silêncio não parecia tão vazio. Parecia carregado. Como se alguma coisa tivesse começado. E eu não tinha certeza se queria descobrir o que era. Mas uma coisa era certa: Aquilo não era só um trabalho. E eu já tinha ido longe demais para fingir que era. ... Eu tentei ignorar. Juro que tentei. Virei de um lado para o outro na cama, puxei o cobertor, depois afastei, fechei os olhos, respirei fundo… fiz tudo o que normalmente funcionava. Mas nada funcionava ali. Porque não era só insônia. Era aquele silêncio. Pesado. Grudando na pele. Entrando nos pensamentos. Abri os olhos de novo, encarando o teto perfeitamente branco. — Chega… — sussurrei, já irritada. Sentei na cama de uma vez, passando a mão no rosto. Meu coração não estava acelerado, mas também não estava calmo. Eu só… não conseguia relaxar. Peguei o celular em cima da mesa de cabeceira e fiquei alguns segundos olhando para a tela acesa. Uma única opção fazia sentido. Lívia. Nem pensei duas vezes. A ligação chamou. Uma vez. Duas. Três— — Clara? A voz dela saiu baixa, meio arrastada, claramente acordada à força. — Você viu que horas são? Soltei um suspiro, passando a mão pelo cabelo. — Eu sei… desculpa. — Se isso não for importante, eu juro que vou até aí pessoalmente te matar — murmurou ela, ainda sonolenta. Apesar de tudo, um pequeno sorriso escapou. — Eu não consigo dormir. Silêncio. Curto. Mas suficiente pra ela entender que não era só “não consigo dormir”. — O que aconteceu? Deitei de volta na cama, encarando o teto. — Eu vim pra casa nova do trabalho hoje. — Ah, é? E aí? Soltei o ar devagar. — É estranha. — Estranha tipo o quê? — agora ela já parecia mais acordada. Procurei palavras. E percebi que nenhuma parecia suficiente. — Vazia. — Ué… casa vazia não é novidade. — Não, Lívia… não é isso. Passei a mão na testa, tentando organizar a sensação. — É vazia de um jeito… errado. Silêncio do outro lado. — Explica isso melhor. — Tudo é perfeito demais. Organizado demais. Limpo demais. Não tem bagunça, não tem foto, não tem nada fora do lugar… parece que ninguém vive aqui. — E você tá morando aí? — Sim. — Desde quando? Hesitei. — Desde… hoje. Outro silêncio. Mais longo dessa vez. — Espera. Como assim “desde hoje”? Soltei um suspiro pesado. — Não estava no contrato. Ele simplesmente decidiu. — Ele quem? — Meu chefe. — Clara… Já reconheci o tom. Aquele tom. — Não começa. — Não, eu vou começar sim. Você acabou de me dizer que um homem que você mal conhece decidiu que você vai morar na casa dele, e você… aceitou? Fechei os olhos por um segundo. — Eu preciso do emprego. — E ele sabe disso. Direto. Como sempre. Apertei os lábios. — Ele é estranho. — Estranho nível “não fala com ninguém” ou estranho nível “vou aparecer no jornal”? Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver. — Engraçadinha. — Tô falando sério. Respirei fundo. — Ele é… frio. — Frio como? Pensei nele. Na forma como ele me olhava. Na forma como falava. Na ausência de qualquer emoção. — Como se nada importasse. Silêncio. — E você tá sozinha aí com ele? — Sim. — Clara… — Eu sei. — Não, você não sabe. Sentei na cama de novo, inquieta. — Eu consigo me cuidar. — Eu sei que consegue. Mas isso não significa que você deveria estar aí. Passei a mão pelo cabelo, frustrada. — Eu não tenho muita opção, Lívia. Do outro lado, ela suspirou. Pesado. — Ele fez alguma coisa? — Não. — Tem certeza? — Tenho. Pausa. — Mas…? Engoli seco. — Ele é estranho. — Você já disse isso. — Não, tipo… estranho mesmo. Minha voz saiu mais baixa sem que eu percebesse. — Eu nunca vi alguém tão… vazio. Silêncio. E dessa vez, nem ela respondeu de imediato. — E você tá com medo? — perguntou por fim. Eu abri a boca pra responder “não”. Mas a palavra não saiu. Porque não era exatamente medo. Era pior. — Eu não sei. A resposta saiu honesta demais. Do outro lado, ouvi ela se mexer, como se estivesse sentando. — Quer que eu vá aí? Soltei uma pequena risada, sem humor. — E fazer o quê? Bater na porta e falar “oi, vim buscar minha amiga”? — Se precisar, eu faço mesmo. E eu sabia que ela faria. Isso me fez sorrir de verdade dessa vez. — Tá tudo bem. Mentira. Mas uma mentira necessária. — Você tem certeza? Olhei ao redor do quarto. Para as paredes. Para o silêncio. Para aquele lugar que ainda não parecia meu. — Tenho. Pausa. — Mas se eu sumir, você já sabe por onde começar a procurar. — CLARA. Eu ri baixo. — Relaxa, foi brincadeira. — Não tem graça nenhuma. — Eu sei. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Mas, dessa vez… Não era aquele silêncio pesado. Era confortável. Familiar. — Me manda a localização depois — disse ela, firme. — Lívia— — Clara. Suspirei. — Tá bom. — E me liga amanhã. — Ligo. — Promete? Fechei os olhos. — Prometo. — Tá. Mais uma pausa. — Tenta dormir. Olhei para a cama. Depois para a porta. — Vou tentar. — E Clara… — Oi? — Se tiver qualquer coisa errada… você sai daí. Não pensa duas vezes. Meu peito apertou de leve. — Tá. Desliguei a ligação devagar. O quarto ficou em silêncio de novo. Mas, dessa vez… Não parecia tão sufocante. Apoiei o celular ao lado e me deitei. Respirei fundo. Uma vez. Duas. E, pela primeira vez desde que cheguei ali… Meus olhos começaram a pesar. Mas, antes de dormir, um pensamento ainda passou pela minha cabeça: E se a Lívia estivesse certa? E se eu realmente não devesse estar ali? … Afastei o pensamento. Mas ele não foi embora.






