Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não deveria ter ficado no quarto.
Mas fiquei. Não porque ele mandou. E definitivamente não porque eu obedecia. Mas porque… minha mão ainda doía. E, por mais que eu odiasse admitir, o jeito como ele disse aquilo — “volta pro quarto” — não soou só como ordem. Soou como… cuidado. Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. — Claro, Clara. Agora ele é atencioso também? Revirei os olhos sozinha, levantando da cama. Já tinha descansado o suficiente. Ou pelo menos o suficiente pra fingir que não estava pensando nele. Saí do quarto, descendo as escadas com mais firmeza dessa vez. Chega de parecer deslocada. Chega de parecer afetada. Cheguei na cozinha pronta pra voltar à rotina inútil de sempre… Mas parei. A bancada estava diferente. Tudo organizado. Mas não do jeito de sempre. Havia uma bandeja ali. Comida simples. Pão. Fruta. E um copo de suco. Franzi o cenho. Olhei ao redor. — Sério isso? Aproximei devagar, como se aquilo pudesse desaparecer. Não tinha mais ninguém ali. Peguei o copo, ainda desconfiada. — Ele fez isso? A ideia parecia absurda. Mas não tinha mais ninguém naquela casa. E eu definitivamente não tinha preparado aquilo. Soltei um pequeno suspiro. — Estranho… Mas, ainda assim… Sentei. E comi. Porque, independente de quem tivesse feito… Eu estava com fome. — O resto da manhã passou… diferente. Sutilmente diferente. Eu continuava trabalhando. Limpando o que não precisava. Organizando o que já estava organizado. Mas, dessa vez… Eu sentia. Mais do que antes. A presença dele. Não constante. Mas… próxima. Passei pelo corredor e senti. Olhei de relance— Uma porta se fechando. Caminhei pela sala— A sombra dele refletida no vidro, desaparecendo quando virei. Fui até a lavanderia— E tive a clara sensação de que alguém tinha estado ali segundos antes. Aquilo começou a me incomodar. Não pelo medo. Mas pela… atenção. Ele estava observando. Mais do que antes. Muito mais. — No início da tarde, eu estava na sala, organizando algumas revistas que claramente ninguém lia… Quando senti. De novo. Levantei o olhar. E lá estava ele. Encostado na entrada. Braços cruzados. Me observando. Direto. Sem desviar. Respirei fundo, já cansada disso. — Você pretende ficar só olhando o dia inteiro? Ele não respondeu de imediato. Claro. — Estou avaliando. Soltei uma risada curta. — Você fala isso como se eu fosse um objeto. — Ainda não decidi. Revirei os olhos. — De novo isso? Ele deu alguns passos para dentro da sala. Calmos. Controlados. Mas, dessa vez… Mais próximos. Meu corpo percebeu antes da minha mente. Endireitei a postura automaticamente. — Decidir o quê? Perguntei, firme. Ele parou a poucos passos de mim. Perto demais. De novo. — Se você se encaixa aqui. Franzi o cenho. — “Aqui” onde? Na casa ou na sua rotina esquisita? Os olhos dele fixaram nos meus. Intensos. — Nos dois. Silêncio. Pesado. Mas diferente de antes. Agora tinha algo ali. Algo que não era só frieza. Algo que eu ainda não sabia nomear. Cruzei os braços. — E você costuma testar todo mundo assim? — Não. — Então por que comigo? Pausa. Curta. Mas suficiente. — Porque você não age como os outros. Meu coração deu uma batida mais forte. Eu ignorei. — E isso é um problema? Ele me observou por mais alguns segundos. Como se estivesse decidindo o que dizer. Ou o que não dizer. — Ainda não sei. Respirei fundo, segurando a irritação. — Você fala isso como se eu tivesse que me provar pra você. — Não precisa. — Então para de agir como se precisasse. Silêncio. Denso. Mas… não desconfortável. Não como antes. Agora era tensão. Direta. Crua. E, pela primeira vez… Recíproca. Ele desviou o olhar antes de mim. Sutil. Mas eu percebi. E isso foi… estranho. Porque ele não parecia o tipo de pessoa que desviava. Ele deu um passo para trás. — Não mexa no armário do escritório. A mudança de assunto foi brusca. Direta. — Que escritório? — Porta no fim do corredor. Inclinei levemente a cabeça. — E por que não? Os olhos dele voltaram para mim. Mais fechados. Mais duros. — Porque eu estou dizendo. Suspirei. — Isso não é uma explicação. — É o suficiente. Claro que era. Para ele. Desviei o olhar, irritada. — Relaxa. Não tenho interesse em mexer nas suas coisas. Mentira. Agora eu tinha. E nós dois sabíamos. Ele me encarou por mais um segundo. Como se estivesse lendo exatamente isso. E talvez estivesse. Então ele virou. E saiu. De novo. Mas, dessa vez… Deixando algo no ar. Olhei na direção do corredor. Na direção da tal porta. “Não mexa no armário do escritório.” Soltei um pequeno suspiro. — Óbvio que eu vou mexer… Mas não agora. Ainda não. Porque uma coisa era certa: Dante estava diferente. Mais atento. Mais presente. Mais… perigoso. E, pela primeira vez… Eu tive a sensação de que não era só eu sendo observada. Eu também estava começando a enxergar ele. De verdade. Eu não deveria estar ali. E sabia disso desde o momento em que parei na frente da porta. Fim do corredor. A tal porta. O tal escritório. “Não mexa.” Soltei um suspiro baixo, cruzando os braços. — Claro… como se isso fosse me impedir. Olhei para os lados, mesmo sabendo que não tinha ninguém. Ou pelo menos… que não deveria ter. A casa estava silenciosa como sempre. Mas, dessa vez, o silêncio parecia… diferente. Como se estivesse esperando alguma coisa. Respirei fundo. E girei a maçaneta. Destrancada. — Sério? Empurrei a porta devagar. O ambiente era diferente do resto da casa. Ainda organizado. Ainda impecável. Mas… mais escuro. Mais carregado. A luz entrava pelas cortinas parcialmente fechadas, criando sombras pelo chão. Entrei devagar. Meus olhos passaram pelos móveis, pela mesa, pelas prateleiras… Até pararem no armário. Claro. Caminhei até ele. Meu coração começou a bater mais forte — não de medo. Mas de expectativa. Algo ali importava. Eu sentia isso. Levei a mão até a maçaneta. E então— — Eu disse para não entrar aqui. A voz dele veio baixa. Atrás de mim. Muito perto. Meu corpo travou. Mas não de susto. Dessa vez… não. Virei devagar. Dante estava ali. Parado. Olhos escuros fixos nos meus. Mas não parecia surpreso. Parecia… esperando. Inclinei levemente a cabeça. — E eu disse que não tinha interesse. Silêncio. Um passo. Ele se aproximou. Devagar. — E mentiu. Meu coração acelerou. Mas eu não recuei. — Talvez. Outro passo. Agora perto demais. De novo. Mas diferente de antes. Mais carregado. Mais… direto. — Você sempre desobedece? A voz dele saiu mais baixa. Mais próxima. Engoli seco, mas mantive o olhar. — Só quando me dão ordens sem sentido. Os olhos dele desceram por um segundo. Para minha boca. Subiram de novo. Aquilo fez meu estômago virar de leve. E eu odiei perceber. — Isso não é sem sentido. — Então explica. Silêncio. Pesado. Ele estava perto o suficiente para eu sentir a respiração dele. E, pela primeira vez… Eu não quis me afastar. — Nem tudo precisa ser explicado — disse ele. — Precisa sim. Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. Mais próxima. Mais… envolvida. Os segundos passaram devagar. Lentos. Carregados. E então— Ele levantou a mão. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Mas ele não me segurou. Não me afastou. Só… tocou meu braço. De leve. Os dedos deslizaram pela minha pele, subindo devagar até o meu pulso. O mesmo lugar de antes. Mas agora… Diferente. Muito diferente. Meu coração disparou. — Você deveria sair — murmurou ele. Mas não se afastou. Nem soltou. — E você deveria parar de falar como se mandasse em mim. Eu estava mais perto agora. Ou ele estava. Não fazia diferença. Porque a distância… Já não existia. Os olhos dele prenderam nos meus. Depois desceram. De novo. Mais devagar. Mais consciente. Minha respiração falhou. — Clara… Meu nome. Na voz dele. Baixa. Rouca. Perigosa. Aquilo fez algo dentro de mim apertar. E ao mesmo tempo… Acender. Levantei o olhar, encontrando o dele. — Você sempre chega tão perto assim das pessoas que você não quer por perto? Silêncio. Mas não um silêncio vazio. Era cheio. Denso. Quente. Ele se aproximou mais um centímetro. Só isso. Mas foi o suficiente. — Você não está indo embora. Não foi uma pergunta. Meu coração bateu mais forte. — Você também não está me mandando embora. O olhar dele mudou. Sutil. Mas mudou. E então— O som de algo caindo no andar de baixo. Nós dois travamos. Quebrando o momento. A realidade voltou de uma vez. Ele soltou meu pulso. Se afastou. Rápido. Como se nada tivesse acontecido. Mas tinha. E nós dois sabíamos. Ele desviou o olhar primeiro. — Fica aqui. — Não. Ele me encarou. — Clara— — Eu não vou ficar parada. Passei por ele antes que ele respondesse. Meu coração ainda acelerado. Minha cabeça confusa. E, pela primeira vez desde que cheguei naquela casa… O silêncio não era o que mais me incomodava. Era ele. E o efeito que ele estava começando a ter em mim. — Enquanto descia as escadas, só uma coisa passava pela minha cabeça: Aquilo tinha passado do limite. E, ao mesmo tempo… Ainda nem tinha começado.






