Mundo de ficçãoIniciar sessãoDescer as escadas ao lado de Dante, com o coração acelerado e a pele ainda marcada pelo toque dele, foi uma das experiências mais estranhas da minha vida.
Porque, por fora, nada tinha mudado. Ele continuava com a mesma expressão controlada. Os ombros retos. O olhar firme. Como se o momento que acabáramos de compartilhar no escritório tivesse sido apenas mais um detalhe sem importância. Mas eu sabia que não tinha sido. E, pela rigidez do maxilar dele, pela forma como evitava olhar diretamente para mim, eu tinha quase certeza de que ele também sabia. Chegamos à sala. Uma das janelas estava entreaberta e o vento derrubara um vaso pequeno da mesa lateral. Nada demais. Nada que justificasse o modo como meu coração ainda batia tão rápido. — Era só isso — murmurei, mais para mim mesma. Dante recolheu os cacos de vidro em silêncio, com movimentos precisos. Eu me abaixei para ajudá-lo. No exato momento em que nossas mãos se aproximaram, ele segurou meu pulso. Outra vez. A mesma firmeza. O mesmo calor. Levantei o olhar. — Eu cuido disso. A voz dele saiu baixa, controlada. Mas havia algo diferente ali. Algo mais suave. Sustentei o olhar por um segundo, sentindo o ar entre nós ficar pesado. — Eu sei pegar um pedaço de vidro, Dante. O canto da boca dele se moveu quase imperceptivelmente. Não chegou a ser um sorriso. Mas foi a coisa mais próxima disso que eu já tinha visto. — Já percebi que você acha que consegue fazer tudo sozinha. A frase me pegou desprevenida. Porque não soou como crítica. Soou como observação. E, de algum modo, como compreensão. Soltei meu pulso devagar. — E você acha que precisa carregar tudo sozinho. As palavras saíram antes que eu pudesse pensar. O movimento dele cessou. Por um breve instante, o silêncio voltou a ter peso. Não o peso desconfortável dos primeiros dias. Um peso diferente. Íntimo. Pessoal. Ele terminou de recolher os cacos e se levantou sem responder. Claro. Mas eu tinha aprendido que, com Dante, o silêncio muitas vezes dizia mais do que qualquer frase. --- O restante da tarde foi uma coreografia estranha. Nós nos cruzávamos no corredor. Na cozinha. Na sala. E, toda vez, havia aquela breve pausa. Um olhar. Uma tensão silenciosa. Como se ambos estivéssemos tentando entender o que fazer com aquilo que estava crescendo entre nós. Sem tocar no assunto. Sem tocar um no outro. Mas profundamente conscientes da presença do outro. --- No fim do dia, eu estava na cozinha preparando um café quando ouvi passos atrás de mim. — Lívia ligou. Virei imediatamente. Dante estava com meu celular na mão. Meu estômago afundou. — Você atendeu meu telefone? Ele estendeu o aparelho. — Estava tocando. Peguei o celular da mão dele, indignada. — Isso não significa que você pode atender. — Não atendi. Olhei para a tela. Uma chamada perdida. Respirei, um pouco aliviada. — Então por que pegou? Ele sustentou meu olhar. — Porque tocou três vezes e você não ouviu. Minha irritação diminuiu um pouco. Mas só um pouco. — Eu teria visto. — Não viu. Revirei os olhos, mas não consegui argumentar. Porque ele tinha razão. Mais uma vez. Suspirei. — Obrigada. A palavra saiu automática. E, como sempre, pareceu surpreendê-lo. Dante inclinou a cabeça levemente. — Você agradece com frequência. Franzi a testa. — Isso se chama educação. — Não é comum. A simplicidade com que ele disse aquilo fez algo apertar dentro de mim. Por um segundo, consegui enxergar, por trás da postura impecável e do controle rígido, um homem que claramente não estava acostumado com gentileza. Ou com cuidado. Baixei o olhar para o celular, tentando disfarçar a mudança no meu peito. — Talvez você esteja cercado pelas pessoas erradas. O silêncio que se seguiu foi curto. Mas carregado. Quando levantei os olhos novamente, Dante ainda me observava. Dessa vez de um jeito mais intenso. Mais vulnerável. Quase humano. Ele deu um passo à frente. Devagar. Sem desviar o olhar. Meu coração acelerou no mesmo instante. — E você? — a voz dele saiu mais baixa do que o normal. — Você é a pessoa errada? Minha respiração falhou por um segundo. Não pelo significado da pergunta. Mas pelo modo como ele a fez. Como se a resposta importasse. Como se importasse de verdade. Um sorriso pequeno surgiu nos meus lábios, involuntário. — Ainda não decidi. Por um momento, algo brilhou nos olhos dele. E então, pela primeira vez desde que cheguei naquela casa, Dante sorriu. Foi breve. Discreto. Mas real. E, de forma completamente irracional, aquilo me abalou mais do que qualquer toque. Ele baixou o olhar por um segundo, como se nem ele mesmo soubesse o que fazer com aquilo. Depois se afastou. — Seu café vai esfriar. Virou-se e saiu da cozinha. Fiquei parada no mesmo lugar, com o celular em uma mão e a xícara na outra. O coração batendo forte demais. E um sorriso insistente nos lábios. Porque, pela primeira vez… Dante não pareceu apenas um homem frio. Pareceu um homem tentando, ainda que sem saber como. E eu não sabia se isso tornava tudo mais fácil… Ou infinitamente mais perigoso. ... Naquela noite, eu demorei alguns segundos para perceber que estava sorrindo sozinha. Foi um sorriso discreto, quase bobo, que apareceu no momento em que me deitei e a imagem de Dante — o raro, breve e quase inacreditável sorriso dele — voltou à minha mente. Virei de lado, puxando o cobertor até a altura do queixo. — Isso é ridículo — murmurei para mim mesma. Porque era. Eu estava deitada em um quarto de uma casa estranha, pensando no sorriso de um homem que, até poucos dias atrás, mal parecia humano. E, ainda assim… Lá estava eu. Com o coração estranhamente leve. Fechei os olhos, mas o sono demorou a vir. Minha mente insistia em revisitar os pequenos detalhes dos últimos dias. O curativo na minha mão. O café da manhã que apareceu na cozinha sem explicações. O modo como ele me observava. O escritório. O quase. E agora… aquele sorriso. Eu soltei um suspiro, cobrindo o rosto com uma das mãos. — Clara, você precisa urgentemente de férias. Mas, no fundo, eu sabia. Não era apenas curiosidade. Nem simples atração. Era a sensação desconcertante de estar diante de alguém que se esforçava tanto para parecer intocável… e que, mesmo assim, deixava escapar pequenas rachaduras. E cada uma delas me puxava um pouco mais. --- Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. A primeira coisa que fiz foi olhar para a mão. O corte estava melhor. A segunda foi me pegar pensando se Dante já estaria acordado. Fechei os olhos por um segundo. — Isso não está acontecendo. Mas estava. Troquei de roupa e desci. O aroma de café me alcançou ainda no meio da escada. Quando entrei na cozinha, encontrei Dante de costas para mim, preparando algo no fogão. A cena foi tão inesperada que eu parei na entrada. Ele vestia uma camisa escura de mangas dobradas até os antebraços. O cabelo ainda estava levemente desalinhado, como se tivesse acabado de passar a mão por ele. Parecia… normal. Humano. Mais do que eu estava acostumada a ver. Como se sentisse minha presença, ele se virou. Os olhos escuros encontraram os meus. Por um breve segundo, nenhum de nós falou. Então ele desligou o fogo. — Bom dia. Eu pisquei. Uma vez. Duas. — Você acabou de me desejar bom dia? O canto da boca dele se curvou quase imperceptivelmente. — Não se acostume. Uma risada escapou antes que eu pudesse impedir. Aproximei-me da bancada. — Então foi real. Ele serviu café em uma xícara e a empurrou na minha direção. — Sua mão. Olhei para o curativo. — Está melhor. Dante assentiu com um movimento breve. — Ótimo. Peguei a xícara, sentindo o calor aquecer meus dedos. — Você cozinha? — O suficiente. Observei a frigideira no fogão. — Isso significa que eu estou prestes a comer algo ou a participar de um experimento científico? Dessa vez, o sorriso dele foi mais evidente. Rápido, mas impossível de ignorar. Meu coração fez aquela coisa irritante de novo. — Sente-se. Arqueei uma sobrancelha. — Você percebe que continua dando ordens até quando está sendo gentil? Ele apoiou as mãos na bancada. — Eu estou tentando. A resposta foi tão honesta que me deixou sem reação por um segundo. Meu olhar encontrou o dele. E algo mudou no ar. A leveza permaneceu, mas havia uma intimidade silenciosa ali, delicada e nova. Sentei-me sem discutir. Enquanto ele terminava o café da manhã, percebi algo que talvez fosse simples para qualquer outra pessoa. Mas não para Dante. Ele estava tentando. Do jeito dele. Desajeitado. Controlado. Quase imperceptível. Mas estava. E, por alguma razão, isso significava mais do que deveria. --- Mais tarde, enquanto eu organizava a lavanderia, meu celular vibrou no bolso. Lívia. Atendi no segundo toque. — Bom dia, sobrevivente — ela disse. Sorri automaticamente. — Ainda estou viva. — E aí? Seu chefe misterioso já apareceu vestido com uma capa preta? Olhei discretamente para a porta. — Não. Hoje ele apareceu fazendo café. Silêncio. — Espera. O quê? Ri baixo. — Pois é. — Clara… isso é muito suspeito. — Ou talvez ele esteja só sendo educado. — Você está defendendo ele. Franzi a testa. — Não estou. — Está sim. E isso me preocupa. Encostei na bancada, sorrindo sem perceber. — Você está exagerando. — E você está sorrindo, não está? Meu sorriso aumentou. — Talvez. Lívia soltou um som dramático. — Eu sabia. Você está perdida. — Não estou. Mas, quando desliguei, fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada do celular. Porque, pela primeira vez em muito tempo… Eu estava ansiosa para reencontrar alguém. E isso, por si só, já era perigoso. --- Naquela noite, ao cruzarmos no corredor, Dante parou. Eu também. Ele me observou por alguns segundos, como se estivesse escolhendo as palavras. — Sua amiga. Inclinei a cabeça. — Lívia? Ele assentiu. — Ela se preocupa com você. A surpresa me fez piscar. — Você ouviu? — Você fala alto ao telefone. Revirei os olhos. — E sim, ela se preocupa. Houve um breve silêncio. Então ele disse, em voz baixa: — Ela está certa. Meu coração apertou. — Sobre o quê? Dante sustentou meu olhar por alguns segundos longos demais. — Sobre você ter cuidado. O ar entre nós pareceu mudar. A intensidade voltou. Mais profunda. Mais sincera. Dei um passo na direção dele, sem pensar. — Eu sempre tenho. Os olhos dele baixaram até minha boca por um instante. Subiram de novo. — Nem sempre isso é suficiente. A frase saiu quase como um aviso. Mas, estranhamente, não soou como ameaça. Soou como medo. Meu peito apertou. E, pela primeira vez, tive a clara sensação de que Dante não estava tentando me afastar porque não queria que eu me aproximasse. Ele estava tentando me afastar porque tinha medo do que aconteceria se eu ficasse. E essa percepção… Só me fez querer ficar ainda mais.






