Capítulo 3

Eu não lembrava de ter dormido.

Só de ter fechado os olhos… e, em algum momento, simplesmente apagado.

Quando acordei, foi com a sensação estranha de não saber exatamente onde eu estava.

O teto branco.

Perfeito.

Sem nenhuma marca.

Sem história.

Levei alguns segundos até lembrar.

A casa.

Dante.

O quarto.

Soltei o ar devagar, passando a mão no rosto.

— Ótimo… não foi um pesadelo.

Sentei na cama, ainda meio grogue, olhando ao redor.

Tudo continuava exatamente igual.

Nenhuma mudança.

Nenhum sinal de vida.

Nem mesmo de que alguém mais estivesse ali.

Levantei devagar, esticando o corpo. Me aproximei da janela e abri a cortina.

A luz da manhã entrou de uma vez, iluminando o quarto.

Por alguns segundos, aquilo quase enganava.

Quase fazia parecer um lugar normal.

Quase.

Fui até o banheiro, lavei o rosto e me encarei no espelho.

— Você consegue — murmurei pra mim mesma. — É só um trabalho.

Mas nem eu parecia convencida.

Troquei de roupa com calma, escolhendo algo simples. Nada chamativo. Nada que desse margem pra comentários.

Respirei fundo antes de sair do quarto.

Abri a porta.

O corredor estava… igual.

Silencioso.

Imóvel.

Desci as escadas com passos leves, como se, de alguma forma, eu ainda estivesse invadindo um lugar que não me pertencia.

Cheguei na cozinha.

E parei.

Dante já estava lá.

Encostado na bancada, com uma xícara na mão.

Impecável, como sempre.

Como se já estivesse acordado há horas.

Como se não precisasse dormir.

Ele me olhou.

Direto.

Sem surpresa.

Como se já soubesse que eu desceria naquele momento.

Aquilo me incomodou.

— Bom dia — falei, mais por educação do que por vontade.

Silêncio.

Ele tomou um gole do café antes de responder:

— Está atrasada.

Eu pisquei, irritada na hora.

— De novo com isso?

Ele apoiou a xícara na bancada, sem pressa.

— Aqui, o dia começa cedo.

Cruzei os braços.

— E em nenhum momento você achou que seria uma boa ideia avisar isso antes?

Ele não respondeu.

Claro.

Revirei os olhos, indo até a pia.

— Você sempre acorda nesse horário ou é só pra implicar comigo?

— Sempre.

Direto.

Sem emoção.

Peguei um copo, abri a torneira.

— Deve ser divertido viver assim.

— Funciona.

A mesma palavra da noite anterior.

Aquilo me fez parar por um segundo.

Virei levemente o rosto, olhando pra ele de lado.

— Funciona… pra quê?

Silêncio.

Ele me encarou.

Mas não respondeu.

Desviei o olhar primeiro.

Peguei o copo de água e bebi, tentando ignorar a sensação estranha de que eu tinha tocado em algo que não devia.

— O que eu faço hoje? — perguntei, mudando de assunto.

— O mesmo de ontem.

Soltei uma risada curta.

— Limpar o que já está limpo?

— Manter.

Suspirei.

— Você tem noção de que isso é completamente desnecessário, né?

— Não.

— Claro que não.

Silêncio de novo.

Mas dessa vez… diferente.

Menos pesado.

Ou talvez eu estivesse começando a me acostumar.

O que não era um bom sinal.

Deixei o copo na pia e comecei a me movimentar pela cozinha, pegando um pano, organizando coisas que claramente não precisavam ser organizadas.

Mas, ainda assim, fazendo.

Porque ficar parada ali… com ele… era pior.

Senti o olhar dele em mim.

Não direto.

Mas constante.

Como se estivesse observando cada movimento.

Aquilo começou a me irritar.

Virei de uma vez.

— Você sempre fica olhando assim?

Ele não desviou.

— Assim como?

— Como se estivesse analisando tudo.

— Estou.

Direto.

De novo.

Respirei fundo, controlando a vontade de responder à altura.

— Tem alguma coisa errada?

— Ainda não sei.

Aquilo me fez travar por um segundo.

— Ainda?

— Sim.

Apertei o pano na mão, tentando não reagir.

— Ótimo. Quando descobrir, me avisa.

Voltei a limpar a bancada com mais força do que o necessário.

Silêncio.

Passos.

Quando percebi, ele já estava saindo da cozinha.

— Dante.

Não pensei. Só chamei.

Ele parou.

Não virou.

Respirei fundo.

— Você sempre trata todo mundo assim… ou eu sou especial?

Alguns segundos de silêncio.

Então ele virou levemente o rosto, só o suficiente para me olhar de lado.

— Você ainda está aqui.

Meu coração deu uma batida mais forte, sem motivo.

Ou com motivo demais.

Franzi o cenho.

— Isso responde o quê exatamente?

Ele me encarou por mais um segundo.

E então:

— Ainda não decidi.

Virou de costas e saiu.

Fiquei parada.

Com o pano na mão.

Sem me mexer.

— Idiota… — murmurei, mas sem força nenhuma.

Voltei a limpar a bancada.

Mas minha mente já não estava mais ali.

“Você ainda está aqui.”

“Não decidi.”

Apertei os lábios.

— E você acha que eu vou ficar esperando você decidir alguma coisa?

Mas, lá no fundo…

Uma parte de mim já sabia.

Aquilo não era tão simples.

E, de alguma forma que eu ainda não entendia…

Eu também estava observando ele.

...

Eu tentei me manter ocupada o máximo possível.

Qualquer coisa era melhor do que ficar pensando nele.

Ou pior… percebendo ele.

Comecei pela sala de novo, passando pano em superfícies que já estavam impecáveis. Depois fui para o corredor, ajustando detalhes invisíveis, como se aquilo justificasse minha presença ali.

Mas, no fundo, eu sabia.

Eu não estava trabalhando.

Eu estava tentando ignorar.

Ignorar o jeito como aquela casa parecia observar cada movimento meu.

Ignorar o silêncio.

Ignorar ele.

Suspirei, indo até a cozinha.

Talvez organizar alguma coisa ali ajudasse.

Abri um dos armários mais altos, ficando na ponta dos pés para alcançar algumas caixas.

— Claro… tudo no lugar mais alto possível — murmurei.

Estiquei mais o braço, tentando puxar uma das caixas de vidro.

Ela deslizou fácil demais.

Rápido demais.

— Droga—

A caixa escapou dos meus dedos.

Instinto.

Eu tentei segurar.

Péssima ideia.

O vidro bateu na quina da bancada e se partiu em um som seco, alto demais para aquele silêncio constante.

E então—

Ardeu.

Forte.

Imediato.

Puxei a mão de volta com um reflexo rápido, o ar preso na garganta.

— Ah—

Olhei para os dedos.

Um corte fino, mas profundo o suficiente para o sangue aparecer quase na mesma hora.

— Ótimo… — sussurrei, apertando a mão.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa—

— O que aconteceu?

A voz dele veio rápida.

Diferente.

Mais firme.

Mais… presente.

Quando levantei o olhar, Dante já estava na cozinha.

E dessa vez… ele não parecia distante.

Os olhos dele foram direto para a minha mão.

E a expressão mudou.

Sutil.

Mas mudou.

Ele se aproximou.

Rápido demais.

Parei automaticamente quando ele segurou meu pulso.

Firme.

Quente.

Meu corpo travou.

— Fica parada — disse ele, baixo.

Eu ia responder.

Ia dizer que não precisava.

Mas… não saiu.

Porque o toque dele—

Era diferente.

Não era brusco.

Mas também não era gentil.

Era preciso.

Como tudo nele.

Ele virou minha mão levemente, analisando o corte.

O cenho se franziu.

— Foi descuido.

Revirei os olhos, mesmo com o coração batendo estranho.

— Obrigada pela análise.

Ele ignorou.

Claro.

Me puxou levemente em direção à pia, abrindo a torneira.

A água fria bateu no corte, fazendo eu prender a respiração.

— Fica quieta — murmurou.

— Eu não estou falando—

— Está reclamando.

Apertei os lábios.

Mas calei.

Porque, de alguma forma…

Aquilo parecia sério pra ele.

Ele pegou um pano limpo, pressionando contra o corte.

E foi aí que eu percebi.

A proximidade.

De verdade.

Ele estava perto demais.

Muito mais do que em qualquer outro momento.

O cheiro dele.

A respiração calma.

O foco absoluto no que estava fazendo.

Como se nada mais existisse.

Levantei o olhar.

E encontrei o dele.

Por um segundo—

Ele também não desviou.

O tempo pareceu travar.

Meu coração acelerou sem pedir permissão.

E eu odiei isso.

Odiei a forma como meu corpo reagia a alguém como ele.

Alguém que claramente não sentia nada.

— Pronto.

A voz dele quebrou o momento.

Ele soltou minha mão.

O contato desapareceu.

Rápido.

Frio.

Como se nunca tivesse existido.

Piscar.

E acabou.

— Não encosta em nada agora.

Voltei à realidade, piscando algumas vezes.

— Eu sei me cuidar.

— Não parece.

Olhei pra ele, irritada.

— Foi um acidente.

— Evitável.

Cruzei os braços automaticamente.

— Você sempre precisa ter razão?

— Sim.

Soltei uma risada seca.

— Claro que precisa.

Silêncio.

Mas dessa vez…

Não era o mesmo silêncio.

Algo tinha mudado.

Sutil.

Mas perceptível.

Olhei para o curativo improvisado na minha mão.

Depois para ele.

— Obrigada.

A palavra saiu antes que eu pudesse impedir.

Ele me encarou.

Como se aquilo fosse inesperado.

Como se… não estivesse acostumado.

Mas não respondeu.

Claro.

Ele nunca respondia.

Respirei fundo, desviando o olhar.

— Eu vou terminar o resto.

— Não.

Franzi o cenho.

— Como assim “não”?

— Você vai descansar.

— Eu estou bem.

— Não é uma sugestão.

Lá veio.

O tom.

A ordem.

Levantei o olhar devagar.

— Você gosta de mandar, né?

Ele me encarou.

Sem expressão.

— Funciona.

Apertei os lábios.

— Você precisa aprender que nem tudo funciona do seu jeito.

Silêncio.

Mais um daqueles olhares.

Intensos.

Pesados.

E, ainda assim…

Diferentes.

— Volta pro quarto, Clara.

Meu nome.

Na voz dele.

Baixa.

Controlada.

Mas… diferente.

Senti algo estranho no peito.

Irritante.

Inexplicável.

Virei as costas antes que aquilo crescesse.

— Eu vou porque eu quero. Não porque você mandou.

Mas, no fundo…

Eu sabia.

Aquilo não era mais só implicância.

Algo tinha mudado.

E o pior?

Eu não tinha certeza se queria que voltasse ao que era antes.

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