O despertador tocou às oito da manhã.
Olhei para aquela merda piscando do meu criado-mudo e pensei seriamente em quebrá-lo contra a parede. Quem diabos acorda às oito? Eu costumava ir dormir às sete. Revirei na cama, o gosto de uísque ainda na boca, o corpo pesado de ressaca e marcas de batom pelo peito. A loira e a morena da noite anterior ainda estavam largadas no chão da sala, e eu podia ouvir o ronco de uma delas. — Filha da puta, velho… — murmurei, lembrando da ordem de ontem. Meu pai nunca voltava atrás quando tomava uma decisão. Se ele disse que eu ia trabalhar, então eu ia trabalhar. Ou perderia tudo. Levantei devagar, tomei um banho rápido para tirar o cheiro do álcool da meu corpo. Peguei a primeira calça jeans jogada no chão, uma camisa preta meio amassada e óculos escuros. Não ia colocar terno nem fodendo. Peguei minha BMW preta e fui em direção ao inferno. O prédio da empresa era um monstro de vidro espelhado que refletia o sol da manhã. Executivos engravatados passavam apressados, cada um com seu copo de café caro na mão. Eu estacionei meu Mustang bem na frente, ignorando as vagas de visitantes, e joguei a chave no bolso. Atravessei o saguão como se fosse dono do lugar. E, de certa forma, eu era. Só que dessa vez não estava ali como herdeiro, e sim como “funcionário novo”. Uma piada. Foi aí que a vi. Atrás do balcão de recepção, com o cabelo preso num coque apertado, óculos de armação fina e uma camisa social azul que parecia certinha demais pra ser de verdade. Ela digitava alguma coisa no computador, focada, sem dar a mínima para o caos ao redor. Me aproximei, batendo o cartão de identificação na bancada. — Bom dia, princesa. Onde é que fica o inferno dos novatos? Ela levantou os olhos. Não se assustou, não sorriu. Só me encarou. — Terceiro andar. RH. Arqueei a sobrancelha. — Só isso? Nem um “seja bem-vindo”, nem um sorriso de incentivo? Tá faltando carisma nesse balcão. Ela piscou devagar, impassível. — Eu não sou animadora de circo. Sou recepcionista. Sorri de canto. — E uma recepcionista mal-humorada. Interessante. — Ou talvez você só não seja tão especial quanto acha. — rebateu, voltando a digitar. O golpe foi direto. Se fosse qualquer outra, estaria vermelha de vergonha ou tentando me agradar. Mas não ela. Encostei os cotovelos no balcão, inclinando o rosto perto do dela. — Você sempre fala assim com todo mundo, ou só comigo porque não sabe quem eu sou? Ela ergueu os olhos de novo, séria. — Não me importa quem você é. Pela primeira vez em muito tempo, eu fiquei sem resposta imediata. E isso me fez rir. — Você vai ser divertida. Ela não respondeu. E talvez tenha sido exatamente isso que me deixou ainda mais interessado. No elevador, dois executivos cochichavam enquanto olhavam pra mim. Um deles cutucou o outro e sussurrou algo sobre “o filho do Moretti”. Dei um sorriso preguiçoso e mostrei o dedo do meio. Os dois arregalaram os olhos e olharam pro chão. No terceiro andar, uma mulher de terninho rosa me esperava, segurando uma prancheta. — Você deve ser o Dante. — disse, forçando um sorriso. — Seja bem-vindo ao time! Revirei os olhos. — Time? Que time? Isso aqui não é porra de futebol. Ela riu nervosa. — Certo… vou te apresentar ao setor. Você vai começar no arquivo. — Arquivo? — repeti, incrédulo. — Quer que eu brinque de empilhar papel? — É parte do processo. — disse firme, tentando manter a postura. — Todos começam de baixo. Eu ri alto, chamando a atenção de uns dez funcionários. — Todos? — apontei ao redor. — Não me parece que esses engravatados começaram carregando caixas. — Você não é todos. — a voz do meu pai soou atrás de mim. Virei rápido e lá estava ele, parado como uma sombra, cercado de dois seguranças. Como sempre. — Eu disse cargo baixo. Se não está satisfeito, pode ir embora. Sem sobrenome, sem dinheiro. — os olhos dele brilhavam com aquela satisfação sádica de quem tinha o controle. Mordi a língua. Ele tinha vencido aquela rodada. — Ótimo. — respondi, forçando um sorriso. — Vou brincar de empilhar papel. Mas aviso logo: não vai durar muito até eu transformar essa porra num circo. Ele se aproximou, me encarando de perto. — Só tente não destruir tudo no primeiro dia. Passei o resto da manhã em um porão abafado, cercado de caixas cheias de pastas. Arquivos, contratos, papelada sem fim. Eu odiava cada segundo. Mas, no fundo, não conseguia parar de pensar nela. A recepcionista. Eu ainda não sabia o nome dela, mas já sabia uma coisa: aquela garota tinha acabado de se tornar a distração que eu precisava. E eu ia arrancar cada sorriso dela, nem que fosse à força.