O porão do arquivo parecia engolir qualquer sinal de vida. O ar era abafado, denso, com cheiro de papel velho misturado à tinta de impressora e café esquecido em copos descartáveis. As pilhas de pastas se erguiam como muralhas, formando corredores estreitos que lembravam um labirinto de claustrofobia. O tipo de lugar capaz de entediar até o mais paciente dos mortais.
Mas eu, Dante Moretti, filho do CEO mafioso, nunca fui paciente. Equilibrei uma pilha de arquivos nos braços, e o peso me fez revirar os olhos. — Ótimo… pastas. — murmurei, arrastando as palavras como se fossem uma sentença. — Nada como começar no fundo do poço. Foi então que Isabella surgiu no corredor, caminhando com a calma meticulosa de quem nunca perde o ritmo. Tablet em mãos, postura ereta, olhar calculado. Era o tipo de presença que fazia o ambiente parecer ainda mais organizado do que realmente era. — Dante, os arquivos precisam estar em ordem de protocolo. Não é só empilhar. — disse, sem alterar o tom, firme como sempre. — Organizar? — arqueei a sobrancelha, deixando escapar um meio sorriso debochado. — E depois? Quer que eu toque flauta e recite poesia também? Ela ergueu os olhos do tablet e me encarou com aquela expressão neutra, mas carregada de uma paciência que já beirava o limite. — Não é difícil. Só requer atenção. — Atenção… — repeti em voz arrastada, abrindo os braços como se fosse um profeta pregando no deserto. — Então estou ferrado. Ela bufou, mínima reação, mas suficiente para me arrancar um sorriso de canto. Voltou a digitar no tablet, porém não sem antes lançar um olhar rápido, daqueles que atravessam qualquer defesa. — Precisa de ajuda? — provoquei, como quem cutuca uma fera com vara curta. — Se precisar, eu aviso. — retrucou, sem mover o rosto para mim. Sorri. Essa garota tinha nervos de aço. E quanto mais ela erguia muros, mais eu queria derrubá-los. Enquanto arrumava, a monotonia do arquivo foi quebrada por passos apressados. Um sujeito baixo, de óculos escorregando no nariz, surgiu aflito. — Ei, Dante, cuidado com essas caixas. Algumas são documentos sigilosos. Balancei a pilha de pastas no ar, como se fossem plumas. — Relaxa. — dei um meio sorriso. — Sou forte. Ele ajustou os óculos, desconfiado. — Só não derrube nada, por favor. — Pode deixar. — respondi, já atravessando o corredor. Claro que, sendo eu, tropecei numa beirada de caixa e quase derrubei tudo. — Droga! — murmurei, conseguindo equilibrar a pilha no último segundo. Foi nesse instante que Isabella surgiu atrás de mim. Braços cruzados, expressão pétrea, quase uma estátua viva. — Eu disse que atenção era importante, lembra? — Lembro… mas algumas coisas são mais divertidas quando quase dão errado. Ela respirou fundo, tentando esconder o traço de um sorriso. — Dante… você é impossível. — Impossível é só mais uma das minhas qualidades. — cruzei os braços e deixei meu olhar escorregar pelo rosto dela, só de relance, apenas para provocar. Pouco depois, a voz estridente da gerente de logística ecoou pelo arquivo. — Dante! Preciso que organize essas pastas com urgência! Suspirei, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Urgência? Tá de brincadeira comigo… — Não. — a resposta foi seca, cortante. — São documentos para a reunião da diretoria. Fiz cara de mártir, mas estampei meu melhor sorriso de fachada. — Beleza. Vou dar um jeito. Ao atravessar o corredor com o fardo, percebi Isabella me observando. Os olhos dela eram inquisitivos, mas havia um brilho escondido que ela tentava disfarçar. — Você é mesmo como dizem… complicado. — disse, com calma. — Mas não totalmente inútil. Sorri, inclinado na direção dela. — Então, já mudou de ideia sobre mim? Ela bufou, desviando o olhar, mas não conseguiu esconder a sombra de um riso. — Não me iluda. Ainda estou te observando. E foi nessa troca rápida, quase imperceptível, que percebi que aquele jogo começava a ficar interessante. A tarde não me deu trégua. Enquanto tentava organizar a pilha amaldiçoada, uma caixa pesada despencou de uma prateleira, roçando meu braço antes de atingir o chão. O impacto reverberou pelo porão, e a dor ardida percorreu minha mão. — Merda! — soltei, esfregando a manga da camisa contra a pele dolorida. Isabella correu até mim, pela primeira vez deixando a compostura de lado. O rosto dela trazia algo próximo de preocupação. — Você está bem? Endireitei a postura, mesmo com a mão latejando. — Nunca estive melhor. — respondi com aquele sorriso torto, mais orgulho que verdade. Ela estreitou os olhos, percebendo o blefe. — Dante… cuidado. Aqui não é lugar para provar que tem reflexos de luta. — Reflexos de luta… — repeti, rindo baixo. — Você acha mesmo que vou passar despercebido? Ela suspirou, balançando a cabeça, murmurando algo sobre “filho de CEO problemático”. Mas a forma como desviou o olhar denunciava: eu tinha arrancado dela mais do que um sermão. No fim do expediente, eu estava exausto. Suado, com cheiro de poeira e tinta impregnado na pele. Mas ainda assim, meu olhar seguia Isabella. Ela estava junto ao balcão, empilhando pastas e digitando relatórios, impecável até na monotonia. Apoiei os cotovelos no balcão e deixei a voz sair carregada de ironia, mas também de algo mais sincero. — Sabe, Isabella… você não é só certinha, né? Ela ergueu uma sobrancelha, sem parar o que fazia. — E o que exatamente você quer dizer com isso? — Quero dizer que você é… resistente. — dei de ombros, sorrindo de canto. — E eu gosto disso. Por um instante, ela me encarou. E naquele silêncio breve, quase perigoso, vi algo diferente no olhar dela. Algo que não era só disciplina. — Gosto de pensar que não sou previsível. — respondeu, voltando a arrumar os papéis. — Perfeito. — murmurei, baixo, apenas para ela ouvir. — Isso torna meu trabalho muito mais divertido. E ali, naquele porão empoeirado, tive a certeza: Isabella ia mudar meu dia. E, de um jeito ou de outro, eu ia mudar o dela.