Mulher nenhuma nunca disse não pra mim. Carros, festas, drogas, socos, tudo isso eu já tive demais. O problema é que nada nunca foi o suficiente. A adrenalina some rápido, e eu sempre acabo voltando ao mesmo ponto: vazio, entediado, procurando mais uma desculpa pra me foder ou foder alguém.
Meu nome é Dante Moretti, filho único do CEO de um império bilionário que cobre desde hotéis de luxo até importação e exportação de… bem, coisas que não dá pra declarar na Receita. Pra muitos, meu pai é um empresário exemplar. Pra quem realmente conhece, ele é um filho da puta mafioso. E eu cresci nesse mundo, com sangue nos punhos antes dos quinze e cheiro de pólvora antes dos dezoito. Hoje, eu tenho vinte e quatro e continuo o mesmo desgraçado que todos esperavam que eu fosse: arrogante, rico e sem propósito. O baixo da música fazia o vidro da cobertura tremer. O apartamento parecia um inferno caro: luzes de LED vermelhas, cheiro de cigarro misturado a perfume barato e corpos dançando como se não houvesse amanhã. Garrafas quebradas pelo chão, colchões improvisados em um canto, gente chapada rindo sem motivo. Eu estava no meio de tudo aquilo, deitado no sofá de couro com duas mulheres no colo. Uma loira chupava meu pescoço como se fosse encontrar ouro ali, enquanto a outra, morena, ria bêbada, tentando enfiar outra dose de tequila na minha boca. — Devagar, gatinha, eu gosto de perder o controle, mas não gosto de babaca tentando me matar de álcool. — Falei, afastando o copo com a mão. A morena fez biquinho. — Você é impossível, Dante. — Eu sou muitas coisas. — Dei um sorriso cínico, puxando a loira pela cintura. — Mas impossível é só uma das minhas qualidades. Todos riram. Sempre riam. Eu nunca precisei de esforço pra ser o centro das atenções. Dinheiro, rosto bonito e sobrenome perigoso fazem esse trabalho por mim. Só que no fundo, eu estava entediado. Aquilo já não me dava mais a mesma adrenalina. Um cara mais ousado, um babaca magrelo de camiseta cara, decidiu puxar assunto. — Ei, Dante, ouvi falar que você ganhou a corrida ontem. Quebrou o carro do Valentim no meio da pista, foi? Sorri de lado, lembrando do barulho do metal batendo e do sangue escorrendo na boca do Valentim quando o tirei do carro. — Quebrei sim. O carro dele e alguns dentes. A galera explodiu em risadas. Eu adorava o som disso, mas sabia que não era riso de amizade. Era de medo. Ninguém ali ousaria me desafiar. Foi então que a porta do elevador abriu. O silêncio caiu como um tiro. Meu pai entrou, impecável no terno escuro, dois brutamontes atrás dele. O homem tinha a aura de alguém que podia matar com um olhar. E, de certa forma, podia mesmo. — Todo mundo fora. Agora. Não precisou repetir. As meninas levantaram correndo, tropeçando nos saltos, alguns caras quase se atropelaram tentando sair. O som foi desligado. Em menos de dois minutos, a cobertura estava vazia. Só eu, meu pai, e o gosto de merda que aquela cena sempre deixava. — Porra, pai. Estragou minha festa. — Resmunguei, me jogando de novo no sofá, como se não desse a mínima. Ele caminhou até mim devagar. Cada passo pesado, controlado. — Você me envergonha, Dante. — A voz dele era baixa, mas cortante. — Um Moretti não é conhecido por desperdiçar a vida assim. Revirei os olhos. — Relaxa. Eu tô só aproveitando o que o seu dinheiro paga. Não é pra isso que serve nascer em berço de ouro? O soco veio rápido. Minha cabeça girou e o gosto de ferro invadiu minha boca. Cuspi sangue no chão e ri. — Belo jeito de mostrar amor paternal. Ele não riu. Nunca ria. — Você é um merda. — Disso a gente concorda. — Passei a língua no corte da boca e ergui o queixo. — Mas sou o seu merda favorito. Meu pai se inclinou sobre mim, os olhos duros. — Sabe por que ainda não cortei você da herança? — Vai me dizer que é amor de pai? — retruquei, sarcástico. Ele me segurou pelo colarinho e puxou pra frente. — Porque eu ainda tenho esperança de que você seja mais do que um vagabundo. Empurrei sua mão, ajeitando o colarinho. — Essa esperança vai te matar, velho. O soco seguinte quase me fez cair do sofá, mas eu continuei rindo. Rir era a única arma que eu tinha contra ele. — Amanhã. — Ele disse, firme. — Você vai começar a trabalhar em uma das minhas empresas. Cargo baixo. Sem privilégios. Vai bater ponto, obedecer ordens e aprender o que significa ser um homem. — Trabalhar? — ri alto, debochado. — Eu? Com aquela cambada de otários engravatados? Prefiro morrer. Ele se virou para sair, mas antes de entrar no elevador, parou. — Então morra. Mas se não provar que merece, não vai sobrar nada pra você. Nem o sobrenome. As portas se fecharam, e o silêncio voltou. Encostei a cabeça no sofá, o sangue ainda escorrendo do canto da boca, e sorri. Não porque estava feliz. Mas porque sabia que, do jeito que ele me conhecia, isso ia dar merda. Ele queria me ver obediente? Ia se decepcionar.