Capítulo 4

O vento do porto parecia mais frio conforme nos aproximávamos das docas.

Eu caminhava ao lado de Conrad enquanto nossos homens se espalhavam atrás de nós em silêncio. O concreto estava úmido e irregular sob os nossos passos, e cada som parecia ecoar um pouco demais naquele lugar vazio. À distância, as luzes fracas dos postes iluminavam apenas pedaços das docas, deixando grandes áreas mergulhadas na escuridão.

Era um cenário perfeito para problemas.

O Porto Velho sempre foi um lugar de sombras. Durante o dia ele já parecia abandonado em muitos pontos, mas à noite a sensação era ainda mais intensa. Contêineres empilhados formavam corredores estreitos, guindastes gigantes permaneciam imóveis como monstros adormecidos, e o mar batia contra o concreto com um som baixo e constante.

Eu sentia aquilo no ar.

Algo não estava certo.

— Você também está sentindo isso? — murmurou Conrad ao meu lado.

— Estou.

Ele não precisou perguntar o que era.

Conrad e eu crescemos no mesmo mundo. Aprendemos cedo a reconhecer quando uma situação parecia tranquila demais para ser real.

Seguimos caminhando até alcançar a área das docas três e quatro.

Foi então que eu os vi.

Homens espalhados perto de alguns caminhões estacionados e contêineres abertos. Alguns estavam encostados nas portas metálicas, outros fumavam, e dois conversavam perto de uma empilhadeira abandonada.

Quinze homens.

Exatamente o número que Conrad tinha mencionado.

Um deles nos viu primeiro.

Ele endireitou o corpo lentamente e apagou o cigarro no chão com a ponta do sapato. Os outros começaram a perceber nossa presença logo depois.

O silêncio caiu sobre o lugar.

Paramos a poucos metros deles.

Por alguns segundos ninguém falou nada.

O homem que parecia ser o líder deu um passo à frente. Ele era alto, com ombros largos e barba mal feita. Eu o reconheci imediatamente.

— Russo — falei.

Ele sorriu de lado.

— Sinclair.

Russo trabalhava para os Moretti havia anos. Era o tipo de sujeito que gostava de resolver as coisas com violência antes de qualquer conversa.

— Achei que esse lugar ainda era território seu — disse ele.

— Ainda é.

Ele abriu os braços levemente, apontando para os caminhões ao redor.

— Engraçado. Não parece.

Eu dei alguns passos à frente.

Conrad permaneceu ao meu lado.

— Você sabe como isso funciona — falei. — Esse porto pertence à minha família.

Russo inclinou a cabeça.

— Talvez não por muito mais tempo.

Atrás dele alguns homens começaram a se mover discretamente, ajustando as posições.

Eu percebi.

Conrad também.

— Se os Moretti querem discutir território — falei calmamente — eles sabem onde me encontrar.

Russo soltou uma pequena risada.

— Ah, mas não são só os Moretti interessados nisso.

Eu já sabia a resposta antes mesmo de ele terminar.

— Kovalenko — murmurei.

— Exato.

Conrad cruzou os braços.

— Interessante — disse ele. — Vocês finalmente decidiram trabalhar juntos?

Russo deu de ombros.

— Negócios fazem alianças curiosas.

O vento passou entre os contêineres com um assobio baixo.

Algo dentro de mim ficou ainda mais alerta.

— Então me diga uma coisa — falei. — vocês realmente acharam que poderiam simplesmente aparecer aqui e ficar?

Russo deu mais um passo à frente.

— Achamos que você viria pessoalmente resolver isso.

Eu estreitei o olhar.

— Então isso era um convite?

Ele sorriu.

— Algo assim.

Por um segundo tudo ficou completamente quieto.

Então eu ouvi.

Um som metálico.

Muito leve.

Atrás de nós.

Me virei rapidamente, mas foi tarde demais.

Sombras começaram a surgir entre os contêineres.

Primeiro uma.

Depois duas.

Depois várias.

Homens.

Armados.

Muitos homens.

Muito mais do que quinze.

Conrad percebeu no mesmo instante que eu.

— Merda — ele murmurou.

Era uma emboscada.

Russo sorriu novamente, dessa vez sem esconder a satisfação.

— Surpresa.

Eu não respondi.

Meu corpo já estava reagindo antes mesmo de qualquer pensamento completo se formar.

Puxei minha arma.

E o primeiro tiro ecoou pelo porto.

Por um segundo tudo aconteceu ao mesmo tempo.

O barulho das armas explodiu pelo espaço aberto das docas. Faíscas surgiram quando balas atingiram metal, e o ar se encheu de gritos, passos correndo e o eco seco dos disparos.

Meus homens reagiram imediatamente.

Eles eram treinados para isso.

Dois deles se moveram para a esquerda, usando um caminhão como cobertura enquanto disparavam de volta. Outro puxou Conrad para trás de um contêiner.

Eu me abaixei atrás de uma pilha de caixas metálicas enquanto tiros passavam assobiando pelo ar.

— Quantos são?! — gritou Conrad.

— Muitos! — respondi.

Espiei rapidamente por cima da cobertura e vi mais homens surgindo das sombras entre os galpões.

Vinte.

Talvez trinta.

Talvez mais.

Eles tinham planejado aquilo com cuidado.

Sabiam que eu viria.

Sabiam quantos homens eu traria.

Sabiam exatamente onde nos pegar.

Um dos meus seguranças caiu alguns metros à frente depois de ser atingido no peito.

Outro homem puxou o corpo dele para trás enquanto continuava atirando.

O cheiro de pólvora começou a se espalhar pelo ar.

— Precisamos sair daqui! — gritou Conrad.

Ele estava certo.

Aquilo não era uma briga que poderíamos vencer.

Não contra aquela quantidade de homens.

— Retirada! — gritei para os outros.

Dois dos meus homens começaram a recuar em direção aos carros estacionados no pátio. Outro continuava disparando para manter os inimigos afastados.

As balas ricocheteavam nos contêineres com estalos violentos.

Corri ao lado de Conrad entre dois caminhões enquanto tiros atingiam o metal ao nosso redor.

— Pelo lado do galpão! — ele disse.

Viramos à direita, tentando usar a estrutura do galpão como proteção.

Um disparo passou tão perto do meu ouvido que senti o ar vibrar.

Outro dos meus homens caiu atrás de nós.

Restávamos poucos agora.

Muito poucos.

Conseguimos alcançar a lateral do galpão e começamos a correr em direção ao pátio onde os carros estavam.

— Vamos! — gritou Conrad.

Eu estava a poucos metros do carro quando senti.

O impacto.

Foi como ser atingido por um martelo quente.

A bala entrou na lateral do meu corpo, logo abaixo das costelas.

Por um segundo o mundo pareceu parar.

O ar saiu dos meus pulmões de uma vez e minhas pernas falharam.

Caí de joelhos no concreto.

— ALEX! — gritou Conrad.

O som dos tiros parecia distante agora.

Minha visão ficou turva por um instante.

Conrad apareceu ao meu lado imediatamente.

— Você foi atingido — disse ele, segurando meu braço.

Eu tentei respirar fundo, mas uma dor intensa atravessou meu corpo.

Olhei para baixo.

Minha mão estava coberta de sangue.

— Droga… — murmurei.

Conrad olhou rapidamente ao redor.

— Precisamos sair daqui agora.

Ele me puxou para cima antes que eu pudesse protestar.

Dois dos nossos homens ainda estavam vivos e disparavam na direção dos inimigos para abrir caminho.

Conrad praticamente me arrastou até o carro.

— Entra! — ele gritou para o motorista.

Fui empurrado para o banco traseiro enquanto mais tiros atingiam a lataria do veículo.

O motorista acelerou antes mesmo que a porta estivesse completamente fechada.

O carro disparou pelo pátio enquanto os disparos continuavam atrás de nós.

Conrad entrou logo depois e bateu a porta com força.

O motor rugiu enquanto deixávamos o porto para trás.

A dor no meu corpo estava ficando mais forte.

Cada respiração parecia arranhar por dentro.

— Aguenta — disse Conrad.

Eu encostei a cabeça no banco e tentei manter os olhos abertos.

— Era uma emboscada — murmurei.

— Eu sei.

O carro atravessou a avenida do porto em alta velocidade.

Minhas mãos estavam cada vez mais cobertas de sangue.

— Você vai ficar bem — disse Conrad.

Eu não respondi.

Minha visão começou a escurecer lentamente.

A última coisa que pensei antes de tudo ficar turvo foi simples.

Alguém iria pagar caro por aquilo.

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