CAPITULO 8

O elevador desceu em silêncio.

Eu estava encostada na parede metálica, segurando minha bolsa médica contra o peito enquanto tentava organizar meus pensamentos. A noite inteira parecia um borrão dentro da minha cabeça. Tudo tinha acontecido rápido demais: o sequestro, o apartamento luxuoso, o homem ferido no sofá, o acordo absurdo que eu tinha feito com alguém que claramente vivia em um mundo completamente diferente do meu.

E agora eu estava indo de volta para o hospital.

Como se nada tivesse acontecido.

Conrad estava ao meu lado, quieto, com as mãos nos bolsos do casaco. Ele parecia menos tenso do que durante a madrugada, mas ainda havia algo sério no olhar dele.

As portas do elevador se abriram na garagem subterrânea.

O ar ali era frio e cheirava levemente a gasolina e concreto úmido. Caminhamos até um dos carros estacionados perto da rampa de saída.

Eu ainda estava tentando entender tudo quando ele abriu a porta para mim.

— Entre.

Eu entrei no banco do passageiro desta vez. Conrad deu a volta no carro e sentou ao volante. O motor ligou com um ronco suave e o carro começou a subir lentamente pela rampa da garagem.

Quando saímos para a rua, a luz da manhã já dominava a cidade.

Silverport parecia completamente diferente do que algumas horas antes. O distrito noturno estava quase vazio agora. Algumas pessoas saíam de bares fechando as portas, e caminhões de entrega começavam a circular pelas avenidas.

Era estranho pensar que enquanto a cidade acordava para mais um dia comum, eu tinha passado a madrugada costurando o ferimento de um homem que provavelmente era um criminoso poderoso.

Fiquei olhando pela janela enquanto o carro se afastava do prédio.

Depois de alguns minutos, Conrad finalmente falou.

— Você entende que não pode contar isso para ninguém.

Eu virei a cabeça para ele.

— Eu sei.

Ele manteve os olhos na estrada.

— Ninguém.

— Eu entendi.

Ele assentiu levemente.

— Nem colegas de trabalho. Nem amigos. Nem família.

Eu soltei um pequeno suspiro.

— Conrad… eu sou médica. Não é exatamente fácil explicar desaparecer durante horas no meio de um plantão.

Ele deu de ombros.

— Invente alguma coisa.

— Ótimo conselho.

Ele olhou rapidamente para mim e então voltou a atenção para a rua.

— É sério.

— Eu sei que é.

Por alguns segundos ficamos em silêncio.

— Você salvou a vida dele — disse Conrad depois de um tempo.

Eu encarei minhas mãos.

— Eu fiz meu trabalho.

— Mesmo depois de termos sequestrado você.

Eu não respondi imediatamente.

— Médicos não escolhem pacientes — falei finalmente.

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Ainda assim.

O resto do caminho aconteceu em silêncio.

Conforme nos aproximávamos do hospital, meu estômago começou a apertar de nervosismo. Eu não fazia ideia de quanto tempo tinha passado desde que fui levada. Também não sabia o que tinha acontecido ali dentro enquanto eu estava fora.

O carro finalmente parou perto da entrada lateral dos funcionários.

— Aqui está bom — disse Conrad.

Eu segurei a alça da minha bolsa e me virei para sair.

— Bianca.

Olhei para ele.

— Sim?

— O acordo continua.

Eu assenti devagar.

— Eu sei.

Ele fez um pequeno gesto com a cabeça.

— Tenha um bom dia, doutora.

— Você também.

Saí do carro e fechei a porta.

O veículo se afastou quase imediatamente, desaparecendo na rua.

Fiquei parada ali por alguns segundos, olhando para o hospital à minha frente. O prédio parecia exatamente o mesmo de sempre, mas eu me sentia completamente diferente.

Respirei fundo e entrei.

Assim que atravessei a porta da emergência, percebi algo estranho.

Carla estava atrás do balcão da enfermagem.

E havia dois policiais ali.

Meu coração deu um pequeno salto.

Assim que me viram, os três olharam para mim ao mesmo tempo.

— Bianca! — disse Carla, claramente aliviada.

Os policiais se viraram completamente na minha direção.

Um deles, um homem alto de cabelos grisalhos, deu alguns passos à frente.

— Doutora Bianca Halcrow?

— Sim.

— Sou o detetive Ramos. Essa é minha parceira, detetive Paula Pierce.

A mulher ao lado dele apenas assentiu levemente.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Podemos conversar um minuto?

— Claro.

Eles me conduziram até uma pequena sala perto da administração da emergência. Assim que entramos, Ramos fechou a porta.

— Então — começou ele — parece que tivemos um pequeno incidente aqui esta noite.

Eu tentei manter a expressão calma.

— Eu ouvi.

Ele me observava com atenção.

— Seus colegas disseram que homens armados invadiram a emergência e levaram você.

— Sim.

— O que aconteceu depois?

Essa era a parte delicada.

Eu respirei fundo antes de responder.

— Eles me levaram para fora da cidade.

Ramos franziu levemente a testa.

— Fora da cidade?

— Sim. Um galpão… acho.

— Você acha?

Eu dei de ombros.

— Estava escuro. Eu estava… bastante nervosa.

Ele fez algumas anotações em um pequeno bloco.

— Quantos homens?

— Uns quatro ou cinco.

— Eles disseram por que estavam fazendo isso?

— Disseram que precisavam de um médico.

A detetive Paula cruzou os braços.

— Para quem?

— Um homem ferido.

Ramos levantou os olhos.

— Você reconheceu esse homem?

— Não.

— Nem um pouco?

Balancei a cabeça.

— Não. Ele estava com o rosto parcialmente coberto… e a iluminação era ruim.

Aquilo era tecnicamente uma mentira.

Mas também não era completamente mentira.

Ramos continuava me observando.

— E depois?

— Eu cuidei do ferimento dele.

— Que tipo de ferimento?

— Um tiro.

Os dois policiais trocaram um olhar rápido.

— E depois eles simplesmente… devolveram você? — perguntou Paula.

— Sim.

Ramos franziu a testa.

— Sem ameaças?

— Bem… eles estavam armados.

— Sim, claro.

Ele fez mais algumas anotações.

— Você lembra onde era esse galpão?

— Não exatamente.

— Alguma estrada? Alguma placa?

— Não.

Eu dei um pequeno suspiro.

— Eu estava mais preocupada em não morrer do que em prestar atenção nas placas da estrada.

Paula soltou um pequeno som de concordância.

Ramos fechou o bloco de notas.

— Bom… tecnicamente isso seria um sequestro.

— Tecnicamente?

Ele deu de ombros.

— Mas sem nenhuma pista concreta fica meio difícil investigar.

— Eles estavam mascarados? — perguntou Paula.

— Alguns sim.

Ramos suspirou.

— Provavelmente algum bandido ferido que não queria aparecer no hospital.

— Foi o que imaginei — falei.

Ele olhou para Paula e depois para mim novamente.

— Para ser sincero, doutora… isso acontece mais do que você imagina.

Eu pisquei.

— Sério?

— Infelizmente.

Ele guardou o bloco no bolso.

— Sem nomes, sem placas, sem localização…

Ele deu de ombros.

— Não tem muito o que possamos fazer.

Paula assentiu.

— A menos que você queira registrar oficialmente.

Eu pensei por um segundo.

Então balancei a cabeça.

— Eu só quero voltar ao trabalho.

Ramos fez um pequeno gesto com a cabeça.

— Entendo.

Ele abriu a porta da sala.

— Bem-vinda de volta, doutora.

Saímos para o corredor novamente.

Carla me encarava como se estivesse vendo um fantasma.

— Bianca! — ela disse, quase me abraçando.

— Estou bem.

— Eu estava tão preocupada!

Eu sorri levemente.

— Estou aqui.

Mas enquanto voltava para a emergência, uma coisa continuava ecoando na minha cabeça.

Meu acordo com Alexander Sinclair.

E a sensação de que aquela noite tinha sido apenas o começo de algo muito maior.

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