Mundo de ficçãoIniciar sessãoO elevador desceu em silêncio.
Eu estava encostada na parede metálica, segurando minha bolsa médica contra o peito enquanto tentava organizar meus pensamentos. A noite inteira parecia um borrão dentro da minha cabeça. Tudo tinha acontecido rápido demais: o sequestro, o apartamento luxuoso, o homem ferido no sofá, o acordo absurdo que eu tinha feito com alguém que claramente vivia em um mundo completamente diferente do meu.
E agora eu estava indo de volta para o hospital.
Como se nada tivesse acontecido.
Conrad estava ao meu lado, quieto, com as mãos nos bolsos do casaco. Ele parecia menos tenso do que durante a madrugada, mas ainda havia algo sério no olhar dele.
As portas do elevador se abriram na garagem subterrânea.
O ar ali era frio e cheirava levemente a gasolina e concreto úmido. Caminhamos até um dos carros estacionados perto da rampa de saída.
Eu ainda estava tentando entender tudo quando ele abriu a porta para mim.
— Entre.
Eu entrei no banco do passageiro desta vez. Conrad deu a volta no carro e sentou ao volante. O motor ligou com um ronco suave e o carro começou a subir lentamente pela rampa da garagem.
Quando saímos para a rua, a luz da manhã já dominava a cidade.
Silverport parecia completamente diferente do que algumas horas antes. O distrito noturno estava quase vazio agora. Algumas pessoas saíam de bares fechando as portas, e caminhões de entrega começavam a circular pelas avenidas.
Era estranho pensar que enquanto a cidade acordava para mais um dia comum, eu tinha passado a madrugada costurando o ferimento de um homem que provavelmente era um criminoso poderoso.
Fiquei olhando pela janela enquanto o carro se afastava do prédio.
Depois de alguns minutos, Conrad finalmente falou.
— Você entende que não pode contar isso para ninguém.
Eu virei a cabeça para ele.
— Eu sei.
Ele manteve os olhos na estrada.
— Ninguém.
— Eu entendi.
Ele assentiu levemente.
— Nem colegas de trabalho. Nem amigos. Nem família.
Eu soltei um pequeno suspiro.
— Conrad… eu sou médica. Não é exatamente fácil explicar desaparecer durante horas no meio de um plantão.
Ele deu de ombros.
— Invente alguma coisa.
— Ótimo conselho.
Ele olhou rapidamente para mim e então voltou a atenção para a rua.
— É sério.
— Eu sei que é.
Por alguns segundos ficamos em silêncio.
— Você salvou a vida dele — disse Conrad depois de um tempo.
Eu encarei minhas mãos.
— Eu fiz meu trabalho.
— Mesmo depois de termos sequestrado você.
Eu não respondi imediatamente.
— Médicos não escolhem pacientes — falei finalmente.
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Ainda assim.
O resto do caminho aconteceu em silêncio.
Conforme nos aproximávamos do hospital, meu estômago começou a apertar de nervosismo. Eu não fazia ideia de quanto tempo tinha passado desde que fui levada. Também não sabia o que tinha acontecido ali dentro enquanto eu estava fora.
O carro finalmente parou perto da entrada lateral dos funcionários.
— Aqui está bom — disse Conrad.
Eu segurei a alça da minha bolsa e me virei para sair.
— Bianca.
Olhei para ele.
— Sim?
— O acordo continua.
Eu assenti devagar.
— Eu sei.
Ele fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Tenha um bom dia, doutora.
— Você também.
Saí do carro e fechei a porta.
O veículo se afastou quase imediatamente, desaparecendo na rua.
Fiquei parada ali por alguns segundos, olhando para o hospital à minha frente. O prédio parecia exatamente o mesmo de sempre, mas eu me sentia completamente diferente.
Respirei fundo e entrei.
Assim que atravessei a porta da emergência, percebi algo estranho.
Carla estava atrás do balcão da enfermagem.
E havia dois policiais ali.
Meu coração deu um pequeno salto.
Assim que me viram, os três olharam para mim ao mesmo tempo.
— Bianca! — disse Carla, claramente aliviada.
Os policiais se viraram completamente na minha direção.
Um deles, um homem alto de cabelos grisalhos, deu alguns passos à frente.
— Doutora Bianca Halcrow?
— Sim.
— Sou o detetive Ramos. Essa é minha parceira, detetive Paula Pierce.
A mulher ao lado dele apenas assentiu levemente.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Podemos conversar um minuto?
— Claro.
Eles me conduziram até uma pequena sala perto da administração da emergência. Assim que entramos, Ramos fechou a porta.
— Então — começou ele — parece que tivemos um pequeno incidente aqui esta noite.
Eu tentei manter a expressão calma.
— Eu ouvi.
Ele me observava com atenção.
— Seus colegas disseram que homens armados invadiram a emergência e levaram você.
— Sim.
— O que aconteceu depois?
Essa era a parte delicada.
Eu respirei fundo antes de responder.
— Eles me levaram para fora da cidade.
Ramos franziu levemente a testa.
— Fora da cidade?
— Sim. Um galpão… acho.
— Você acha?
Eu dei de ombros.
— Estava escuro. Eu estava… bastante nervosa.
Ele fez algumas anotações em um pequeno bloco.
— Quantos homens?
— Uns quatro ou cinco.
— Eles disseram por que estavam fazendo isso?
— Disseram que precisavam de um médico.
A detetive Paula cruzou os braços.
— Para quem?
— Um homem ferido.
Ramos levantou os olhos.
— Você reconheceu esse homem?
— Não.
— Nem um pouco?
Balancei a cabeça.
— Não. Ele estava com o rosto parcialmente coberto… e a iluminação era ruim.
Aquilo era tecnicamente uma mentira.
Mas também não era completamente mentira.
Ramos continuava me observando.
— E depois?
— Eu cuidei do ferimento dele.
— Que tipo de ferimento?
— Um tiro.
Os dois policiais trocaram um olhar rápido.
— E depois eles simplesmente… devolveram você? — perguntou Paula.
— Sim.
Ramos franziu a testa.
— Sem ameaças?
— Bem… eles estavam armados.
— Sim, claro.
Ele fez mais algumas anotações.
— Você lembra onde era esse galpão?
— Não exatamente.
— Alguma estrada? Alguma placa?
— Não.
Eu dei um pequeno suspiro.
— Eu estava mais preocupada em não morrer do que em prestar atenção nas placas da estrada.
Paula soltou um pequeno som de concordância.
Ramos fechou o bloco de notas.
— Bom… tecnicamente isso seria um sequestro.
— Tecnicamente?
Ele deu de ombros.
— Mas sem nenhuma pista concreta fica meio difícil investigar.
— Eles estavam mascarados? — perguntou Paula.
— Alguns sim.
Ramos suspirou.
— Provavelmente algum bandido ferido que não queria aparecer no hospital.
— Foi o que imaginei — falei.
Ele olhou para Paula e depois para mim novamente.
— Para ser sincero, doutora… isso acontece mais do que você imagina.
Eu pisquei.
— Sério?
— Infelizmente.
Ele guardou o bloco no bolso.
— Sem nomes, sem placas, sem localização…
Ele deu de ombros.
— Não tem muito o que possamos fazer.
Paula assentiu.
— A menos que você queira registrar oficialmente.
Eu pensei por um segundo.
Então balancei a cabeça.
— Eu só quero voltar ao trabalho.
Ramos fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Entendo.
Ele abriu a porta da sala.
— Bem-vinda de volta, doutora.
Saímos para o corredor novamente.
Carla me encarava como se estivesse vendo um fantasma.
— Bianca! — ela disse, quase me abraçando.
— Estou bem.
— Eu estava tão preocupada!
Eu sorri levemente.
— Estou aqui.
Mas enquanto voltava para a emergência, uma coisa continuava ecoando na minha cabeça.
Meu acordo com Alexander Sinclair.
E a sensação de que aquela noite tinha sido apenas o começo de algo muito maior.







