Capítulo 3

O cheiro do porto sempre chega antes da paisagem.

Sal, óleo, metal enferrujado, madeira molhada. Um cheiro pesado que se mistura com o vento vindo do mar e que parece se agarrar à pele, às roupas, aos pensamentos. Sempre que eu vou ao Porto Velho sinto isso primeiro, como um aviso silencioso de que estou entrando em território diferente do resto de Silverport.

A cidade tem muitos rostos, mas o Porto Velho mostra um dos mais honestos.

Ali não existem vitrines bonitas nem restaurantes cheios de gente sorrindo. Só galpões antigos, guindastes imóveis como esqueletos gigantes e ruas largas demais para os poucos carros que passam durante a noite. É o tipo de lugar onde as coisas realmente acontecem longe dos olhos da cidade.

Meu carro entrou na avenida principal do distrito portuário alguns minutos depois de sairmos de Raven Fall. Eu estava no banco traseiro, olhando pela janela enquanto os faróis iluminavam pedaços de concreto, contêineres empilhados e trilhos abandonados.

Meus homens estavam em silêncio.

Eles sabiam que quando eu ficava quieto demais era melhor não interromper.

O motorista reduziu a velocidade quando nos aproximamos do galpão número doze. Era um dos nossos maiores depósitos naquela parte do porto. Oficialmente, ali funcionava uma empresa de importação de equipamentos industriais. Na prática… bem, Silverport se movia graças a negócios que raramente apareciam em papel.

O carro parou.

Assim que a porta se abriu, o vento frio do mar entrou de uma vez, trazendo aquele cheiro salgado e metálico que sempre parece mais forte à noite. Saí do carro e fechei o paletó com um movimento automático.

O Porto Velho estava silencioso demais.

Isso nunca era um bom sinal.

As luzes externas do galpão estavam acesas, iluminando parte do pátio onde alguns caminhões estavam estacionados. Ao lado deles, alguns dos meus homens faziam guarda, observando cada movimento ao redor.

E um pouco mais adiante estava Conrad.

Meu irmão mais novo estava encostado em um dos carros, com os braços cruzados e uma expressão que eu conhecia bem. Aquela mistura de irritação e curiosidade que aparecia sempre que algo inesperado acontecia.

Quando ele me viu, empurrou o corpo para frente e caminhou na minha direção.

— Demorou — disse ele.

— O trânsito em Silverport não respeita a agenda de ninguém — respondi.

Conrad soltou um pequeno sorriso de lado.

Ele era alguns anos mais novo que eu, mas muita gente cometia o erro de subestimá-lo. Conrad tinha uma mente rápida e uma capacidade natural de perceber problemas antes que eles realmente começassem. Talvez por isso ele fosse meu braço direito. Talvez por isso eu confiasse nele mais do que em qualquer outra pessoa.

— Então — falei — o que temos?

Ele olhou rapidamente ao redor antes de responder.

— Movimentação estranha nas docas três e quatro.

— Estranha como?

— Caminhões que não pertencem a nenhuma das empresas registradas aqui. Homens armados circulando entre os galpões. Alguns vigias nossos disseram que viram gente da família Moretti.

Eu passei a mão pelo queixo lentamente.

— Moretti não costuma trabalhar sozinho.

— Exatamente.

Conrad se aproximou um pouco mais, abaixando o tom de voz.

— Também temos relatos de dois homens ligados aos Kovalenko.

Aquilo fez meu olhar se estreitar levemente.

Os Moretti e os Kovalenko raramente colaboravam em qualquer coisa. Se os dois estavam interessados na mesma área do porto… então aquilo era mais do que simples curiosidade territorial.

— Quantos homens? — perguntei.

— Difícil dizer com certeza — respondeu Conrad. — Talvez quinze. Talvez vinte.

Olhei ao redor do pátio.

— E nós?

— Aqui? Oito.

Eu balancei a cabeça lentamente.

O vento do mar soprou novamente, fazendo algumas correntes metálicas presas aos contêineres baterem umas contra as outras com um som oco.

— Eles sabem que isso é território nosso — falei.

— Sabem.

— Então por que aparecer com tanta gente?

Conrad deu de ombros.

— Talvez estejam testando os limites.

Talvez.

Ou talvez estivessem tentando algo maior.

Caminhei alguns passos pelo pátio enquanto pensava. O concreto sob meus sapatos estava úmido e o som ecoava levemente no espaço vazio entre os galpões.

O Porto Velho sempre foi estratégico demais para ser ignorado. Quem controla aquela parte do distrito portuário controla metade do fluxo clandestino que entra em Silverport. Armas, tecnologia, peças raras, mercadorias que não passam pela alfândega oficial.

Tudo passa por ali.

E todos sabiam que aquela área pertencia aos Sinclair.

Parei perto de um dos caminhões e apoiei a mão na lataria fria.

— Eles não estão aqui para negociar — falei finalmente.

Conrad assentiu.

— Também acho.

Ficamos alguns segundos em silêncio, observando o espaço ao redor.

Ao longe, um navio cargueiro emitia um som grave enquanto manobrava lentamente na água escura. As luzes do porto piscavam em intervalos irregulares, criando sombras longas entre os galpões.

— Temos duas opções — disse Conrad.

Olhei para ele.

— Estou ouvindo.

— Primeira: mandamos uma mensagem clara. Reunimos nossos homens, vamos até lá e expulsamos todo mundo antes que pensem em se instalar.

— E a segunda?

— Esperamos.

— Esperamos o quê?

— Eles se moverem primeiro.

Eu fiquei pensando por um momento.

A primeira opção era rápida, direta e provavelmente violenta.

A segunda era mais arriscada.

Mas também mais informativa.

— Se atacarmos agora — falei — vamos confirmar para eles que estamos nervosos.

Conrad sorriu levemente.

— Foi exatamente o que pensei.

Eu me virei novamente em direção às docas.

De onde estávamos era possível ver apenas as silhuetas distantes de alguns galpões e guindastes gigantes recortados contra o céu escuro.

Mas se nossos informantes estavam certos… havia homens escondidos ali agora mesmo.

Observando.

Esperando.

— Quantos vigias temos espalhados? — perguntei.

— Quatro.

— Diga para ficarem de olho em qualquer movimento nas docas três e quatro.

Conrad pegou o telefone no bolso, digitou rapidamente uma mensagem e guardou novamente.

— Feito.

Caminhei até o centro do pátio e parei.

Havia algo no ar naquela noite. Uma sensação sutil de tensão que fazia tudo parecer um pouco mais silencioso do que deveria.

— Eles acham que podem entrar aqui — falei, mais para mim mesmo do que para Conrad.

— Talvez estejam tentando ver até onde podem ir.

Eu ri baixo.

— Então vamos mostrar.

Conrad cruzou os braços novamente.

— Qual é o plano?

Olhei para ele.

— Vamos esperar mais alguns minutos.

— E depois?

— Depois vamos até lá conversar.

Conrad arqueou uma sobrancelha.

— Conversar?

— Sim.

— Com quinze homens armados?

Eu dei um pequeno sorriso.

— Às vezes as melhores conversas começam assim.

Conrad soltou uma risada curta.

— Eu estava começando a sentir falta de noites interessantes.

O vento soprou novamente, mais forte dessa vez. Ao longe, uma porta metálica bateu em algum galpão, produzindo um eco longo que atravessou o pátio vazio.

Olhei mais uma vez para a escuridão entre as docas.

Se as famílias rivais tinham realmente decidido testar nossos limites naquela noite… então estavam prestes a aprender algo importante.

Ninguém toma território dos Sinclair em Silverport.

Não sem pagar por isso.

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