Mundo de ficçãoIniciar sessãoO carro continuou rodando por vários minutos, mas para mim parecia muito mais tempo.
Eu estava sentada no banco traseiro com minha bolsa médica apertada contra o peito, como se aquilo fosse algum tipo de proteção. Minhas mãos ainda estavam frias e meu coração continuava batendo rápido demais. O homem ao meu lado permanecia em silêncio, olhando para frente como se eu nem estivesse ali.
Pela janela eu via as ruas de Silverport passando depressa.
No começo reconheci alguns pontos perto do hospital, mas logo o caminho mudou. As ruas começaram a ficar diferentes. Mais escuras. Mais vazias. Alguns letreiros de neon apareciam nas fachadas dos prédios e bares com música alta ocupavam as esquinas.
Demorei alguns segundos para perceber onde estávamos.
O distrito noturno.
Eu já tinha passado por aquela região algumas vezes, mas nunca tarde assim. Aquela parte da cidade parecia viver em um ritmo próprio. Pessoas nas calçadas, carros estacionados de qualquer jeito, luzes vermelhas e roxas refletindo nas vitrines.
Mas o carro não parou em nenhum bar ou clube.
Ele continuou seguindo.
Viramos algumas ruas mais silenciosas até que finalmente paramos diante de um prédio alto e escuro. O lugar parecia quase abandonado à primeira vista. As janelas estavam apagadas e não havia nenhuma placa indicando o que funcionava ali.
Mesmo assim dava para perceber que o prédio era bem cuidado.
A fachada estava limpa. As portas de vidro não tinham sinais de vandalismo. Era como se alguém mantivesse o lugar em ordem, mesmo sem mostrar isso para o resto da cidade.
— Sai — disse o homem ao meu lado.
A porta foi aberta e eu fui puxada para fora do carro.
O ar da noite estava frio e eu abracei minha bolsa instintivamente. Olhei para cima tentando entender onde estávamos, mas não havia muitas pistas.
— Vamos.
Um dos homens apontou para uma rampa que levava para baixo.
Garagem subterrânea.
Descemos a rampa e o carro entrou logo atrás de nós. A garagem era grande, silenciosa e iluminada por lâmpadas brancas presas no teto de concreto. Havia poucos carros estacionados ali, todos caros demais para aquele tipo de prédio aparentemente abandonado.
Meu medo aumentou.
— Subam com ela — disse um dos homens.
Fui levada até um elevador no canto da garagem. As portas metálicas se abriram com um pequeno rangido.
Entramos.
Um dos homens apertou o botão do último andar.
O elevador começou a subir lentamente.
O silêncio dentro daquele pequeno espaço era sufocante. Eu conseguia ouvir apenas o zumbido do motor e minha própria respiração.
Meu cérebro tentava imaginar mil possibilidades ao mesmo tempo.
Quem eram aquelas pessoas?
Por que precisavam de um médico?
E por que tinham me sequestrado?
As portas do elevador finalmente se abriram.
O que encontrei do outro lado me deixou completamente confusa.
Não era um corredor de prédio antigo.
Era um apartamento.
Um apartamento enorme.
O elevador abria diretamente dentro dele.
O lugar era grande, elegante e claramente muito caro. O piso era de madeira escura perfeitamente polida, as paredes tinham quadros modernos e os móveis pareciam ter saído de uma revista de decoração. Sofás de couro, uma mesa enorme de vidro, iluminação suave.
Tudo era imponente.
Mas havia algo errado no ar.
Tensão.
No centro da sala havia um homem andando de um lado para o outro com expressão nervosa.
Ele tinha cabelos escuros, postura firme e parecia estar completamente concentrado em alguma coisa. Assim que me viu, parou imediatamente.
— Trouxeram ela? — perguntou.
— Médico — respondeu um dos homens.
Foi então que ouvi um som.
Um gemido baixo.
Virei a cabeça instintivamente.
E vi.
Havia outro homem deitado em um dos sofás.
Muito sangue.
Minha respiração falhou por um segundo.
A camisa dele estava completamente manchada de vermelho e parte do sofá também. O homem respirava com dificuldade, os olhos fechados, o rosto tenso de dor.
Mas quando eu me aproximei alguns passos…
Eu o reconheci.
Meu estômago deu um pequeno salto.
Era ele.
O homem do carro.
O homem que tinha me encarado naquela rua horas antes.
Agora ele estava ali, ferido, coberto de sangue.
— Finalmente — disse o homem nervoso. — Ele precisa de ajuda.
O homem ferido abriu os olhos lentamente.
Eles encontraram os meus.
Mesmo naquele estado, o olhar dele era intenso.
— Médica… — ele murmurou com dificuldade.
Me aproximei rapidamente, deixando o instinto profissional assumir.
— Ele levou um tiro? — perguntei.
— Sim — respondeu o outro homem. — Algumas horas atrás.
Olhei para ele com incredulidade.
— Algumas horas?
— Não tínhamos escolha.
Ignorei aquilo por enquanto e me ajoelhei ao lado do sofá. Minha mão começou a examinar rapidamente a região ferida.
— Eu preciso de luz — falei.
Um dos homens imediatamente aproximou um abajur.
Observei o ferimento.
A bala tinha atingido a lateral do corpo.
— Qual é o seu nome? — perguntei.
O homem no sofá respirou fundo antes de responder.
— Alexander.
Claro.
Eu não fazia ideia de quem ele realmente era, mas algo naquela situação dizia que aquele nome tinha peso.
— Alexander, você precisa de hospital — falei.
Ele soltou uma pequena risada dolorida.
— Não posso ir a um hospital.
— Então vai morrer aqui — respondi.
O outro homem — o que parecia ser o líder ali — passou a mão pelo cabelo com nervosismo.
— Você precisa cuidar dele — disse ele.
Alexander abriu os olhos novamente.
— Eu pago bem — murmurou.
Aquilo me fez parar.
— Eu não quero dinheiro.
Ele franziu levemente a testa.
— Então o que você quer?
— Quero que você vá para um hospital.
— Não posso.
— Então não posso ajudar.
O homem nervoso deu um passo à frente.
— Você vai ajudar sim.
Ele parecia prestes a perder a paciência.
— Se você não fizer nada—
— Se você me ameaçar — eu disse firme — eu não faço absolutamente nada por ele.
O silêncio caiu na sala.
O homem me encarou por alguns segundos.
Alexander levantou a mão com dificuldade.
— Conrad… — murmurou.
Então aquele era Conrad.
Ele soltou um suspiro irritado e deu um passo para trás.
Alexander olhou para mim novamente.
— O que você quer?
Eu fiquei alguns segundos em silêncio.
Minha mente girava rapidamente.
Eu estava sequestrada por homens armados.
Dentro de um apartamento luxuoso.
Tentando salvar um homem que claramente era perigoso.
Então um pensamento estranho apareceu na minha cabeça.
O casamento.
Minha mãe.
Minha irmã.
Meu ex-noivo.
Engoli em seco.
— Eu quero que você vá comigo a um casamento.
Alexander piscou devagar.
— O quê?
— Quero que você finja ser meu namorado.
Conrad soltou uma pequena risada incrédula.
— Isso é piada?
— Não.
Alexander me observava com uma expressão difícil de entender.
— Por quê?
— Porque minha família acha que eu sou uma fracassada sentimental — respondi. — E o noivo da minha irmã é meu ex.
O silêncio na sala ficou quase absurdo.
Conrad parecia dividido entre rir e ficar irritado.
Alexander soltou um pequeno suspiro dolorido.
— Você quer que eu… finja ser seu namorado.
— Sim.
— Em um casamento.
— Sim.
Ele fechou os olhos por um momento.
— Você sequestrou a médica mais estranha da cidade — murmurou.
Conrad balançou a cabeça.
— Isso é ridículo.
Mas Alexander abriu os olhos novamente.
— Tudo bem.
Eu pisquei.
— Sério?
— Sim.
Ele respirou com dificuldade antes de continuar.
— Mas eu tenho uma condição.
— Qual?
— Enquanto durar esse… namoro falso — disse ele — você vai cuidar dos meus homens quando precisarem.
Eu hesitei.
Aquilo parecia uma ideia terrível.
Mas também parecia minha única chance de sair viva daquela situação.
— Certo — respondi.
Conrad passou a mão pelo rosto.
— Isso é surreal.
Eu ignorei.
— Agora fique quieto — falei para Alexander. — Eu preciso ver esse ferimento.
Abri minha bolsa médica rapidamente.
Examinei melhor o local do tiro.
Depois de alguns segundos percebi algo importante.
— Boa notícia — murmurei.
Conrad se aproximou.
— O quê?
— Foi de raspão.
Ele franziu a testa.
— Isso é bom?
— Sim. A bala não ficou alojada.
Olhei novamente.
— Mas o corte é profundo.
Peguei os instrumentos que tinha trazido.
— Vou precisar suturar.
Alexander respirou fundo.
— Faça logo.
— Vai doer.
Ele soltou uma pequena risada cansada.
— Já está doendo.
— Segurem ele.
Conrad e dois homens seguraram os braços de Alexander enquanto eu começava a limpar o ferimento.
Assim que a agulha tocou a pele, Alexander soltou um grito rouco.
— Merda!
— Fique parado! — eu disse.
Continuei trabalhando com o máximo de cuidado possível. O sangue começou a diminuir conforme eu fechava o corte.
Alexander respirava pesado enquanto Conrad o segurava firme.
— Falta pouco — falei.
Demorou vários minutos.
Mas finalmente terminei o último ponto.
Afastei as mãos lentamente.
— Pronto.
O silêncio tomou conta da sala.
Alexander parecia completamente exausto.
Eu limpei as mãos em um pano e olhei para ele.
— Você vai sobreviver.
Ele abriu os olhos lentamente.
Por um segundo me observou em silêncio.
— Obrigado, doutora...
— Bianca.
— Bianca.
Ele repetiu, quase em um sussurro, então sua cabeça caiu levemente para o lado.
E ele desmaiou.







