Capítulo 7

Eu não fui embora naquela noite.

Na verdade, acho que em nenhum momento realmente pensei em ir embora.

Depois que terminei de suturar o ferimento de Alexander, o apartamento ficou estranhamente silencioso. Os homens que estavam ali começaram a sair aos poucos, alguns falando baixo entre si, outros simplesmente desaparecendo pelos corredores do lugar. Conrad foi o único que permaneceu na sala.

Alexander estava desmaiado no sofá, respirando pesado, o rosto pálido pela perda de sangue e pelo esforço que tinha feito para permanecer consciente durante o procedimento.

Eu observei aquilo por alguns segundos.

Mesmo desacordado, ele ainda parecia… imponente. Era estranho pensar isso de alguém deitado e ferido, mas havia algo na postura dele, na maneira como ocupava o espaço, que fazia parecer que o controle ainda era dele.

Balancei a cabeça levemente e voltei a focar no que realmente importava.

Paciente.

Ferimento.

Recuperação.

— Ele vai ficar bem? — perguntou Conrad.

A voz dele soou menos nervosa agora.

Eu estava ajoelhada ao lado do sofá organizando os materiais da minha bolsa médica. Olhei novamente para o curativo improvisado que tinha feito.

— Vai — respondi. — Mas ele perdeu bastante sangue.

Conrad assentiu lentamente.

Ele estava sentado em uma poltrona próxima, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar fixo no irmão.

Por alguns segundos nenhum de nós falou nada.

A cidade lá fora continuava viva. Eu conseguia ver algumas luzes piscando através das janelas enormes do apartamento. O distrito noturno provavelmente ainda estava cheio de gente bebendo, dançando, rindo.

Mas ali dentro parecia outro mundo.

— Você quer alguma coisa? — perguntou Conrad depois de um tempo.

Eu percebi naquele momento que minha boca estava seca.

— Água seria bom.

Ele se levantou e caminhou até um pequeno bar no canto da sala. Em vez de água, pegou uma garrafa de whisky e dois copos.

Eu levantei uma sobrancelha.

— Sério?

Ele deu um pequeno sorriso.

— Confie em mim. Depois da noite que você teve, isso vai ajudar mais do que água.

Eu pensei por um segundo.

Então dei de ombros.

— Tudo bem.

Conrad encheu um copo e me entregou.

Eu segurei o copo por um momento, observando o líquido âmbar balançar levemente ali dentro.

— Nunca pensei que meu plantão ia terminar assim — murmurei.

Ele soltou uma pequena risada.

— Nem eu.

Levei o copo aos lábios e dei um gole pequeno.

O líquido queimou na garganta, mas de um jeito que de alguma forma ajudou a acalmar meus nervos.

— Obrigada — falei.

Conrad apenas assentiu.

Voltamos a ficar em silêncio.

A noite passou devagar.

Em vários momentos eu precisei verificar o pulso de Alexander, observar a respiração dele, trocar o curativo improvisado que já começava a ficar manchado de sangue novamente.

Conrad permaneceu ali praticamente o tempo todo.

Às vezes andando pela sala.

Às vezes sentado observando o irmão.

Às vezes apenas olhando pela janela.

— Vocês sempre fazem isso? — perguntei em algum momento da madrugada.

Ele olhou para mim.

— Isso o quê?

— Invadir hospitais e sequestrar médicos.

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Não.

— Ótimo.

— Mas às vezes… as coisas saem do controle.

Eu encarei o copo de whisky nas minhas mãos.

— Eu percebi.

Conrad ficou quieto por alguns segundos antes de falar novamente.

— Obrigado por vir.

Aquilo me pegou um pouco de surpresa.

— Eu não tive muitas opções, não é?

Conrad assentiu lentamente.

O resto da madrugada seguiu assim. Eu verificava Alexander de tempos em tempos, trocava o curativo, anotava mentalmente qualquer mudança.

O whisky ajudou a manter meus nervos sob controle.

Mas o cansaço começou a pesar conforme o céu lá fora começava a clarear.

Quando percebi que o sol estava surgindo entre os prédios de Silverport, eu estava inclinada sobre Alexander refazendo o curativo do ferimento.

A luz da manhã entrava pelas janelas grandes do apartamento, iluminando a sala de um jeito completamente diferente da noite anterior.

Foi então que ele se mexeu.

Eu senti primeiro.

O corpo dele tensionou levemente sob minhas mãos.

Levantei os olhos.

Alexander abriu os olhos devagar.

Por um segundo ele pareceu confuso.

Depois focou o olhar em mim.

— Você ainda está aqui — ele murmurou com a voz rouca.

— Sim.

Ele piscou algumas vezes, tentando se orientar.

— Que horas são?

— De manhã.

Ele soltou um pequeno suspiro cansado.

— Ainda dói.

— Vai continuar doendo por um tempo — respondi.

Continuei ajustando o curativo.

Alexander ficou me observando em silêncio por alguns segundos.

— Você realmente falou sério ontem à noite?

Eu levantei os olhos.

— Sobre o casamento?

— Sim.

— Sim.

Ele franziu levemente a testa.

— Por que não simplesmente… não ir?

Eu parei por um momento antes de responder.

Era uma pergunta simples.

Mas a resposta não era.

— Porque minha família acha que está tudo bem — falei devagar.

Alexander continuava me olhando com atenção.

— O noivo da minha irmã era meu namorado — continuei. — E ninguém gosta muito de falar sobre isso.

Ele permaneceu em silêncio.

— Então todo mundo prefere fingir que nada aconteceu — expliquei. — E eu também finjo.

Voltei a apertar o curativo com cuidado.

— Minha irmã não fez aquilo para me machucar — murmurei. — As coisas simplesmente… aconteceram.

Alexander soltou um pequeno suspiro.

— E você ainda vai ao casamento.

— Sim.

— Mesmo assim.

Eu dei um pequeno sorriso cansado.

— Eu amo minha irmã.

Ele ficou quieto por um momento.

— Você é estranha — disse finalmente.

Eu ri.

— Você sequestrou uma médica no meio da madrugada.

— Justo.

Terminei de ajustar o curativo e me afastei um pouco.

— Tente não se mover muito hoje — falei. — Você precisa descansar.

Alexander apoiou a cabeça no encosto do sofá.

Ficou pensando por alguns segundos.

Então olhou para Conrad.

— O acordo continua de pé.

Conrad ergueu as sobrancelhas.

— Sério?

Alexander voltou o olhar para mim.

— Eu vou ao casamento.

Meu estômago deu um pequeno salto.

— Obrigada.

Ele fez um gesto pequeno com a mão.

— Conrad.

— Sim?

— Leve a doutora de volta ao hospital.

Eu pisquei.

Aquilo aconteceu mais rápido do que eu esperava.

Conrad assentiu.

— Claro.

Eu peguei minha bolsa médica e me levantei devagar.

Meu corpo inteiro parecia pesado agora que a adrenalina tinha ido embora.

Alexander ainda me observava.

— Doutora.

Eu parei.

— Sim?

— Obrigado.

Eu hesitei por um momento.

— Tente não levar outro tiro antes do casamento.

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.

— Vou fazer o possível.

Conrad abriu caminho para o elevador.

Eu caminhei em direção a ele.

Minutos depois, enquanto o elevador descia lentamente, a única coisa que eu conseguia pensar era simples.

Minha vida tinha ficado muito mais complicada.

E o casamento da minha irmã ainda nem tinha chegado.

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