Capítulo 2

Dirigir até o hospital à noite já tinha se tornado um hábito tão automático para mim que às vezes parecia que meu corpo fazia o trajeto sozinho. Eu conhecia cada rua, cada semáforo e cada curva daquele caminho. Ainda assim, sempre havia um momento, poucos minutos antes de chegar, em que eu respirava fundo e tentava organizar a cabeça. Era como se eu precisasse deixar do lado de fora tudo o que não pertencia ao hospital.

Naquela noite não era diferente.

Silverport estava iluminada como sempre. Os prédios refletiam luz nas janelas, os letreiros de bares e restaurantes coloriam as calçadas e o trânsito seguia lento, mas constante. Algumas pessoas estavam voltando para casa depois do trabalho, outras apenas começavam a noite. Eu observava tudo isso de dentro do carro com uma sensação estranha de distância, como se estivesse vendo um filme do qual eu não fazia parte.

Ser médica tem esse efeito às vezes. Você passa tanto tempo dentro de hospitais que o resto da cidade começa a parecer… distante.

Eu segurei o volante com uma das mãos enquanto diminuía a velocidade ao me aproximar de um semáforo. O relógio do painel indicava que eu ainda tinha alguns minutos antes do início oficial do plantão. Mesmo assim, eu já sabia que aquela noite provavelmente não seria tranquila. No hospital, tranquilidade quase sempre era uma ilusão.

O sinal ficou vermelho e eu parei.

Foi então que um carro passou na faixa oposta.

Eu não teria prestado atenção se não tivesse visto movimento dentro do veículo exatamente no momento em que ele passava por mim. A janela do banco traseiro estava aberta, e alguém estava sentado ali.

Nossos olhares se encontraram por um instante.

O homem dentro do carro era muito atraente. Aquela foi a primeira coisa que notei, antes mesmo de pensar em qualquer outra coisa. Ele tinha cabelos escuros e um rosto sério, com traços fortes. A luz da rua iluminou parte do rosto dele quando os carros se cruzaram, e por um segundo tive a impressão de que ele estava me observando com atenção.

Não foi um olhar rápido, daqueles que duas pessoas trocam sem pensar quando passam uma pela outra no trânsito.

Ele realmente me encarou.

Aquilo durou apenas alguns segundos. O carro dele continuou seguindo na direção oposta, desaparecendo rapidamente entre outros veículos da avenida. Mesmo assim, por algum motivo estranho, eu continuei olhando pelo retrovisor por um momento.

Não sei exatamente por quê.

Talvez tenha sido apenas surpresa. Talvez tenha sido porque aquele olhar parecia um pouco intenso demais para um encontro tão rápido entre dois estranhos no trânsito.

Balancei levemente a cabeça e voltei a prestar atenção na estrada.

— Estranho — murmurei.

O sinal abriu e eu segui em frente.

Alguns minutos depois virei na rua do hospital. O prédio apareceu logo à frente, grande e iluminado como sempre. Àquela hora da noite as janelas ainda estavam acesas em quase todos os andares. Hospitais nunca param completamente. Sempre há alguém chegando, alguém esperando, alguém lutando para melhorar.

Entrei no estacionamento dos funcionários e procurei uma vaga livre. Depois de estacionar, desliguei o motor e fiquei alguns segundos sentada ali em silêncio.

Esse pequeno momento dentro do carro era quase um ritual para mim. Era o último instante de calma antes de entrar em um lugar onde qualquer coisa podia acontecer.

Foi então que meu celular vibrou no banco do passageiro.

Peguei o aparelho.

Mensagem de voz.

Da minha mãe.

Soltei um pequeno suspiro antes de ouvir. Eu já imaginava qual seria o assunto.

Apertei o play.

— Bianca, querida — começou a voz dela, suave e familiar. — Eu estava pensando aqui… você já decidiu o que vai vestir no casamento?

Fechei os olhos por um segundo.

O casamento.

Nas últimas semanas parecia que todos na minha família só sabiam falar disso.

— Falta pouco tempo — continuou minha mãe — e eu ainda não sei qual vestido você escolheu. Sua irmã está organizando tudo com tanto cuidado. Seria bom se você participasse um pouco mais dessas coisas.

Eu apoiei a cabeça no banco enquanto escutava.

— E outra coisa… você vai levar alguém?

Meu estômago apertou um pouco.

— Todo mundo vai perguntar, Bianca. Você sabe como a família é.

Sim. Eu sabia muito bem.

A mensagem terminou alguns segundos depois. Eu ainda estava olhando para o teto do carro quando o celular vibrou novamente.

Outra mensagem de voz.

Dessa vez da minha irmã.

Eu ri sem humor antes de apertar o play.

— Bianca! — disse ela, animada. — Você ainda não confirmou sua presença no casamento.

Passei a mão pelo rosto.

— A assessora está organizando a lista de convidados e eu preciso saber se você vem.

Houve uma pequena pausa.

— Quer dizer… eu imagino que venha, né?

Outra pausa.

— E… você vai levar alguém?

Suspirei profundamente.

— Porque talvez seja meio estranho você aparecer sozinha — acrescentou ela rapidamente.

Estranho.

Eu fiquei alguns segundos olhando para o celular depois que a mensagem terminou.

Minha irmã estava prestes a se casar.

E o noivo dela… costumava ser meu.

Aquela era a parte da história que ninguém na família parecia saber muito bem como lidar. Algumas pessoas fingiam que nada tinha acontecido. Outras apenas evitavam tocar no assunto.

Mas o casamento estava chegando, e agora parecia que todos esperavam que eu aparecesse lá sorrindo como se tudo fosse completamente normal.

— Ótimo — murmurei para mim mesma.

Guardei o celular na bolsa antes que mais alguma mensagem chegasse.

Respirei fundo, abri a porta do carro e saí.

O ar da noite estava frio. Caminhei rapidamente até a entrada dos funcionários e passei meu crachá na porta automática.

Assim que entrei no hospital percebi que algo estava errado.

O corredor do pronto-socorro estava muito mais movimentado do que o normal. Enfermeiros passavam rapidamente empurrando macas, médicos conversavam em tom urgente e várias pessoas se moviam ao mesmo tempo.

Aquilo nunca era um bom sinal.

— Bianca! — ouvi alguém chamar.

Virei a cabeça.

Era Carla, uma das enfermeiras do plantão.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Acidente de carro na rodovia — respondeu ela rapidamente. — Colisão grave.

Meu coração acelerou.

— Quantos pacientes?

— Quatro.

Quatro.

Minha mente começou imediatamente a pensar nas possibilidades.

— Quem está na ortopedia hoje?

Carla fez uma expressão que já dizia tudo.

— Você.

Eu pisquei.

— Só eu?

— O doutor Monroe está em cirurgia no outro prédio e a doutora Taylor ligou dizendo que está doente.

Eu soltei uma pequena risada nervosa.

Perfeito.

Quatro vítimas graves.

Uma ortopedista.

Respirei fundo.

Nesse momento algo dentro de mim mudou, como sempre mudava quando uma emergência começava. As preocupações com mensagens da família, casamento e tudo mais simplesmente desapareceram.

Ali dentro havia apenas uma coisa que importava.

Trabalho.

— Certo — disse enquanto prendia o cabelo com mais firmeza. — Onde estão os pacientes?

— Dois já chegaram. Os outros estão a caminho.

Assenti e caminhei em direção à sala de trauma.

Quando empurrei a porta, o caos já estava instalado.

Um paciente inconsciente estava na maca no centro da sala enquanto vários profissionais se moviam ao redor dele. O monitor cardíaco emitia bipes rápidos e alguém pressionava compressas contra uma perna claramente quebrada.

Senti a adrenalina percorrer meu corpo.

Quatro pessoas feridas.

Talvez várias cirurgias.

E eu era a única ortopedista naquela noite.

Puxei um par de luvas e me aproximei da maca.

— Certo — disse, tentando manter a voz firme. — Vamos começar.

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