Adrian
Existem silêncios que só homens como eu reconhecem. Não o silêncio comum — confortável, neutro e irrelevante. Falo daquele silêncio que chega antes da queda. Antes da verdade, que rasga o chão sob os pés de quem sempre acreditou controlar o tabuleiro. É esse silêncio que toma conta da minha cobertura quando o mundo começa a desabar.
O relógio marca pouco depois das oito. A cidade ainda acorda, mas aqui em cima tudo já está desperto demais. O tablet vibra na mesa de mármore. O celular acompanha. A televisão liga sozinha no modo breaking news. Um alerta atrás do outro. Um coro eletrônico anunciando que algo foi quebrado — e que não tem conserto simples.
Então a porta se abre sem ser anunciada.
Daniel entra.
Meu assessor não caminha. Ele invade. Pálido. O rosto drenado de cor. O terno desalinhado como se tivesse sido vestido correndo. A respiração curta. Descontrolada. Ele para a dois metros de mim como quem teme chegar mais perto de um animal ferido.
— S-senhor… — ele engole em s