Felipe
O dia amanheceu claro demais para um homem que já viveu tempo suficiente na sombra. A luz entrava pelas janelas altas do hotel como se tivesse sido ensaiada — limpa, precisa, quase cerimonial. São Paulo parecia suspensa num raro acordo de paz com o céu. Nenhuma sirene. Nenhuma ameaça. Nenhum ruído que lembrasse guerra. Só aquele silêncio elegante de uma manhã importante. De um dia irreversível. O dia do meu casamento.
Fiquei parado por alguns segundos diante do espelho, ajustando os punhos da camisa branca, observando o reflexo de um homem que eu quase não reconhecia. Não porque estivesse diferente por fora — o terno sob medida, o cabelo alinhado, o rosto barbeado com precisão — mas porque algo dentro de mim havia finalmente desacelerado.
Eu sobrevivi.
Sobrevivi ao Adrian. À herança podre do meu sobrenome. À culpa que carreguei por anos sem saber exatamente de quem era. Sobrevivi ao homem que eu fui quando confundi poder com silêncio. Controle com indiferença. Liderança com ceg