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Capítulo 1 - O Primeiro Choque

A manhã no Colégio Santa Amélia começara com o habitual burburinho de corredores cheios, passos apressados e conversas que se entrelaçavam como fios soltos de energia juvenil. O ar carregava o perfume familiar de café, livros antigos e tinta de quadro. Para Elena Vasconcelos, aquele era o som da rotina, da estabilidade, da vida tranquila que construíra longe dos grandes dramas que preferia encontrar apenas nos romances que ensinava aos seus alunos.

Com uma pilha pesada de livros equilibrada nos braços — uma mistura de Machado, Pessoa e alguns cadernos de exercícios — ela tentava navegar pelo mar de estudantes, oferecendo sorrisos rápidos e acenos gentis aos que a cumprimentavam. Mechas de seu cabelo escapavam do coque improvisado que sempre montava às pressas, denunciando a agitação da manhã.

— Professora Elena! — a voz familiar a chamou, vindo de trás.

Ela se virou e encontrou Isabella Moretti, com seus longos cabelos escuros, a postura confiante e a expressão de cansaço que não combinava com seus dezessete anos. A adolescente vinha caminhando como quem atravessa uma tempestade invisível.

— Está tudo bem? — Elena perguntou, ajeitando os livros nos braços.

Isabella soltou um suspiro dramático, deixando a mochila escorregar um pouco mais no ombro.

— É… normal. — Ela fez aspas no ar. — Só uma manhã típica na mansão Moretti. Três pessoas discutindo pelos corredores, um motorista que fala demais, dois seguranças que tentam pegar minha mochila like eu fosse feita de cristal, e um café da manhã silencioso onde todo mundo finge que está tudo ótimo.

Elena soltou um riso curto.

— Pelo menos você teve café da manhã. Eu saí de casa atrasada demais até pra isso.

Isabella arqueou uma sobrancelha, divertindo-se, como sempre, com a maneira leve com que Elena encarava o mundo. Era uma das poucas pessoas capazes de fazer a garota baixar a guarda.

Mas então Isabella lembrou-se de algo — e sua expressão mudou.

— Ah. Meu irmão pediu para falar com você — ela disse, de forma totalmente casual.

Elena parou imediatamente.

Um dos livros escorregou e caiu no chão com um thump seco.

— Seu… irmão? — ela repetiu, mesmo sabendo que a resposta já estava clara.

— Sim. O Lorenzo. — Isabella disse o nome como se estivesse falando sobre qualquer pessoa, não sobre o homem cuja simples menção fazia o ar ao redor parecer mais denso. — Ele disse que vai passar aqui hoje.

O coração de Elena acelerou de um jeito incômodo.

Lorenzo Moretti.

O nome que circulava pelos corredores da escola como um segredo perigoso.

O homem que carregava uma reputação que muitos preferiam não discutir.

— Isabella, eu fiz alguma coisa? — Elena perguntou, tentando manter a voz estável, mas uma tensão involuntária escapou.

A adolescente franziu o cenho, como se achasse a pergunta absurda.

— Claro que não. Ele só quer agradecer pela ajuda com minhas notas. Acho que você… impressionou ele. — Isabella deu de ombros, sem perceber o peso que aquela palavra tinha para Elena.

Impressionou.

A palavra ecoou como um pequeno terremoto.

— E ele vem pessoalmente. — Isabella acrescentou, já se afastando. — Então não surta, tá?

E sumiu entre os alunos antes que Elena pudesse formular qualquer resposta.

O resto da manhã se arrastou como um relógio preguiçoso. Elena tentava focar nas atividades, nas explicações, nos alunos tagarelas… mas sua mente insistia em voltar para a mesma imagem nebulosa: a do homem que estava vindo falar com ela.

Ela nunca o havia visto pessoalmente, mas rumores existiam aos montes.

Sobre seu poder.

Sua frieza.

Sua intensidade.

Sua fama de resolver problemas antes que eles respirassem.

E agora ele vinha até ela.

Às onze e dezessete, enquanto os alunos copiavam um poema no quadro, Elena ouviu passos firmes ecoando pelo corredor — diferentes de todos os outros. Lentos, calculados, seguros. O tipo de passos que não pedem espaço, mas que naturalmente o recebem.

Ela tentou ignorar.

Tentou continuar corrigindo um exercício.

Tentou respirar como uma pessoa normal.

Não conseguiu.

A sombra apareceu na parte de vidro da porta.

Os alunos pararam de escrever.

Como se uma brisa gelada tivesse atravessado a sala.

A maçaneta girou.

Devagar.

Com autoridade tranquila.

Lorenzo Moretti entrou.

Mais alto do que ela imaginava.

Mais imponente do que os rumores sugeriam.

Mais calmo do que alguém tão perigoso tinha o direito de ser.

Seu terno escuro acompanhava cada movimento com perfeição sob medida. O rosto, marcado por traços firmes, revelava uma beleza fria, quase afiada. Mas foram os olhos — profundos, observadores, insondáveis — que prenderam Elena onde estava.

Ele varreu a sala com o olhar antes de fixá-lo nela.

E naquele instante, Elena sentiu o ar à sua volta rarear.

Não era medo.

Não totalmente.

Era… algo diferente. Algo que ela não sabia nomear.

Lorenzo deu um passo à frente.

— Professora Vasconcelos? — sua voz grave preencheu a sala inteira. — Posso falar com você por um momento?

Elena engoliu em seco.

Todos os alunos a encaravam, fascinados.

Isabella, escondida atrás do livro, observava com olhos atentos, como quem assiste a um prelúdio inevitável.

Elena se levantou devagar, sentindo as pernas um pouco fracas. Quando seus olhos encontraram os de Lorenzo, algo inexplicável aconteceu: ela teve a sensação de que, de alguma forma, aquela não era a primeira vez que suas vidas se cruzavam.

Era irracional.

Era impossível.

Mas era real.

O olhar dele a atravessou como se estivesse vendo além da professora calma, além da rotina, além das paredes que ela achava que ninguém enxergava.

E então Elena compreendeu, com um arrepio silencioso:

Nada na sua vida permaneceria igual depois daquele homem.

Nada.

O destino havia acabado de entrar pela porta da sala 203.

E estava olhando diretamente para ela.

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