Mundo de ficçãoIniciar sessãoO corredor estava silencioso quando Elena saiu da sala, fechando a porta com cuidado. Do outro lado, os alunos prenderam a respiração, como se assistissem a um episódio decisivo de uma série que adoravam. Mas Elena não ouviu nada disso — sua mente estava ocupada demais com o homem que a aguardava.
Lorenzo Moretti estava ali, apoiado casualmente na parede, como se fosse dono do lugar. Nada nele estava fora do lugar: o terno impecável, a postura firme, o olhar calculado. E mesmo assim, havia algo quase… contido. Como se ele fosse feito de força e silêncio ao mesmo tempo. — Obrigado por sair. — Ele falou primeiro, com uma cortesia inesperada. A voz era grave, aveludada, mas com uma tensão por baixo, como cordas prestes a vibrar. Elena respirou fundo. — Claro. O que posso fazer por você, senhor Moretti? O canto dos lábios dele ergueu-se quase imperceptivelmente. — Lorenzo é suficiente. Ela assentiu, mas o nome pareceu ainda mais perigoso dito assim, tão próximo. Por um momento, nenhum dos dois falou. Ele simplesmente a observou — não com intimidação, mas com uma curiosidade atenta, quase afiada. Elena teve a sensação incômoda de estar sendo lida como um livro aberto. — Minha irmã fala muito de você. — Lorenzo disse por fim, quebrando o silêncio com suavidade. — E, ao que tudo indica, ela confia mais em você do que em qualquer pessoa daquela casa. O modo como ele disse “daquela casa” carregava um peso que Elena percebeu, mas não entendeu completamente. — Isabella é uma aluna brilhante — respondeu Elena, com sinceridade. — Só precisa de alguém que a enxergue além do sobrenome. Por um instante, o olhar de Lorenzo vacilou. Foi muito rápido, quase imperceptível, mas estava lá: um lampejo de algo parecido com gratidão… ou talvez alívio. — É exatamente isso que eu queria agradecer. — Ele disse, aproximando-se apenas o suficiente para que ela sentisse a presença dele como uma corrente de ar mais quente. — Isabella não confia facilmente. Ela não se abre. Mas com você… — Ele inclinou levemente a cabeça. — Ela floresceu. A forma como Lorenzo pronunciou aquelas palavras fez um arrepio subir pela espinha de Elena. Não era só gratidão. Havia intensidade. Havia algo mais profundo, mais antigo, mais carregado. Ela engoliu em seco. — Fico feliz em poder ajudar. O silêncio retornou entre eles, mas dessa vez tinha outra textura — mais densa, quase palpável. O ar parecia vibrar entre os dois, como se algo estivesse prestes a acontecer, embora nenhum deles soubesse exatamente o quê. Então Lorenzo respirou fundo, como se estivesse prestes a cruzar uma fronteira invisível. — Professora Vasconcelos… — Ele hesitou, escolhendo as palavras com extremo cuidado. — Eu sei que minha presença pode ser… desconfortável. Ela quase riu, mas de nervoso. — Não é exatamente isso. É só… inesperada. Lorenzo ergueu uma sobrancelha, intrigado. — E isso é um problema? Elena piscou algumas vezes, surpresa pela pergunta direta. O problema não era ele em si — era a aura, o poder, a reputação, o fato de que sua simples presença alterava a gravidade do ambiente. — Não sei. — respondeu com honestidade. — Mas estou tentando descobrir. Algo claramente mudou no olhar de Lorenzo. Como se aquela pequena sinceridade tivesse derrubado uma barreira que ele mesmo nem sabia que tinha levantado. Ele deu um passo mais perto. Só um. Mas suficiente para que Elena sentisse seu perfume — uma mistura de notas amadeiradas e algo sutilmente luxuoso. Um aroma que combinava com ele. — Então permita que eu torne isso menos inesperado. — disse ele, com uma calma que escondia tensão. — Isabella vai ter algumas dificuldades nos próximos meses. Pressões familiares, responsabilidades… e eu talvez precise que ela tenha alguém estável por perto. Alguém que ela confie. Ele fez uma pausa. — Alguém como você. Elena sentiu o coração bater mais rápido, mas não era apenas responsabilidade que ela ouvia ali. Havia outro subtexto, mais profundo, mais íntimo. — Está me pedindo… o quê exatamente? — murmurou. Lorenzo a observou longamente, como se avaliasse até onde poderia ir. — Que continue sendo exatamente quem você já é para ela. — respondeu. — A única pessoa que não espera nada em troca. Era um elogio. E vindo dele, isso pesava muito mais do que deveria. Elena respirou fundo, tentando recuperar o controle da própria voz. — Eu posso ajudar Isabella. Mas não quero me envolver em nada que… — Ela buscou as palavras certas. — Comprometa meu trabalho. Ou minha vida. Lorenzo não demonstrou irritação. Nem surpresa. Apenas compreensão — algo raro em alguém como ele. — Eu entendo. — disse, e seus olhos ganharam um brilho curioso. — E prometo que não terá de se envolver com nada que a coloque em risco. Mas a maneira como ele disse aquilo… Como se fosse capaz de entortar o destino ao redor dela… Não soava como uma promessa. Parecia um aviso silencioso: Eu protejo aquilo que considero meu. Mesmo que você ainda não saiba que já é. Elena sentiu uma onda quente subir pelo corpo e desviou o olhar por um instante, apenas para recuperar o fôlego. Lorenzo não se moveu. — Obrigado pelo seu tempo, professora. — disse ele, finalmente recuando um passo. — Nos encontraremos novamente. Não foi pergunta. Foi certeza. Ele virou-se e caminhou pelo corredor, emanando força silenciosa até desaparecer na curva. Elena ficou parada ali, tentando convencer a si mesma de que tudo aquilo havia sido apenas uma conversa… profissional. Mas no fundo, ela sabia. O primeiro choque já havia acontecido. E as ondas estavam apenas começando a se formar.






