Mundo de ficçãoIniciar sessãoAdrian Clark tem tudo o que o Vale do Silício pode oferecer: bilhões em conta, uma multinacional de tecnologia que molda o futuro e uma mansão impenetrável em um dos bairros mais exclusivos de San Francisco. Mas, por trás das paredes de vidro e sistemas de segurança de última geração, Adrian vive em um hiato emocional. Abandonado pela noiva no dia em que sua filha nasceu prematura e com complicações de saúde, ele aprendeu a ver o mundo como um sistema binário: ou você controla, ou é traído. Do outro lado da rua, a vida pulsa em um ritmo diferente. Eloise é uma brasileira que conhece bem o peso da perda. Viúva antes mesmo de dar à luz, ela trocou o Brasil pelas ladeiras de San Francisco com um único objetivo: dar ao filho de sete anos as oportunidades que o destino lhe roubou. O destino desses dois mundos colide através de uma amizade improvável entre as crianças na escola. Enquanto Eloise responde à arrogância dele com uma indiferença gelada que ele não sabe como processar, a neblina de San Francisco começa a se dissipar, revelando que eles têm mais em comum do que as cicatrizes do passado sugerem. No entanto, quando a confiança finalmente começa a ser escrita em um novo código, o passado de Adrian retorna. Mary, a mulher que o deixou no momento mais sombrio, ressurge disposta a recuperar o lugar que abandonou, testando se o que Adrian e Eloise construíram é um sistema sólido ou apenas uma versão beta de um amor que não está pronto para o mundo real.
Ler maisAdrian Clark
Ela é linda. É só nisso que consigo pensar. Na beleza da minha filha. Passei a vida acreditando que dinheiro e tecnologia eram suficientes para dobrar a vontade da natureza. Que, com os recursos certos, com os nomes certos, com os procedimentos certos, qualquer risco podia ser neutralizado, qualquer falha podia ser corrigida, qualquer desvio podia ser previsto. Mas, diante daquela incubadora de acrílico, entendi uma verdade simples e brutal: oito meses não bastam para fabricar uma vida perfeita. O médico chamou de prematura tardia, uma escolha semântica quase elegante demais para encobrir o fato objetivo de que minha filha tinha vindo cedo demais. O primeiro problema era a respiração. Os pulmões ainda imaturos não produziam surfactante suficiente para se manterem abertos sozinhos, e por isso cada lufada de ar parecia uma batalha silenciosa travada por um corpo pequeno demais, delicado demais, novo demais. Os monitores ajudavam, os aparelhos sustentavam, os profissionais controlavam, mas nada disso apagava o fato de que ela estava lutando por algo que, para a maioria, acontece sem esforço. Havia também a termorregulação. Sem a camada de gordura que deveria ter acumulado nas últimas semanas de gestação, o corpinho dela não conseguia reter calor. Dependia por inteiro do aquecimento artificial daquela cápsula para não ceder ao frio. Era estranho perceber como a vida, no início, podia ser reduzida a funções tão básicas e ainda assim tão frágeis: respirar, manter-se aquecida, continuar. O fígado, ainda em formação, não processava a bilirrubina como deveria. O resultado era o tom amarelado na pele — a icterícia —, combatido com banhos constantes de luz azul. Mas, entre tudo aquilo, o que mais me perturbava era a letargia. O reflexo de sucção, que deveria ser instintivo, ainda não sabia trabalhar em harmonia com a deglutição e a respiração. Minha filha simplesmente não sabia como se alimentar. E foi assim que a sonda nasogástrica entrou em cena, não como um detalhe técnico, mas como mais uma lembrança de que ela ainda não estava pronta, de que seu corpo seguia terminando um trabalho que a vida havia interrompido cedo demais. Ela era um sistema complexo, preciso, admirável — e incompleto. Uma máquina delicada de alta precisão, cujas peças finais ainda estavam sendo moldadas sob a luz fria e impessoal da UTI neonatal. E, mesmo assim, nada em mim conseguia responder a ela com medo primeiro. Eu olhava para minha menina e tudo o que vinha era alegria. Uma alegria imensa. Limpa. Quase absurda. Eu me sentia sortudo. Sortudo por tê-la. Sortudo por ter construído uma vida que, embora não fosse perfeita, ainda era extraordinária. Sortudo por estar ao lado da minha melhor amiga. Sortudo por nós dois termos trazido ao mundo uma filha linda que, apesar das dificuldades, ficaria bem. Tudo ficaria bem. Pelo menos foi nisso que acreditei. Já fazia uma semana desde o nascimento da nossa filha. Minha rotina havia sido reduzida ao essencial: sair do hospital, ir para casa, voltar para o hospital, repetir. Não existia mais nada além disso. Meu mundo se limitava a Mary, à bebê, ao cheiro esterilizado daqueles corredores e ao som constante de máquinas registrando aquilo que antes eu jamais havia pensado que precisaria ser contado em números. Minha noiva precisou permanecer em observação por causa do parto de risco, o que fazia com que toda a tensão parecesse vir em dobro. Eu me dividia entre as duas sem jamais realmente sair daquele estado de alerta. Passei tanto tempo olhando para aquele ser minúsculo, perdido em pensamentos sobre o quanto minha vida havia dado certo, sobre o quanto eu tinha sido favorecido pelo destino, que quase não percebi a aproximação da enfermeira. — Com licença, você é Adrian Clark? — perguntou uma voz feminina, com uma hesitação leve, mas perceptível. Virei o rosto e encontrei uma mulher um pouco mais velha, segurando uma prancheta e um envelope pardo. Meu olhar desceu automaticamente para o cartão azul-marinho preso abaixo do crachá, onde se lia, em letras brancas e impessoais: RN — NURSE MANAGER. Abaixo da fotografia de uma mulher sorridente, o nome Elena brilhava sob a luz fluorescente da unidade. Elena não vestia o branco quase simbólico dos hospitais antigos. Usava scrubs azul-marinho impecáveis, de um tecido tão limpo e preciso que parecia repelir até a poeira daquele ambiente estéril. Sobre os ombros, uma jaqueta de fleece da Patagonia, com o emblema do hospital bordado em fios prateados, deixava clara sua posição de comando. Nos pés, tênis de corrida caros — pensados para absorver o impacto de turnos longos demais — deslizavam sem ruído sobre o piso de linóleo. Ela era a imagem exata da eficiência moderna: funcional, técnica, contida, desprovida de qualquer adorno que não tivesse utilidade clínica. Exceto por um pequeno pin em forma de girassol preso à gola — a única nota de cor naquele uniforme de guerra travada diariamente contra a morte. — Sim, sou eu. Aconteceu alguma coisa? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, mas carregada de tensão. Meus olhos foram imediatamente para a incubadora. — Com a pequena lutadora, está tudo dentro do esperado. Ainda não há atualizações. Mas precisamos falar com o senhor sobre outra coisa. Franzi a testa, confuso. Se não era sobre minha filha, então... — Mary... — comecei, já dando um passo na direção do quarto dela. Elena se moveu rápido e bloqueou meu caminho. Ergui os olhos para ela, agora tomado por uma confusão crescente e por aquele tipo de pânico que ainda não explodiu, mas já se instalou no peito. — Senhor Clark, por favor. Preciso que me escute, sim? A senhorita Walker está bem. Na verdade... ela recebeu alta há pouco. Soltei o ar devagar, num reflexo imediato de alívio. Pelo menos uma das duas poderia ir para casa. Mas a sensação morreu quase no mesmo instante. O rosto de Elena não tinha nada de tranquilizador. — Certo... imagino que eu precise assinar a papelada da alta dela? — perguntei, já sentindo alguma coisa se apertar dentro de mim. — Ela mesma assinou. E já foi embora. Fiquei em silêncio por um segundo. Um segundo inteiro, imóvel, olhando para ela sem entender. — Como assim foi embora? Por que ela iria embora sozinha? Ela teria me avisado... Elena abriu a boca, hesitou e tornou a fechá-la. Então, por fim, estendeu o envelope que trazia nas mãos. Peguei aquilo quase sem pensar, já com a sensação nítida de que alguma coisa estava profundamente errada — e, pior, com a certeza instintiva de que eu não queria descobrir o que era. — Ela pediu para lhe entregar isso. Disse que aí está tudo explicado. — Fez uma pequena pausa antes de me oferecer alguns papéis. — Também precisamos que o senhor preencha os documentos de registro da sua filha. Precisamos enviá-los ao setor responsável. Mas... antes, por favor, leia a carta da senhorita Walker. Olhei para Elena. Depois, para os papéis nas minhas mãos. Apenas assenti. Quando ela se afastou, sentei devagar e abri o envelope. Respirei fundo antes de começar a ler. Foi ali que eu entendi o quão cruel o universo podia ser. Minutos antes, eu era o homem mais feliz do mundo. No instante seguinte... Eu estava prestes a me tornar um pai sozinho, responsável por uma criança com possíveis dificuldades de desenvolvimento e problemas respiratórios. Sozinho.Adrian entendeu da pior maneira que Eloise estava falando a verdade.Após a partida dela, os médicos conversaram pessoalmente com ele, explicando as causas da crise após ouvirem o relato detalhado da brasileira.— A natação é excelente, Sr. Clark, mas ela não torna os pulmões da Amelie "normais". Eles continuam sendo os pulmões de um bebê que nasceu antes do tempo. O riso excessivo, o estresse ou o frio sempre serão gatilhos. O senhor não pode baixar a guarda — sentenciou o médico responsável, fazendo Adrian se sentir um completo idiota.Ele se sentou na poltrona ao lado da cama da filha, que ainda dormia, dividido entre a razão e a emoção. Percebeu que sua reação explosiva fora uma forma eficiente de afastar aquela mulher e seu filho antes que um problema maior surgisse e Amelie saísse ainda mais magoada; no entanto, sabia que o fim abrupto daquela amizade também deixaria a pequena triste. Adrian passou a mão pelo rosto, exasperado, sentindo-se culpado e ambivalente, incerto sobre o
— Pode deixar, senhor. Se precisar de qualquer coisa, é só me chamar. Ele apenas balançou a cabeça e saiu do escritório em passos largos. Adrian tentou ser o mais rápido possível no trânsito denso de San Francisco, acelerando acima do permitido em várias ocasiões. Os pensamentos martelavam em sua mente, punindo-o por não estar lá, por não ter visto as ligações e por ter quebrado a promessa silenciosa que fizera à filha após serem abandonados por Mary. "Ficaremos sempre juntos, eu e você, e nada vai mudar isso", ele se lembrava das palavras, embora Amelie fosse jovem demais na época para recordá-las. "Eu sempre estarei com você." Ao chegar ao hospital, estacionou na primeira vaga que encontrou e correu para dentro. Foi direto à recepção, onde uma funcionária loira alternava o olhar freneticamente entre o monitor e um papel em suas mãos. — Com licença, estou procurando por minha filha, Amelie Clark — disse ele, a respiração ainda alterada pela corrida. A moça levantou o olhar por
— Certo. Abre a porta do carro para mim, por favor — pediu a mãe. Thomas obedeceu prontamente. Eloise acomodou Amelie no banco do passageiro e administrou mais uma dose da bombinha, mas o medicamento parecia apenas conter o avanço do fechamento dos brônquios, sem revertê-lo totalmente. Enquanto isso, Cris já discava para o chefe, mas, após chamar algumas vezes, a ligação caiu na caixa postal. — Está caindo direto na caixa postal — avisou Cris, nervosa. Aquilo era inusitado; Adrian nunca deixava de atender, especialmente quando o assunto era Amelie. Ele jamais ignoraria um chamado sobre a filha. — Continue tentando! — Eloise disse, já fechando a porta do carro. — Diga a ele que estamos indo para o ZSFG. Ao dar a volta para entrar no veículo, Eloise percebeu que Thomas havia sumido. O pânico subiu por sua garganta; o menino estava ali há um segundo e ela não o vira entrar. Cris também olhou ao redor, confusa; não notara para onde ele fora. Eloise estava prestes a gritar o nome do f
Eloise já desistira de entender por que ficava tão nervosa na presença dele. Questionava-se repetidamente: seria apenas a aparência fora do comum de Adrian, um homem tão bonito e educado? Ela sabia pouco sobre sua personalidade ou seus feitos, o que apenas despertava mais curiosidade. Somando-se a isso, havia sua longa abstinência de contato com o sexo oposto. Existiam muitos motivos possíveis, mas ela se recusava a levar qualquer um adiante. Não via sentido em interessar-se por um homem de quem nem sequer sabia o motivo de ser um pai solo. Ela notara a ausência de uma figura feminina naquela casa, mas jamais tocara no assunto. Para Adrian, a estratégia era manter a distância. Ele tentava não deixar os pensamentos vagarem sobre a vizinha, mas frequentemente se pegava observando-a mais do que deveria. Admirava a maneira como ela falava com Thomas e Amelie: doce nos momentos certos e firme em outros. Com Amelie, notava que Eloise agia com cautela e respeito, ciente de que não era sua





Último capítulo